Como jornais impressos estão fazendo a transição ao digital

Esta tese de doutorado, realizada na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), aponta como veículos de origem impressa estão repensando a produção e distribuição de seus conteúdos para ganhar espaço no ambiente on-line, que se tornou prioritário.

As conclusões trazem dez exemplos de boas práticas para fazer a transição ao digital. Entre eles, a exploração de novos formatos multimídia, a antecipação da jornada de trabalho e o trabalho em equipe entre funcionários – inclusive aqueles que não fazem parte da redação.

A qual pergunta a pesquisa responde?

A pesquisa busca entender como jornais impressos tradicionais estão trabalhando para trazer seus conteúdos informativos para o ambiente on-line com qualidade e credibilidade. Para isso, traz um panorama de mudanças no cenário recente em jornais internacionais, como o norte-americano The New York Times, os espanhóis El País e El Mundo e o argentino Clarín; e os brasileiros Folha de S.Paulo, O Globo, O Estado de S. Paulo, Gazeta do Povo e Zero Hora. Embora a maioria siga com fortes versões impressas, esses jornais (e tantos outros mundo afora) estão adaptando as formas de trabalho para o atual contexto, em que uma nova geração de leitores informa-se exclusivamente no ambiente on-line. O desafio é unir os valores tradicionais do jornalismo, como relevância e veracidade, com as características próprias do meio digital, que permitem, por exemplo, uma narrativa mais multimídia e interativa. Fazer as adaptações necessárias exige uma mudança de perfil dos novos profissionais das empresas jornalísticas, uma reorganização do fluxo de trabalho e inovação nos formatos narrativos empregados.

Por que isso é relevante?

A imprensa livre é um dos pilares da sociedade democrática. E, com uma geração já em idade adulta de nativos digitais (pessoas que cresceram em meio às novas tecnologias), é fundamental que jornais conquistem espaço na internet, oferecendo conteúdo relevante. Em tempos de fake news, é necessário fortalecer as empresas responsáveis por checar as informações que chegam ao público em geral, por investigar os órgãos públicos e denunciar irregularidades quando for o caso. O jornalismo mantém sua essência: levar informação verdadeira e relevante como prestação de serviço para o maior público de pessoas. Mas, para isso, é preciso repensar os formatos em que tal conteúdo é apresentado, pois números da indústria jornalística encontrados na pesquisa comprovam a queda da circulação de jornais impressos e são indicativos de crescimento do público nas plataformas on-line.

Resumo da pesquisa

A presente tese aponta a priorização da produção de conteúdo informativo para plataformas digitais em redações com um fluxo de trabalho até então regrado pelo ritmo do impresso como um novo e necessário ciclo de inovação em empresas jornalísticas. Trata-se de uma inversão de papel que acarreta mudanças de formatos narrativos e de processos de produção, com impactos em diferentes frentes, promovendo, por exemplo, a antecipação das jornadas de trabalho e a criação de diferentes deadlines dentro do mesmo dia. É um movimento que exige investimento em pessoal, tanto em quantidade quanto em qualidade, diante da necessidade de novos perfis de profissionais. A partir de entrevistas em profundidade com lideranças estratégicas de oito jornais, entre empresas do Brasil, da Argentina e da Espanha, busca-se problematizar essas mudanças vivenciadas no cenário atual e também aquelas projetadas para o futuro de curto e de médio prazo. Ao final do trabalho, são apresentadas dez ideias condensadas em um guia com exemplos de boas práticas para redações convergentes, com a identificação de demandas para o exercício da reportagem multimídia no cenário contemporâneo.

Quais foram as conclusões?

As conclusões são apresentadas em formato de um guia com ações para priorizar o conteúdo digital, contendo dez ideias defendidas pelo autor para aplicação prática em redações jornalísticas. De forma resumida:

  1. Assegurar a equiparação salarial entre funções equivalentes no ciclo impresso e no ciclo digital;
  2. Trabalhar em equipe, envolvendo inclusive profissionais que não fazem parte diretamente da redação;
  3. Promover a visão multimídia ao longo das diferentes etapas de produção, do planejamento até a distribuição;
  4. Investir em treinamento interno e incentivar o treinamento externo dos atuais e dos novos funcionários;
  5. Comprar ou desenvolver sistemas eficientes para publicação de conteúdo on-line;
  6. Criar um fluxo de atualização do on-line em diferentes momentos do dia, independentemente do noticiário factual;
  7. Ampliar a equipe para antecipar o ritmo de produção, trazendo parte dos jornalistas mais cedo para a redação;
  8. Cobrar pelo conteúdo, mas não por qualquer conteúdo;
  9. Explorar a prática da grande reportagem jornalística como espaço para inovação e experimentação de formatos;
  10. Incorporar o fluxo digital como prioridade.

Quem deveria conhecer seus resultados?

O trabalho é voltado principalmente para gestores de empresas de comunicação, jornalistas e futuros jornalistas. Mas é uma leitura que pode interessar também para todas as pessoas preocupadas com o papel da imprensa em uma sociedade democrática. É também uma reflexão para jovens que estão na fase de escolher a profissão, porque, apesar de todos os desafios, a pesquisa mostra que fazer jornalismo continua sendo uma atividade apaixonante. Há espaço para trabalhos relevantes e criativos em diferentes empresas. Espera-se também uma troca de ideias com outros pesquisadores da área da comunicação, pois a pesquisa proposta continua, mas agora com um novo olhar, que é para as empresas nativas digitais, veículos jornalísticos que estão fazendo a diferença e crescendo no ambiente on-line.

Alexandre Lenzi é estudante, profissional do jornalismo há mais de duas décadas, mestre e doutor na área. Atuou como repórter e editor em empresas em Santa Catarina, tendo reportagens reconhecidas com o Prêmio Fatma de Jornalismo Ambiental e o Prêmio Fiesc de Jornalismo Econômico. Tem experiência, ainda, em comunicação institucional e em ensino superior. Durante a realização da pesquisa de doutorado em jornalismo pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), passou por um período como pesquisador visitante no Center for Internet Studies and Digital Life, na Universidade de Navarra, em Pamplona, na Espanha. Atualmente, realiza estágio pós-doutoral na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul).

Referências:

  • LENZI, Alexandre. Inversão de papel: prioridade ao digital, um novo ciclo de inovação para jornais impressos. Florianópolis: Editora Insular, 2018. http://loja.insular.com.br/product_info.php/products_id/1158

  • Pesquisa brasileira de mídia 2015: hábitos de consumo de mídia pela população brasileira. Brasília: Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), 2015. http://www.secom.gov.br/atuacao/pesquisa/lista-de-pesquisas-quantitativas-e-qualitativas-de-contratos-atuais/pesquisa-brasileira-de-midia-pbm-2015.pdf

  • Pesquisa brasileira de mídia 2016. Brasília: Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), 2016. http://www.secom.gov.br/atuacao/pesquisa/lista-de-pesquisas-quantitativas-e-qualitativas-de-contratos-atuais/pesquisa-brasileira-de-midia-pbm-2016-1.pdf/view

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