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A diversidade e resiliência do candomblé em Salvador

Esta pesquisa revela que – apesar da forte repressão – pessoas de diversos perfis sociorraciais frequentavam os terreiros de Candomblé na Salvador do início do século 20.

 

Esta pesquisa de mestrado, realizada na UFBA (Universidade Federal da Bahia), recupera registros de jornais que circulavam por Salvador entre os anos 1900 e 1920 para montar a composição sociorracial das pessoas envolvidas com religiões de matriz africana (que à época sofriam perseguição).

As conclusões revelam um perfil diverso de frequentadores do candomblé, não restrito à população negra e pobre (que ainda era, entretanto, maioria). O autor ressalta que as religiões afro-brasileiras tinham relação com figuras de poder público e social, e que os esforços de repressão eram atravessados pelo receio da popularização do culto.

A qual pergunta a pesquisa responde?

O objetivo da pesquisa foi analisar o perfil sociorracial dos indivíduos que buscavam os serviços mágico-religiosos do candomblé na cidade de Salvador entre os anos de 1900 e 1920. Por meio de um conjunto de textos jornalísticos (notícias, matérias, notas e colunas) coletado junto a sete jornais locais em circulação à época, foi possível observar a diversidade de atores sociais envolvidos com a religiosidade de matriz africana, em uma dinâmica que ia na direção oposta à perseguição vigente às religiões afro-brasileiras. Por intermédio desse estudo, procurei observar a mistura social, as ambiguidades, complexidades e contradições da sociedade soteropolitana do início do século 20.

Por que isso é relevante?

É preciso ter em mente que o período conhecido como “pós-abolição” no Brasil foi marcado por intensas tentativas de eliminação das manifestações culturais da população afro-brasileira, encaradas como bárbaras e primitivas – portanto, não condizentes com o modelo de civilização branco e europeu a que o país aspirava. Na Bahia, o projeto de modernização encampado por setores da elite tinha como um de seus alvos os terreiros de candomblé que se encontravam espalhados pela cidade de Salvador. Dito isso, a pesquisa contribui para uma compreensão mais complexa da sociedade soteropolitana daquele período, que demonstrava se mover sobre o terreno da ambivalência. Ainda que houvesse interdições morais da época à presença de gente da “boa sociedade” em terreiros e centros ligados à religiosidade de origem africana e uma perseguição promovida por parte da imprensa e levada a cabo pelo Estado por meio de seu braço repressor (a polícia), isso não foi motivo suficiente para impedir que pessoas de todas as classes sociais frequentassem terreiros de candomblé e consultassem mães e pais de santo.

Resumo da pesquisa

Com base em um conjunto de notícias de alguns jornais baianos, este trabalho discute a diversidade dos indivíduos e grupos sociais envolvidos com o candomblé de Salvador no início do século 20. O período analisado foi um registro significativo para poder observar a presença e a representatividade dos terreiros de candomblé no cotidiano da cidade. A percepção de que os frequentadores eram constituídos por indivíduos de diversas origens sociorraciais permitiu mensurar o alcance da religião e o seu lugar ocupado. Nesse sentido, por conta desse variado entrecruzamento de atores sociais que se achavam envolvidos de formas diversas com a religiosidade de origem africana, sinaliza-se a difusão do candomblé na vida social soteropolitana, revelando inclusive relações estreitas com figuras de poder político e social da cidade, que lhe conferiam proteção contra a repressão vigente à época. Embora a maioria dos indivíduos envolvidos com o candomblé no início do século 20 fosse composta por negros e mestiços empobrecidos, pôde-se observar que a religião afro-baiana passava por um processo de expansão, atingindo outros setores da sociedade soteropolitana e ampliando sua base de frequentadores.

Quais foram as conclusões?

O entendimento da composição sociorracial dos frequentadores e adeptos das religiões de origem africana como restrita à população negra e empobrecida da cidade de Salvador sempre pareceu passível de questionamentos. Ao longo do tempo, pesquisadores do campo da antropologia e da história encontraram evidências difusas de uma presença plural de indivíduos nesses ambientes de culto. Nesse sentido, a pesquisa revelou que o candomblé se expandia para camadas da sociedade que iam além daquela onde ele foi gerado, algo que se mostrou fundamental para o estabelecimento de alianças com figuras de poder e prestígio social. O candomblé se encontrava no horizonte dos habitantes da Salvador de início do século 20 e era um recurso que podia ser usado pela população, ainda que as tensões geradas pela perseguição e pelo racismo dificultassem sua procura. Dessa maneira, justamente por ocuparem certa centralidade no cotidiano da cidade e por angariarem uma clientela de frequentadores, simpatizantes e adeptos tão plural, que o candomblé e demais expressões de religiosidade afro-brasileira foram tão combatidos. Dificilmente algo periférico e marginal sofreria tamanha repressão.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Acredito que toda a população, e não só a comunidade acadêmica e aqueles inseridos na luta antirracista, uma vez que o preconceito às religiões de matriz africana é fruto do racismo estrutural da sociedade brasileira (por isso mesmo, convém chamar os atos de intolerância religiosa de racismo religioso). Apesar de a pesquisa revelar a pluralidade de indivíduos que se relacionaram de maneira positiva com o candomblé, o racismo nunca deixou de operar em paralelo, exigindo do povo de santo uma formidável capacidade de resiliência frente às adversidades. Olhar para o passado das relações raciais no Brasil é observar que o racismo varia na forma, mas não em sua essência.

Iury Abreu Tavares Batistta é mestre em estudos étnicos e africanos pela Universidade Federal da Bahia (Pós-Afro/UFBA) e bacharel em turismo e hotelaria pela Universidade do Estado da Bahia. Pesquisador na área da história social, com ênfase na cultura e religiosidade afro-brasileira, em particular o Candomblé.

Referências:

  • BRAGA, Júlio. Na gamela do feitiço: repressão e resistência nos candomblés da Bahia. Salvador: Edufba, 1995.

  • DUCCINI, Lucina. Diplomas e Decás: re-interpretações e identificação religiosa de membros de classe média do candomblé. (Tese de Doutorado), Universidade Federal da Bahia, 2005.

  • PARÉS, Luiz Nicolau. A formação do candomblé: história e ritual da nação jeje na Bahia. Campinas: Editora Unicamp, 2007.

  • SILVEIRA, Renato da. O candomblé da Barroquinha: processo de constituição do primeiro terreiro baiano de keto. Salvador: Edições Maianga, 2006.

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