Como povos indígenas ocuparam a América do Sul não andina

Esta tese de doutorado, elaborada na Universidade Federal do Paraná, faz um estudo comparativo das formas com que os povos Kaingang, de língua Jê, e Mbya, de língua Tupi-Guarani, estabeleceram seus territórios na América do Sul.

O autor aponta que a estrutura social e o processo de territorialização desses povos tiveram efeito sobre o desenvolvimento de seus idiomas. As diferenças linguísticas entre os Jê podem ser compreendidas como reflexo da distribuição dos Kaingang (e outros povos Jê) em “províncias”, sem centralização. Já os Mbya não formam grandes adensamentos e se distribuem em linhas territoriais, o que guarda relação com a dispersão geográfica do Tupi-Guarani.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Como a organização social de cada uma destas etnias possui relação direta com processos de produção e manutenção de territórios? A comparação da demografia entre as aldeias, os processos de constituição das lideranças morais e políticas, e os padrões de relação multicomunitários e de diferenciação linguística possibilitaram estabelecer modelos para a compreensão dos modos por meio dos quais as escalas sociológicas se constituem e como se relacionam à territorialidade. Decorrente disso, a pesquisa, ao propor o diálogo entre etnografia, arqueologia, etnohistória e linguística, contribui para um maior entendimento de processos de longa duração que permitiram aos povos de língua Jê e Tupi-Guarani, cada um a seus modos, civilizar grande parte da América do Sul não andina.

Por que isso é relevante?

Compreender como povos Tupi-Guarani e Jê organizam suas sociedades e produzem seus territórios é muito relevante devido à própria importância continental dessas matrizes civilizacionais. Esses povos criaram e seguem criando modos originais de habitar e produzir sentido no planeta Terra, possuem uma relação duradoura e direta com a constituição do Brasil, e, ainda assim, há uma enorme ignorância por parte significativa da sociedade nacional quanto à sua existência e às diferenças que produzem entre si e em relação aos não índios.

Resumo da pesquisa

A tese identifica e contrasta, a partir de dados etnográficos, as lógicas de produção territorial Kaingang (Jê) e Mbya (Tupi-Guarani). A premissa é que os processos de produção territorial, por serem passíveis de estudo na longa duração, são estratégicos para identificar como se constitui a morfologia social de cada grupo. Analiso como os Kaingang e Mbya, cujos territórios na bacia do rio Paraná são limítrofes há alguns milhares de anos, delimitam espaços e ambientes ao produzirem suas diversas escalas sociopolíticas. Este estudo pretende iluminar contrastes mais gerais observáveis entre povos Jê e Tupi-Guarani. As territorialidades Kaingang e Mbya são abordadas a partir de algumas estratégias analíticas, entre elas o mapeamento de relações intra e interaldeãs; a identificação das distintas escalas de sociabilidade; organização política; dados arqueológicos; e contraste com os dados etnográficos sobre outros povos “aparentados” linguisticamente, Jê e Tupi-Guarani.

Quais foram as conclusões?

A comparação das morfologias sociais Mbya e Kaingang evidenciou princípios que estruturam cada um desses povos, com repercussões evidentes em seus modos de territorialização e processos de diferenciação linguística. Para entendermos as diferenças linguísticas entre os Jê, devemos buscar compreender seus processos históricos de territorialização e o fato de que essa matriz civilizacional gera algo como “províncias”, sem que, entre essas, haja qualquer centralização. Esse processo deriva de algumas características socioterritoriais que os Kaingang compartilham com outros povos Jê, como a territorialização através de processos faccionais, a relação umbilical com a terra e a vigência de centros territoriais ou “aldeias-mãe”. Em contraste, a gerontocracia, a exogamia territorial e endogamia étnica são princípios que geram uma territorialidade através da dispersão geográfica, potencialidade Tupi-Guarani que os Mbya levam ao extremo. Entre os Mbya, o espaço geográfico não é determinante das relações conjugais e familiares; eles se distribuem por várias linhas sem constituir necessariamente grandes adensamentos.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Pessoas e instituições interessadas na compreensão e/ou atuação entre povos indígenas; professores interessados na aplicação da Lei 11.645/2008, sobre ensino da história indígena; profissionais que trabalham na educação escolar indígena; parlamentares; indigenistas de ONGs e instituições; arqueólogos; pesquisadores da história ameríndia; linguistas e etnólogos em geral.

Paulo Roberto Homem de Góes é etnólogo americanista com experiência na Amazônia ocidental (Katukina/Pano) e região sul do Brasil (Kaingang e Guarani). Bacharel em ciências sociais pela Universidade Federal do Paraná (2005). Mestre (2009) e doutor (2018) no programa de pós-graduação em antropologia social pela mesma instituição. Atua na elaboração de relatórios relativos à demarcação fundiária, assessoria a associações indígenas, processos de consulta e participação, planos de manejo de unidades de conservação, estudos de impacto ambiental e projetos de mitigação de impactos em comunidades quilombolas e indígenas. Assessora o Ministério Público do Paraná, integrando o Grupo de Trabalho sobre a presença indígena no litoral. Foi professor no curso de ciências sociais do IFPR/ Paranaguá e ministra aulas de etnologia na pós-graduação em antropologia na PUC/PR. Sócio da Jerivá Socioambiental Ltda.

Referências:

  • MICHAEL, Lev; CHOUSOU-POLYDOURI, Natalia; BARTOLOMEI, Keith; DONNELLY, Erin; WAUTERS, Vivian; MEIRA, Sérgio; O’HAGAN, Zachary. A Bayesian Phylogenetic Classification of Tupí-Guaraní. LIAMES 15(2): 193-221 - Campinas, Jul./Dez. - 2015
  • MOTA, Lucio Tadeu. A denominação Kaingang na literatura antropológica, histórica e linguística. In: Nova contribuição aos estudos interdisciplinares dos Kaingang. Tommasino, Kimye, Mota, Lucio Tadeu & Noelli, Francisco (org.) Londrina. EDUEL. 2004.
  • NIMUENDAJU, Curt Unkel. 1910 (2013). Quanto à Questão Coroado* Regarding the Coroado question. Tellus, ano 13, n. 24, p. 291-297, 2013. (Texto original publicado em 1910).
  • NOELLI, Francisco Silva. Sem tekoha não há teko: em busca de um modelo etnoarqueológico da aldeia e da subsistência Guarani e sua aplicação em uma área de domínio no delta do Jacuí/RS. Dissertação (Mestrado em História) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1993.

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