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Qual é o perfil da Frente Parlamentar Evangélica no Brasil

Esta tese analisa o perfil e atuação dos parlamentares da bancada evangélica entre 2003 e 2014.

Esta tese de doutorado, elaborada na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), analisa a composição da FPE (Frente Parlamentar Evangélica) e seus principais interesses no Congresso Nacional.

Entre as conclusões, o autor constatou que o perfil de parlamentar da FPE é de homens casados, de partidos de centro e direita, que atuam majoritariamente com pautas de cunho moral e social. Embora exista uma variedade de demandas da bancada, há também grande alinhamento ideológico, especialmente frente a temas relacionados à homossexualidade, ao aborto e a interesses religiosos corporativos.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Quem são e como se comportam os deputados federais da FPE?

Por que isso é relevante?

A partir de 1985, com o processo de redemocratização no Brasil, um novo ator político entra em cena: os evangélicos. A categoria abrange protestantes, pentecostais, neopentecostais e outros que porventura não queiram se enquadrar nesses termos. O Censo de 2000 já apontava que, em resposta à pergunta “qual a sua religião”, chegava-se a 35 mil respostas diferentes. Hoje, os evangélicos representam aproximadamente 23% da população, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). E, se outrora essa parcela da população tinha acanhada participação política no país, atualmente, sua ação para se aproximar do poder não deve ser ignorada. Articularam-se e, num projeto racionalmente instrumentalizado, fazem da política lócus extensivo de sua atuação eclesial. Como uma vez disse o ex-deputado estadual Carlos Apolinário, pouco tempo atrás se pregava “nas igrejas que a política era do diabo. Hoje em dia, os evangélicos estão começando a perceber a força que têm. Estão vendo que a organização política também pode ser usada em seu benefício e, por conta disso, estão elegendo seus representantes”. A formação da FPE em 2003 é a evidência disso.

Resumo da pesquisa

Este trabalho identifica o perfil e atuação dos parlamentares da FPE no Brasil durante o período entre 2003 e 2014. A partir das considerações de John Rawls e Jürgen Habermas, a tese projeta a relação do Estado com a religião em uma democracia liberal. Analisam-se os conceitos de secularização, Estado laico e razão pública. O desenho de pesquisa utiliza uma abordagem multimétodo ao combinar estatística descritiva, análise documental, entrevistas e etnografia. Os dados primários foram coletados via métodos qualitativos e os secundários por meio dos sites da Câmara dos Deputados e Tribunal Superior Eleitoral, Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar e IBGE.

Quais foram as conclusões?

Os principais resultados indicam que: (1) a FPE possui interesse praticamente homogêneo em questões de cunho moral, o que resulta em um alinhamento ideológico frente a estes assuntos; (2) a FPE apresenta uma atuação mais incisiva quanto a temas referentes à homossexualidade, ao aborto e a interesses religiosos corporativos; e (3) existe uma grande heterogeneidade de interesses, demandas e ações da FPE.

Quanto ao perfil dos parlamentares, observou-se que a composição da FPE é formada basicamente por adeptos do pentecostalismo e neopentecostalismo (65%), representados sobretudo pelas igrejas Assembleia de Deus e Universal do Reino de Deus. São na sua maioria homens (91%), casados (90,8%), cujo grau de escolaridade é abaixo do restante da Câmera. São em grande parte profissionais liberais (56%), muitos dos quais ocupam os meios de comunicação (17,58%). A maioria desses deputados são eleitos de forma direta (81,48%), portanto, no Brasil, pastores e partidos que não consideram a variável religiosa evangélica nas suas candidaturas correm sério risco de não alcançarem seus objetivos. Optam por partidos do centro e direita, com alto índice de trocas partidárias (76%). Seus projetos são voltados sobretudo ao social.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Todos aqueles que se interessam pela temática da relação entre política e religião no Brasil.

João Luis Binde tem graduação em ciências sociais pela Universidade Estadual de Londrina (2004); bacharel em teologia (2002) e pós-graduado em teologia pela Faculdade Teológica Sul Americana (2006). Mestre em ciências sociais, no campo política e sociedade, pela Universidade Estadual de Londrina. Doutor em ciência política pela Universidade Federal de Pernambuco. Coordenador de curso para tecnólogo em gestão pública e professor de sociologia no Instituto Federal do Mato Grosso – Campus Barra do Garças. Pesquisas na área de comportamento parlamentar e desenvolvimento rural.

Referências:

  • HABERMAS, Jürgen. A inclusão do outro: Estudos de Teoria Política. São Paulo: Edições Loyola, 2002. ______. Comentários à ética do discurso. Lisboa: Instituto Piaget, 1991. ______. Entre naturalismo e religião: estudos filosóficos. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2007. ______. Fé e saber. São Paulo: Unesp, 2013. ______. Mudança estrutural na esfera pública. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2003. ______. O futuro da natureza humana: a caminho de uma eugenia liberal? São Paulo: Martins Fontes, 2004. ______. Pensamento pós-metafísico: Estudos Filosóficos. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1990. ______. Teoria do Agir Comunicativo. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012. ______.
  • RATZINGER, Joseph. Dialética da secularização: sobre razão e religião. Aparecida: Ideias & Letras, 2007.
  • RAWLS, John. Justiça como equidade: uma reformulação. São Paulo: Martins Fontes, 2003. ______. O Direito dos Povos; seguida de “Idéia de razão pública revista”. São Paulo: Martins Fontes, 2004. _____. Uma Teoria da justiça. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

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