Qual o perfil da mulher que aparece nas capas de revistas

Esta tese de doutorado, realizada na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), avalia a discrepância entre o perfil da mulher brasileira e o perfil da mulher que aparece nas capas de revistas femininas – e como a falta de mulheres negras nesse espaço pode reforçar desigualdades.

Por meio de um levantamento de exemplares das revistas Claudia e TPM entre os anos de 2004 e 2014, a autora concluiu que mulheres negras dificilmente são retratadas nas primeiras páginas dessas publicações.

A qual pergunta a pesquisa responde?

A pesquisa detalha quem são as mulheres que aparecem em revistas femininas brasileiras do século 21 e como elas são retratadas como personagens nas reportagens. Considerando os estudos feministas — com base em autoras como Anne McClintock, Susan Bordo, Susana Funck e Kimberlé Crenshaw —, e os estudos culturais — levando em conta ainda autoras como Lilia Schwarcz, Sueli Carneiro, Nilma Gomes, entre outros —, o trabalho também detalha quem são aquelas mulheres que são invisibilizadas nesses discursos, e como isso impacta na forma como as leitoras veem a si mesmas e na configuração social como um todo. As análises demonstram como estar na mídia é, afinal, estar em um espaço de privilégio, e o modo como esses processos vêm reiterando desigualdades em relação a determinados grupos, em especial, das mulheres negras. O trabalho, que originou o livro “Cores e contornos”, tem uma proposta interseccional, de discussões que relacionam gênero e raça.

Por que isso é relevante?

Estar na mídia é, essencialmente, estar em um espaço de destaque e privilégio. Privar determinados grupos desses lugares é privá-los de um campo de visibilidade e de reconhecimento. É manter determinados grupos sob a aura da exclusão, além de reforçar, nesse público, um sentimento de inadequação, não apenas em relação à própria imagem, como também na sociedade em que se insere. O distanciamento entre as personagens mais frequentes de revista e as mulheres das ruas beira a uma esquizofrenia que consolida frustrações e reforça desigualdades vistas nas demais áreas sociais. Quando se fala aqui em visibilidade, estamos nos referindo à necessidade de reivindicar visibilidade às pessoas como, de fato, agentes e protagonistas sociais. Não se trata, portanto, de reforçar estereótipos ou expor determinadas mulheres apenas sob a perspectiva do preconceito que sofrem, por gênero ou raça, mas de destacá-las como agentes sociais. É necessário pensar no valor dos meios de comunicação para a maior igualdade e garantia dos direitos humanos, e isso passa por retratar os mais diversos grupos e sujeitos.

Resumo da pesquisa

As revistas voltadas para as mulheres justificam a própria existência atestando seu impulso à liberação feminina ou, ainda, afirmando-se como guias práticos para entretenimento e ações do cotidiano. No entanto, considerando edições do século 21 das revistas Claudia e TPM, percebemos que propõem, como sua personagem central, aquela que é profissional, mãe, heterossexual e, especialmente, magra e branca. Assim, os magazines não deixam de supor uma coerência e homogeneidade em relação a seu público. Fora do eixo das grandes empresas de comunicação, surgiu AzMina como uma revista digital de tônica feminista, que vem apresentando outros modelos de mulheres, embora também trate de temáticas como moda e maternidade, tão conhecidas nos veículos mais tradicionais. Com base nos estudos feministas e nos estudos culturais, pretendemos, então, olhar para matérias e capas dos magazines como narrativas contemporâneas. A intenção é aferir quem são essas mulheres que costumam aparecer nas páginas e quem são aquelas que pouco ou não aparecem nesses espaços privilegiados. Afinal, é preciso considerar as mulheres das páginas, as mulheres das ruas e o contexto compartilhado por todas elas.

Quais foram as conclusões?

