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Como são as interações ecológicas na região dos trópicos

Esta pesquisa feita por Guilherme O. Longo, da UFRN, e coautores, analisa interações de peixes em recifes ao longo de praticamente todo o Atlântico Ocidental. O paper contribui para melhorar as previsões de mudanças ecológicas globais

 

 

Este paper assinado por Guilherme O. Longo e coautores analisa interações ecológicas de peixes em recifes ao longo de praticamente todo o Atlântico Ocidental. A pesquisa ataca uma pergunta central na ecologia, com implicações importantes para previsões de impactos de mudanças globais. O escopo geográfico e de amostragem abrange desde a Carolina do Norte nos EUA até Santa Catarina, no Sul do Brasil.

Entre as conclusões, os pesquisadores destacam que mudanças nessas interações podem afetar a biodiversidade, processos ecológicos e benefícios providos pelos ecossistemas. Os resultados obtidos pelo trabalho contribuem para a formulação de ações que permitam preparação, adaptação e resposta a um cenário futuro de aquecimento do planeta, por exemplo.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Afinal, as interações ecológicas são mais intensas na região dos trópicos?

Por que isso é relevante?

Interações ecológicas como predação, herbivoria e parasitismo, são fundamentais para a biodiversidade, processos ecológicos e benefícios que um ecossistema natural pode oferecer. Atividades humanas têm causado perda de espécies e diminuição de abundâncias em todo o globo. Além das espécies, perde-se as interações ecológicas e seu papel no funcionamento dos ecossistemas. Entender como as espécies interagem hoje, contribui para prevermos as consequências da perda ou mudança na intensidade das interações no futuro em resposta aos impactos humanos.

Resumo da pesquisa

O objetivo foi avaliar a hipótese de que as interações bióticas são mais intensas nos trópicos usando peixes de recife, os consumidores cruciais na maioria dos recifes. Quantificamos a pressão de alimentação de peixes nos bentos (comunidade de organismos que vive no substrato de ambientes aquáticos) ao longo da latitude 61° no oceano Atlântico Ocidental através de 1.038 vídeos de áreas de recifes, onde todos os peixes foram identificados, dimensionados e o número de mordidas no substrato de recifes foi contado. As taxas de alimentação foram 2 a 22 vezes maiores em locais tropicais versus extratropicais. Esse padrão foi impulsionado por uma interação entre o modo de alimentação dos peixes e a temperatura, com os herbívoros dominando nas regiões tropicais (20 vezes mais altos), passando para onívoros nas regiões temperadas dos dois hemisférios.

 

Quais foram as conclusões?

Sim, as interações ecológicas que avaliamos são mais intensas nos trópicos! Observamos que as interações alimentares de peixes podem ser até 20 vezes mais intensas nos trópicos em comparação a locais fora dos trópicos. Isso ocorreu principalmente porque peixes herbívoros se alimentaram mais em áreas mais quentes, diminuindo em regiões mais frias e longe dos trópicos, onde peixes onívoros predominaram em ambos os hemisférios. O aquecimento do planeta também afeta interações ecológicas. Por exemplo, alguns peixes herbívoros de regiões tropicais estão se espalhando para áreas mais frias e distantes dos trópicos. Com isso, temos observado mudanças nas interações ecológicas, como o surgimento, a extinção ou até mesmo a intensificação de interações. Essas mudanças podem afetar a biodiversidade, processos ecológicos e benefícios providos pelos ecossistemas. As informações geradas neste trabalho nos permitem prever como serão essas mudanças contribuindo para ações melhor informadas que permitam preparação, adaptação e resposta a esse futuro cenário.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Esses resultados podem ser de interesse de quem faz manejo de pesca, ou seja, quais espécies estamos pescando e o que elas fazem e seus ambientes. Os peixes budiões e cirurgiões, por exemplo, são os principais responsáveis pelas interações nos trópicos. É nessas áreas que essas espécies são pescadas, consequentemente diminuindo a intensidade de suas interações. Essa diminuição pode causar grandes perdas de biodiversidade que não são consideradas ao pensar em manejo de pesca. De maneira similar, o trabalho traz uma linha de base de como são as interações ao longo do gradiente nos permitindo substituir variações no tempo (presente-futuro) por espaço (tropical-subtropical). Ou seja, entendendo como são as interações nos trópicos hoje, podemos prever como serão essas interações nas regiões fora dos trópicos que tendem a se aquecer. Logo, pode ser relevante à quem pensa políticas de ações do clima ou busca entender os impactos das mudanças globais nos ambientes marinhos. De maneira mais geral, a quem se interessa por pesquisa e biodiversidade em geral, além de ecologia e conservação marinha.

Guilherme O. Longo é  biólogo formado pela Universidade Federal de Santa Catarina, tem mestrado em ecologia e conservação pela Universidade Federal do Paraná, doutorado em ecologia pela Universidade Federal de Santa Catarina e pós-doutorado no Georgia Institute of Technology nos Estados Unidos. Atualmente é professor adjunto no Departamento de Oceanografia e Limnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, onde desenvolve atividades de pesquisa e divulgação científica na área de ecologia marinha apoiado pelo Instituto Serrapilheira. Sua pesquisa atual foca nos impactos das mudanças globais sobre os recifes brasileiros, e as atividades de divulgação científica são voltadas ao uso de mídias sociais e ciência-cidadã através da plataforma #DeOlhoNosCorais.

Referências:

  • Longo, G. O., Hay, M. E., Ferreira, C. E., & Floeter, S. R. (2019). Trophic interactions across 61 degrees of latitude in the Western Atlantic. Global Ecology and Biogeography, 28(2), 107-117.

 

 

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