O diálogo entre funk e igrejas pentecostais na periferia

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Esta dissertação de mestrado, realizada na Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo), analisa como jovens de camadas populares transitam entre duas influências culturais opostas em muitos sentidos: o funk e as religiões pentecostais.

A autora aponta que o funk, ligado ao hedonismo e à sexualidade, é mais associado à juventude periférica; enquanto o pentecostalismo, de caráter ascético, é associado à vida adulta. Há ainda os que partilham das duas referências, em “um processo complexo de negociação constantemente recriado”.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Como discursos aparentemente tão díspares, como são as manifestações pentecostais e a cultura funk, convivem em um mesmo espaço, não apenas formando visões de mundo opostas, mas também interagindo e possibilitando o trânsito entre elas nas periferias urbanas.

Por que isso é relevante?

As manifestações da cultura funk e da religiosidade pentecostal se mostram opostas em muitos sentidos. O funk, supostamente ligado à fruição e à sexualidade; e o pentecostalismo, marcado pelo caráter ascético e pelo controle dos corpos. Contudo, a pesquisa descobriu que, mesmo em suas contradições, as províncias do funk e do pentecostalismo são transpostas por sujeitos que, empregando singulares estratégias de negociação, reinterpretam ambos os domínios em termos próprios, revelando a complexidade da associação entre religião, arte e cultura nas periferias urbanas.

Resumo da pesquisa

Por meio de uma análise socioantropológica, o estudo sobre a circulação entre as duas fronteiras simbólicas aparentemente díspares coloca em evidência um complexo e intrigante processo de subjetivação e, ao mesmo tempo, de construção social da realidade. Esse trabalho é dividido em quatro capítulos. O primeiro deles traz a discussão sobre identidades no contexto contemporâneo, o trânsito entre fronteiras simbólicas e os estilos de vida urbanos. O segundo capítulo, também teórico, disserta sobre os universos do funk e do pentecostalismo, e a forma como ambos os domínios se inserem nos contextos das camadas populares. No terceiro capítulo, apresenta-se uma etnografia do bairro São Pedro V, em Vitória, Espírito Santo – resultado da observação participante realizada entre dezembro de 2013 e fevereiro de 2014.

Quais foram as conclusões?

A partir dos dados etnográficos e da análise das trajetórias, observei como as manifestações da cultura funk e das pentecostais assumem destacada importância nas sociabilidades das periferias. O funk e o pentecostalismo produzem referências opostas; contudo, alguns sujeitos transitam entre ambos os domínios em um processo complexo de negociação constantemente recriado. A cultura funk – ligada à fruição – se associa mais fortemente às representações juvenis das periferias; enquanto as manifestações pentecostais – ligadas ao ascetismo – se associam à vida adulta.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Gestores públicos e formuladores de políticas públicas para as periferias, em especial para as juventudes das camadas populares; pesquisadores das áreas da sociologia, da antropologia das juventudes, de urbanidades, da religião e da cultura.

Réia Sílvia Gonçalves Pereira é jornalista com mais de dez anos de experiência em comunicação comunitária, doutoranda em ciências sociais pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Pesquisa as camadas populares desde 2013. É autora de artigos e livros sobre religiosidade e juventudes das periferias.

Referências:

  • DAYRELL, Juarez. A escola “faz” as juventudes? Reflexões em torno da socialização juvenil. Educação e sociedade, v. 28, n. 100, p. 1105-1128, 2007.
  • VELHO, Gilberto. O estudo do comportamento desviante: a contribuição da antropologia social. In: ______ (Org.). Desvio e divergência: uma crítica da patologia social. Rio de Janeiro: Zahar, 1974. p. 11-28.

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