As narrativas de revista pressupõem escolhas e remetem a uma configuração histórica, social e cultural que foi amplamente debatida na pesquisa. No levantamento quanto à representatividade, consideramos as capas das revistas femininas brasileiras impressas Claudia e TPM, entre 2004 e 2014. Na revista Claudia, apenas 5% das capas contaram com mulheres negras — Camila Pitanga e Taís Araújo, que apareceram algumas vezes, e Débora Nascimento, que esteve em uma capa. Há uma evidente supremacia branca na revista. Na TPM, em aproximadamente 9% das capas há personalidades negras, e o time de pessoas negras representadas foi mais variado; mas também no veículo da Editora Trip se mantém a discrepância em relação à composição racial da sociedade brasileira. No fim das contas, esse corpo feminino, ao menos no papel, é um corpo essencialmente branco, sem qualquer marca de velhice, de cicatriz ou de gordura. A revista eletrônica AzMina vem destacando mulheres comuns, a partir de vários lugares de fala, conferindo representatividade a grupos até então invisibilizados. É preciso debater esses processos e relacionar os produtos midiáticos à sociedade onde se inserem.

Quem deveria conhecer seus resultados?

O trabalho é voltado para jornalistas e para quem pesquisa questões de gênero e raça, mas pretende ir além. As pesquisas iniciais sobre revistas femininas começaram nos primeiros anos de faculdade e o objetivo central sempre foi fazer com que as mulheres (incluindo a mim) questionassem os discursos normatizadores que recaem sobre elas, por todos os lados. E, a partir daí, que conseguissem encontrar formas de serem mais livres e de aceitarem seus corpos. Como leitora branca, demorei para perceber que, se, para mim, as revistas registravam uma repetição de corpos magérrimos impositiva e autoritária, os discursos eram extremamente excludentes e discriminatórios para as mulheres negras. Esse trabalho é uma tentativa, portanto, de detectar e ajudar a combater as desigualdades e os discursos opressores que relegam determinados grupos a lugares de subalternidade na sociedade. É um esforço para que se pense nas imagens e mesmo nas práticas jornalísticas que vêm sendo continuamente repetidas ao longo das décadas.

Gabrielle Vivian Bittelbrun é jornalista, pesquisadora bolsista do Programa Newton Mobility Grant (2018-2020), do órgão financiador British Academy. Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Literatura da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), da linha de pesquisa críticas feministas e estudos de gênero, com estágio-doutoral na Universidade do Minho, em Portugal, no curso de doutoramento em modernidades comparadas. Mestra em jornalismo também pela UFSC (2011) e graduada em comunicação social, com habilitação em jornalismo, pela Unesp (Universidade Estadual Paulista, 2008). Tem experiências como docente, assessora de imprensa, repórter e editora. É autora do livro “Cores e contornos: gênero e raça em revistas femininas do século 21”.

Referências:

  • BITTELBRUN, Gabrielle V. Cores e contornos: gênero e raça em revistas femininas do século 21. Florianópolis: Insular, 2018.
  • BORDO, Susan. Unbearable weight: feminism, western culture, and the body. Berkeley, Los Angeles, Londres: University of California Press, 2003.
  • CARNEIRO, Sueli. Gênero, raça e ascensão social. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 3, n. 2, p. 544-552, 2o semestre de 1995.
  • CRENSHAW, Kimberlé. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero. Revista Estudos feministas, vol.10, n.1, p.171-188, 2002.
  • FUNCK, Susana B. Desafios atuais dos feminismos. In: STEVENS, Cristina; OLIVEIRA, Susane R. de; ZANELLO, Valeska. Estudos feministas e de gênero: articulações e perspectivas. Florianópolis: Ed. Mulheres, 2014. p. 22-35.
  • GOMES, Nilma L. Sem perder a raiz: corpo e cabelo como símbolos da identidade negra. Belo Horizonte, Autêntica, 2008.
  • MCCLINTOCK, Anne.Couro imperial: raça, gênero e sexualidade no embate colonial. Tradução de Plínio Dentzien. Campinas: Editora da Unicamp, 2010.
  • SCHWARCZ, Lilia M. Nem preto nem branco, muito pelo contrário: cor e raça na sociabilidade brasileira. São Paulo: Claro Enigma, 2012

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