Como o desmatamento da Amazônia afeta os animais aquáticos

Este artigo, publicado no periódico científico Conservation Biology, investiga os efeitos do desmatamento da floresta Amazônica sobre a biodiversidade dos peixes de riachos.

A pesquisa, conduzida na bacia hidrográfica do rio Machado, em Rondônia, constatou que a maioria das espécies de peixes são ainda mais sensíveis ao desmatamento do que animais terrestres: mesmo com 80% das florestas intactas na região, 15 das 25 espécies estudadas podem desaparecer em menos de 10 anos.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Quais espécies de peixes de pequenos riachos podem ser prejudicadas ou beneficiadas pelo tempo e extensão do desmatamento em pequenos riachos da Amazônia Ocidental?

Por que isso é relevante?

Os ecossistemas de riachos recebem todos os impactos da paisagem que os circunda. Esses impactos, provocados por ações humanas que alteram o uso e cobertura do solo, possuem grande potencial para afetar a biodiversidade aquática. Ao identificar quais espécies são prejudicadas (sensíveis) ou beneficiadas (tolerantes) a um impacto humano sobre os ambientes naturais, conseguimos obter os elementos para avaliar a saúde do ambiente que está sendo estudado. Quando se estuda os efeitos do uso do solo sobre a biodiversidade aquática, geralmente se investiga a relação da situação atual da paisagem com os organismos aquáticos, o que nem sempre mostra claramente como as mudanças na paisagem ao longo do tempo influenciaram a biodiversidade aquática. Por outro lado, quando se incorpora a história do desmatamento nessa análise, é possível compreender melhor como essas mudanças afetaram a fauna ao longo do tempo em que as transformações ocorreram. Em outras palavras, obtém-se não apenas uma fotografia do cenário atual, mas sim um filme sobre como essas transformações da paisagem afetaram a fauna aquática.

Resumo da pesquisa

O principal direcionador das perdas de biodiversidade é o desmatamento. Para vertebrados terrestres, Henrik Andrén postulou, em 1994, que as populações naturais podem tolerar até 60% de perda do habitat original até que entrem em declínio, o que chamou de “hipótese dos limiares de extinção”. De fato, alguns autores já demonstraram que algumas espécies de aves e mamíferos suportam perdas de 50 a 70% de floresta até que suas populações entrem em declínio. Porém, será que os peixes são influenciados pelo desmatamento dessa mesma maneira? Podemos esperar que os peixes tolerem algo em torno dessas taxas de desmatamento, sem que sejam afetados? Para testar essa questão, a presente pesquisa foi desenvolvida na bacia hidrográfica do rio Machado, em Rondônia, pois essa região apresenta grande diversidade e endemismo de peixes (espécies restritas a essa bacia) e histórico recente de desmatamento (iniciado há menos de 50 anos). Nessa região, foram investigados 75 pequenos riachos, que abrigam 140 espécies de peixes, dentre as quais 25 foram fortemente afetadas pelo desmatamento. Destas, 15 espécies foram sensíveis ao desmatamento e podem desaparecer mesmo quando ainda restam 80% de florestas na região, e isso ocorre muito rápido (em menos de 10 anos). Por outro lado, 10 espécies são tolerantes e podem proliferar mesmo quando há altas taxas de desmatamento (mais de 60% da região desmatada).

Quais foram as conclusões?

A maioria das espécies de peixes é incapaz de suportar perdas de habitat na mesma intensidade da prevista para vertebrados terrestres, o que diverge do esperado pela hipótese dos limiares de extinção, tal como proposta originalmente. Além disso, as diferentes populações de peixes não respondem de forma linear ao tempo e nem à extensão do desmatamento nas microbacias onde estão inseridos esses pequenos riachos. A inclusão das informações sobre há quanto tempo ocorreu a retirada da floresta permitiu mostrar quão rápida é a resposta da fauna de peixes ao desmatamento, destacando esses animais como modelos para o planejamento sistemático de conservação.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Os resultados podem embasar cientistas e gestores que atuam no planejamento sistemático para conservação, restauração ecológica e zoneamento ecológico-econômico. Uma vez que as espécies de peixes de riachos são muito mais sensíveis ao desmatamento do que as espécies de vertebrados terrestres, a manutenção de áreas adequadas para a conservação da biodiversidade aquática influenciaria positivamente a conservação da biodiversidade terrestre. Estamos entrando em um período de adequação ambiental das propriedades rurais, em que há grandes passivos ambientais para recompor áreas que foram irregularmente desmatadas. Logo, esses profissionais poderiam incorporar os resultados dessa pesquisa no planejamento de desenhos de restauração que venham a otimizar o custo-benefício entre manutenção da biodiversidade e produção agrícola, estancando a perda de biodiversidade aquática e terrestre, ao mesmo tempo em que é regularizada a situação ambiental das propriedades rurais e o recurso aquático é protegido.

Gabriel L. Brejão é biólogo formado pela Esalq-USP (Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” da Universidade de São Paulo), tem mestrado em ciências ambientais pela Ufpa (Universidade Federal do Pará) e doutorado em biologia animal pela Unesp (Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”), com período de estágio no exterior na UNT (University of North Texas). Seu trabalho de doutorado foi desenvolvido com apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Atualmente é pós-doutorando vinculado ao departamento de Zoologia e Botânica do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas da Unesp.

Referências:

  • Brejão, G. L., Hoeinghaus, D. J., Pérez-Mayorga, M. A., Ferraz, S. F. B., Casatti, L. (2018). Threshold responses of Amazonian stream fishes to timing and extent of deforestation. Conservation Biology, 32, 860–871.
  • Andrén, H. (1994). Effects of habitat fragmentation on birds and mammals of suitable habitat: a review landscapes with different proportions. Oikos, 71, 355–366.
  • Muylaert, R. L., Stevens, R. D., Ribeiro, M. C. (2016). Threshold effect of habitat loss on bat richness in cerrado-forest landscapes. Ecological Applications, 26, 1854–1867.
  • Ochoa-Quintero, J. M., Gardner, T. A., Rosa, I., Ferraz, S. F. B., Sutherland, W. J. (2015). Thresholds of species loss in Amazonian deforestation frontier landscapes. Conservation Biology, 29, 440–451.

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