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Como o terrorismo entrou na agenda da segurança sul-americana

Esta pesquisa analisa os mecanismos retóricos responsáveis por colocar o terrorismo na agenda da segurança sul-americana, em resposta ao narcotráfico e ao crime organizado

 

Esta pesquisa de mestrado, realizada na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), analisa como as pautas do narcotráfico (na tríplice fronteira entre Argentina, Brasil e Paraguai) e do crime organizado (na Colômbia) contribuíram para a inserção do terrorismo na agenda da segurança sul-americana.

Entre as conclusões, a autora aponta como esse processo pode ser visto como a continuidade de um discurso político originado nos Estados Unidos, voltado à identificação de ameaças externas.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Como ocorreu o processo de securitização do terrorismo na América do Sul? Os objetivos principais da pesquisa foram analisar a maneira como o terrorismo foi inserido na agenda de segurança sul-americana e as implicações deste processo sobre as relações entre os Estados Unidos e a América do Sul.

Por que isso é relevante?

Porque os impactos políticos da adoção de uma agenda antiterrorismo no continente sul-americano acabaram extrapolando o âmbito da segurança, refletindo diretamente sobre questões de cidadania, governabilidade e legitimidade. A análise das conflitualidades e violências da esfera internacional – bem como dos processos de negociação, administração e resolução de conflitos que incorporam informações sobre países da América do Sul – contribui diretamente para a valorização da ótica sul-americana nos estudos de política internacional e para uma melhor compreensão das redes de poder que estruturam as relações interamericanas.

Resumo da pesquisa

O presente artigo objetiva analisar o processo de securitização do terrorismo na América do Sul. Parte-se da hipótese de que a inserção do terrorismo na agenda de segurança sul-americana ocorreu por meio de dois movimentos adjacentes de securitização: do conflito interno colombiano no Norte Andino e das atividades ilícitas desenvolvidas na região da tríplice fronteira entre Argentina, Brasil e Paraguai no Cone Sul. A investigação foi estruturada a partir da contextualização histórica de cada um destes processos e da análise qualitativa de documentos oficiais e mídias locais dos países envolvidos, com base nas contribuições da Escola de Copenhague, no âmbito dos Estudos de Segurança Internacional. Por meio deste estudo, espera-se contribuir para uma melhor compreensão acerca das redes de poder que estruturam as relações interamericanas e do posicionamento dos atores sul-americanos em relação à sua agenda de segurança e às suas necessidades securitárias regionais.

Quais foram as conclusões?

A inserção do terrorismo na agenda de segurança sul-americana ocorreu por meio da sua associação com questões securitárias que já estavam sendo discutidas no continente, como o narcotráfico e o crime organizado. O que se observou foi a continuidade de um discurso político construtor de ameaças na política externa dos Estados Unidos em sua agenda de segurança para o continente americano. Assim como nos contextos de combate ao comunismo e às drogas no século 20, o discurso político da guerra ao terror legitimou a adoção de medidas excepcionais de contraviolência no subcontinente, sugerindo que a estratégia da política externa estadunidense para o continente americano é formulada com base no medo, na incerteza e na necessidade de maximização da segurança. Ao analisar os movimentos retóricos responsáveis por elencar cada uma das ameaças colocadas como prioridades na agenda de segurança estadunidense no último século, identifica-se um padrão discursivo responsável por produzir movimentos de exclusão e marginalização sociais, que, apesar de suas particularidades, demonstram que os sentimentos explorados pelo discurso político oficial são os mesmos – pânico, exceção, incerteza e medo.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Formuladores de políticas de segurança, profissionais da comunicação, sociedade civil e organizações que busquem melhor entender o contexto de segurança regional e as relações de segurança entre Estados Unidos e América do Sul. A metodologia também pode contribuir para as pesquisas de acadêmicos interessados nos temas de segurança discursiva, teoria das relações internacionais e segurança internacional.

Laura Vicentin Lammerhirt é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestra em ciência política e bacharel em relações internacionais pela mesma instituição. Trabalha com pesquisa na área de segurança internacional, com ênfase nos processos de securitização no âmbito das relações interamericanas.

Referências:

  • BUZAN, Barry; WAEVER, Ole; WILDE, Jaap de. Security: a new framework for analysis. Boulder: Lynne Rienner Publishers, Inc., 1998.
  • CRENSHAW, Martha. O terrorismo visto como um problema de segurança internacional. In.: HERZ, Monica; AMARAL, Arthur B. do. (Orgs.). Terrorismo e Relações Internacionais: perspectivas e desafios para o século 21. Rio de Janeiro: Editora PUC-Rio, 2010.
  • VILLA, Rafael D. O Paradoxo da Macrossecuritização: Quando a Guerra ao Terror não Securitiza Outras “Guerras” na América do Sul. Contexto Internacional, vol. 26, n.2, p.349- 383, 2014.

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