O impacto das relações de trabalho na televisão norte-americana

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Esta tese de doutorado, elaborada na Unesp (Universidade Estadual Paulista), examina o efeito de mudanças nas relações de trabalho sobre a forma e conteúdo de séries televisivas dos Estados Unidos a partir dos anos 1970.

Entre as conclusões, o autor argumenta que a introdução de modelos toyotistas de visualização do fluxo de trabalho influenciaram a valorização da imagem nas séries americanas, que até então seguiam um formato radiofônico, com ênfase no som.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Há dois pressupostos centrais à pesquisa. O primeiro reconhece que quase todas as pessoas trabalham. O trabalho é uma categoria central para a manutenção e para a reprodução da vida humana no planeta. O segundo concebe que, a partir dos anos 1950, a televisão representa uma das principais formas de mediação cultural entre indivíduos e sociedade. Quando comparada à dança, ao teatro, à literatura e ao cinema, resta pouca dúvida de que a televisão atinge muito mais pessoas por muito mais tempo e, por isso, está mais presente nas conversas animadas em torno da mesa ou na pausa para o café. Considerando que ambas as esferas do trabalho e da televisão são tão centrais à nossa vida, as questões iniciais que me motivaram foram: existiria uma relação, por mais indireta e mediada que fosse, entre os modos de organização do trabalho e as representações ficcionais mais populares? Caso exista, como as obras televisivas, em particular as séries, articulam-se ao mundo do trabalho? Curiosamente, ainda não havia nenhuma pesquisa que buscasse compreender isso.

Por que isso é relevante?

Quando aceitamos a importância e a centralidade do trabalho – ou seja, seu papel na produção e na reprodução material da vida, no metabolismo que transforma a natureza em bens que garantem a nossa sobrevivência, e nas mais diversas formas que esse processo ocorreu ao longo da história – é difícil não vislumbrar os variados aspectos da sociedade em sua relação com o trabalho. A educação, a família, a religião: todas essas instituições já foram estudadas a partir da perspectiva da organização social do trabalho. Hoje compreendemos bem como elas cumprem a função de manter o metabolismo social em funcionamento e em equilíbrio. Os estudiosos que se dedicam à compreensão de obras de arte, como críticos literários, críticos de arte e intérpretes culturais, muitas vezes nos colocamos à parte do mundo do trabalho. Devido a uma visão romântica ainda muito presente, compreendemos a cultura – em seu sentido restrito – como uma alternativa (ou fuga) ao universo da necessidade. Deixamos a vida material para historiadores, geógrafos e sociólogos para nos dedicarmos a uma suposta vida do espírito. Minha pesquisa mostra que, pelo contrário, ambas as esferas são indissociáveis.

Resumo da pesquisa

Nesta tese, examino a relação entre as transformações que ocorreram no mundo do trabalho a partir de meados da década de 1970 e as novas formas de narrativa seriada televisiva que se tornaram predominantes nos Estados Unidos. Argumento que o impacto das crises econômicas no imaginário dos profissionais norte-americanos e as políticas neoliberais do governo subsequente de Reagan contribuíram com a formação da nova ficção do horário nobre, e que a reorganização do trabalho desde então continua a determinar os modos dramáticos das séries contemporâneas. Detenho-me particularmente na transição do modelo fordista-taylorista de organização produtiva para o modelo toyotista e, de acordo com teóricos do trabalho, comento os impactos psicológicos do aumento da concorrência entre os trabalhadores devido à flexibilização de contratos, à terceirização e à crescente desigualdade social. Analiso desde traços gerais de obras celebradas das décadas de 1980 e 1990 até a última série de David Simon, The Deuce (2017–), que articula questões de trabalho e representação com um segmento específico: o trabalho sexual e a pornografia.

Quais foram as conclusões?

Conforme fui conhecendo os detalhes da situação norte-americana, desde meados dos anos 1970 até os anos 2000, fui percebendo formas equivalentes de articulação nas séries. Não só em termos de assunto – séries que versam sobre o trabalho – mas também em relação à forma, descobri que há uma correlação indisputável entre organização laboral e dramatização. Eis alguns exemplos: o trabalho se torna mais visual, com instrumentos toyotistas de visualização do fluxo de produção; as séries passam de um modelo radiofônico para a ênfase na imagem, que propaga cada vez mais informação, em detrimento do som. O trabalho exige mais comunicação entre as partes, com reuniões de feedback e com a incorporação da mão de obra feminina, além de todo o tipo de atividade social estimulada pela empresa. Também a “família do trabalho” compartilha mais do que os segredos do ofício: ela cria uma esfera de intimidade e articulação das emoções, como nas novelas. O trabalho exige mais esforço cognitivo, atenção ao detalhe e flexibilidade (multi-tasking); as séries se tornam mais complexas e “treinam” o espectador por meio de enredos complicados e trabalho de câmera mais elaborado.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Como articula dois planos, trabalho e ficção popular, acredito que a pesquisa seja benéfica a todos que desejam obter conhecimento ou se aprofundar nesses assuntos, tão centrais à nossa existência. Há uma expectativa maior de prestar serviço aos estudos culturais, já que boa parte desse campo pretende justamente articular cultura e sociedade. Por isso, esforcei-me em elaborar e comentar questões metodológicas ao longo da tese. Também enfatizo a importância do letramento, seja em termos literários ou midiáticos. Nosso contato com o mundo se faz de forma mediada, por isso precisamos de fluência no campo simbólico. Leituras, análises e interpretações informadas da ficção popular, que façam conexões com o dia a dia, são oportunidades de educação. Devido ao conhecimento adquirido em minha formação prévia, restringi-me ao caso dos Estados Unidos. Contudo, acredito que a pesquisa tenha validade global, já que eles são os maiores exportadores de cultura de massa. Além disso, as transformações causadas pela desregulamentação do mercado, pela supressão de organizações laborais e pela competição global se fazem sentir em toda parte.

André Carvalho é bacharel em letras (inglês e português) pela USP (Universidade de São Paulo), possui mestrado em estudos linguísticos e literários em inglês pela USP e doutorado em letras (teoria e estudos literários) pela Unesp (Universidade Estadual Paulista). Foi professor substituto da UFTM (Universidade Federal do Triângulo Mineiro). Atualmente, realiza estágio pós-doutoral no Programa de Pós-Graduação em Inglês da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Atua principalmente nas seguintes áreas: literatura inglesa e norte-americana, estudos culturais, teoria literária, televisão e cinema.

Referências:

  • ALVES, G. Trabalho e subjetividade: o espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório. São Paulo: Boitempo, 2011.
  • ANTUNES, R. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. São Paulo: Boitempo, 2009.
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  • GITLIN, T. Inside Prime Time. New York: Pantheon Books, 1983.
  • HARVEY, D. A Brief History of Neoliberalism. Oxford: Oxford University Press, 2005.
  • HARVEY, D.. The Condition of Postmodernity. Cambridge: Blackwell, 1990.
  • LAVAL, C.; DARDOT, P. A nova razão do mundo: ensaios sobre a sociedade neoliberal. Tradução: Mariana Echalar. São Paulo: Boitempo, 2016.
  • MITTELL, J. Complex TV: The Poetics of Contemporary Television Storytelling. New York: New York University Press, 2015.
  • SENNETT, R. The Corrosion of Character: The Personal Consequences of Work in the New Capitalism. New York: Norton, 1998.

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