O discurso de ódio voltado ao gênero nas redes sociais

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte de nossos conteúdos são exclusivos para assinantes, mas esta seção é de acesso livre sempre. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

Esta dissertação de mestrado, realizada na ESPM-SP (Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo), investiga como discursos de ódio voltados a questões de gênero se reproduzem e são naturalizados nas redes sociais – e os dilemas éticos que suscitam.

Entre as conclusões, a autora aponta que, apesar de haver uma construção histórica dos discursos odiosos, os sites de redes sociais podem amplificá-los, por meio da criação de bolhas sociais, decorrentes dos filtros algorítmicos de conteúdo. Ela também defende que portais como Facebook, Twitter e YouTube são permissivos em relação a isso, por terem definições insuficientemente objetivas do que é discurso de ódio, e devem ser responsabilizados.

A qual pergunta a pesquisa responde?

O objetivo principal do estudo é investigar a naturalização dos discursos de ódio de gênero nas redes sociais. Duas questões nos guiaram durante o processo de pesquisa: 1) como surgem os discursos de ódio de gênero nas redes sociais; e 2) quais as causas desse fenômeno e suas consequências éticas para o reconhecimento da pluralidade e da diversidade de gênero? Também foi de extrema importância analisar se as redes sociais, como um dos mediadores desse discurso, se responsabilizam de alguma maneira pelo conteúdo violento presente nesses espaços. É importante apontar que partimos da noção de que o discurso de ódio é motivado e direcionado para grupos sociais que fazem parte de minorias políticas.

Por que isso é relevante?

A pesquisa apresenta grande relevância social, uma vez que estudamos, entre outras coisas, o preconceito e a discriminação de gênero, a violência simbólica e a liberdade de expressão na internet, especificamente nas redes sociais. Raquel Recuero afirma que ali o discurso de ódio pode encontrar ressonância e, assim, é legitimado por outros grupos através de apoio, curtidas e compartilhamentos. Dessa maneira, a importância de discutir de que forma uma plataforma comunicacional pode influenciar e contribuir para a reafirmação de preconceitos em uma escala muitas vezes imensurável é evidente, na medida em que trabalhamos para a manutenção de uma sociedade democrática. Além disso, a discussão de questões éticas também se faz presente, por pelo menos duas vertentes. Uma, a análise dos usuários que consomem e produzem discursos odiosos sob o pretexto de estarem somente compartilhando uma opinião pessoal, influenciados por uma ideia liberal de liberdade de expressão. Outra, o debate sobre as políticas de privacidade e padrões éticos estabelecidos pelas próprias redes sociais.

Resumo da pesquisa

As discussões acerca das questões de gênero ganharam espaço na mídia e na agenda pública nos últimos anos, principalmente em redes sociais. Os indivíduos que frequentam esses espaços têm a possibilidade não só de consumir, mas de produzir, reproduzir, compartilhar e divulgar conteúdos relacionados a praticamente todos os temas, de maneira muito rápida e com um alcance muitas vezes imensurável. Assim, de acordo com o tipo de conteúdo produzido e consumido, esses sites podem tanto ser um espaço de transformação, quanto um espaço que reforça ideias conservadoras e discriminatórias.

Dessa maneira, algumas discussões são basilares para a construção do nosso trabalho, tais como: 1) compreender o que é o discurso de ódio e quais suas consequências sociais do ponto de vista ético, comunicacional e do consumo; 2) entender como se dá a produção, circulação e o consumo desse tipo de discurso nas redes sociais; e 3) discutir os limites entre a liberdade de expressão e a defesa dos valores democráticos como a ética e os direitos humanos. Para a elaboração da pesquisa empírica proposta nesse trabalho optamos por focar em quatro sites de redes sociais: Facebook, Instagram, Twitter e YouTube. Do ponto de vista metodológico, apoiamo-nos na hermenêutica de profundidade proposta pelo sociólogo John B. Thompson.

Quais foram as conclusões?

O discurso de ódio de gênero surge nas redes sociais porque já faz parte do cotidiano, uma vez que é historicamente naturalizado; mas também porque as plataformas, por meio da permissividade que dão para esses discursos e das bolhas sociais criadas como consequência dos algoritmos, contribuem para uma disputa de poder, onde uma opinião é sempre correta, e a outra, errada.

Do ponto de vista da ética do reconhecimento, os discursos de ódio na amostra são antiéticos, pois há a necessidade de uma justiça social que não exija apenas estratégias de reconhecimento e representação, mas também estratégias de redistribuição das questões materiais derivadas da diferenciação entre classes e gênero. Porém, essa justiça social não é aplicada, já que os sujeitos não são nem mesmo reconhecidos, o que descortina problemas éticos, pois ser reconhecido por outra pessoa é fundamental para o desenvolvimento da identidade humana.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Essa pesquisa é importante para a sociedade como um todo, uma vez que se preocupa com a promoção de uma sociedade menos desigual. Consideramos essencial pensar em políticas e medidas que promovam tanto a representação dos sujeitos de grupos politicamente minoritários em razão do gênero, quanto o reconhecimento e a redistribuição de recursos, para que possam atuar e existir em igualdade na sociedade. Além disso, queremos chamar a responsabilidade das próprias redes sociais, que possuem definições rasas e subjetivas daquilo que consideram discurso de ódio e consequentemente geram uma permissividade para esses discursos, também em razão dos seus filtros algorítmicos.

Gabriela Agostinho Pereira é mestre pelo PPGCOM ESPM (Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Práticas do Consumo da Escola Superior de Propaganda e Marketing). Pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Ética Comunicação e Consumo. Professora da pós-graduação EAD da ESPM-SP. Possui experiência profissional com produção de conteúdo para redes sociais e administração de redes sociais. Graduada em comunicação social com ênfase em publicidade e propaganda pela ESPM-SP.

Referências:

  • BOURDIEU, Pierre. Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.
  • FRASER, Nancy. Reconhecimento sem Ética? Revista Lua Nova, p. 101-138, 2007. (Texto traduzido na integra da Revista Theory, Culture&Siciety, v. 18, p. 21-42, 2001).
  • FRASER, Nancy. Mapeando a imaginação feminista: da redistribuição ao reconhecimento e à representação. Estudos feministas, v. 15, n. 2, p. 291-307, mai./ago. 2007.
  • HONNETH, Axel. Luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais. São Paulo: Editora 34, 2003.
  • LEAL DA SILVA, Rosane et al. Discursos de ódio em redes sociais: jurisprudência brasileira. Revista Direito - GV, v. 7, n. 2, p. 445-468, jul./dez. 2011.
  • RECUERO, Raquel. A questão do ódio nos sites de rede social. Site Oficial Raquel Recuero, 2014. Disponível em: Acesso em: 13/05/2017
  • RECUERO, Raquel. Redes Sociais na Internet. Porto Alegre: Sulinas, 2014.
  • THOMPSON, John B. Ideologia e cultura moderna. Petrópolis: Editora Vozes, 2011.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.