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O debate sobre a ferrovia em Minas no início do século 20

Esta pesquisa, realizada na Fundação Oswaldo Cruz, analisa a discussão sobre a integração do norte de Minas Gerais ao restante do país por meio da construção de uma ferrovia entre 1902 e 1922

 

Esta pesquisa de mestrado, realizada na Fundação Oswaldo Cruz, analisa a discussão das elites econômicas e políticas sobre a integração do norte de Minas Gerais ao restante do país por meio da construção de uma ferrovia entre 1902 e 1922. Além disso, examina os impactos desse empreendimento, que trouxe consigo problemas ambientais e de saúde pública.

Entre as conclusões, o autor destaca que a ferrovia não foi um elemento propulsor de desenvolvimento econômico para a região como previram seus primeiros idealizadores. Além disso, constata que o que orientou a construção foram interesses comerciais e não a busca por integração territorial e modernização.

A qual pergunta a pesquisa responde?

A pesquisa trata das ideias e ações em torno da integração da cidade de Diamantina, Minas Gerais, a outros centros do país a partir da construção do ramal ferroviário da Estrada de Ferro Vitória a Minas, entre os anos de 1902 e 1922. O trabalho responde a questão acerca do conteúdo das discussões empreendidas pelas elites políticas e econômicas de Diamantina, de Minas Gerais e da capital federal em torno do tema do abandono do norte de Minas e as possibilidades de sua integração a importantes localidades brasileiras, por exemplo, a capital mineira, Belo Horizonte.

A ferrovia foi percebida pelas elites diamantinenses como a solução para a superação do atraso regional, isto é, da condição de sertão. O ramal inaugurado em 1914, embora fosse curto (147,5 km), tinha ligação direta com a Central do Brasil, à época, a segunda maior ferrovia do país (1.281,143 km).

Transformações importantes, no âmbito cultural e físico, ocorreram a partir da construção e inauguração da linha de Diamantina. Contudo, nos trilhos do almejado progresso vieram também alguns incômodos, como devastação da natureza e doenças, visto que os trens trouxeram mudanças ambientais e problemas de saúde pública.

Por que isso é relevante?

A relevância da pesquisa incide no fato de diversificar as formas de contar a história de uma região, o norte de Minas Gerais do início do século 20. Após o declínio de sua principal fonte de renda, a mineração, foi associada a signos de decadência, estagnação e esquecimento. Portanto, este trabalho analisa um tema pouco frequentado pela historiografia acerca do norte mineiro: o debate sobre a ferrovia de Diamantina, o processo de construção da linha férrea e seus impactos diversos no meio ambiente e saúde local.

Esta pesquisa contribui para a historiografia regional e nacional, haja vista que a construção das ferrovias brasileiras caminhou lado a lado com a própria construção de uma identidade para o país – cuja principal característica seria a modernidade.

Outro aspecto de distinção desta pesquisa refere-se ao esforço intelectual que busca entender a natureza como um problema histórico, contribuindo, assim, para um fazer historiográfico menos estereotipado e reduzido, por exemplo, a dualismos ou mesmo a perspectivas que entendem a natureza como um meio passivo, portanto, apenas cenário.

Resumo da pesquisa

A questão central é entender de que forma as elites de Diamantina, de Minas Gerais e da capital federal discutiram o tema do abandono do norte de Minas e das possibilidades de sua integração aos centros econômicos do Brasil. Para essas elites, o isolamento e o traçado essencialmente colonial de Diamantina e a condição de sertão atribuída à região eram empecilhos à sua incorporação ao Brasil e ao mundo moderno. As elites diamantinenses, com o auxílio da imprensa local, instrumentalizaram o discurso de isolamento regional a fim de angariar aliados para a perspectiva de que a ferrovia seria o caminho mais rápido e eficaz para promover a integração do norte de Minas e corrigir o descompasso entre seu peso político e sua relevância econômica vis-à-vis outras regiões do estado. Contudo, os trens trouxeram mudanças ambientais e problemas de saúde pública, como a chegada, em fins de 1918, da epidemia de gripe espanhola. Nos trilhos do almejado progresso, vieram também incômodos parceiros.

Quais foram as conclusões?

O processo de construção do ramal ferroviário de Diamantina é um bom exemplo de como o boom da era ferroviária brasileira: (1) não obedeceu a um plano de viação organizado; (2) foi oscilante; e (3) orientado, especialmente, por interesses econômicos, embora o discurso de integrar e construir uma identidade moderna para o país estivesse presente. Este estudo demonstra ainda que, por onde passou, além dos ruídos e da fumaça, as ferrovias produziram mudanças que podem ser sintetizadas em três grandes eixos: social, econômico e ambiental. Embora ao longo do século 19 e início do 20 a ferrovia tenha sido percebida como um sinônimo do progresso, em Diamantina não foi o elemento propulsor de seu desenvolvimento econômico como previram seus primeiros idealizadores. O argumento que contribuiu para viabilizar a construção ferroviária em sertões como Diamantina constantemente se tencionava com aspectos econômicos. O estado, que percebeu na integração territorial um aspecto importante para sua modernização, precisou conciliar seus objetivos com interesses comerciais que, na maioria das vezes, orientaram o traçado das ferrovias, pautado primeiramente em seus interesses de produção.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Esta pesquisa pode interessar a toda a sociedade, considerando que é de suma importância o conhecimento acerca das consequências ambientais e/ou riscos à saúde que grandes construções de engenharia civil podem produzir. Mais recentemente, na história do nosso país, o estado de Minas Gerais assistiu a dois grandes crimes ambientais: o rompimento das barragens nos municípios de Mariana (2015) e de Brumadinho (2019). Ter ciência de como, ao longo da nossa história, a construção de grandes obras e sua interface com a saúde têm se desenvolvido, pode contribuir para observamos as falhas e acertos que vêm se desdobrando até os dias atuais – como os exemplos citados acima. Destacadamente, deveriam conhecer os resultados desta pesquisa, instituições de ensino, empreiteiras envolvidas na construção de grandes obras civis, agências voltadas às questões ambientais e historiadores, sobretudo, os que se dedicam à análise histórica ambiental, regional e da saúde.

Ramon Feliphe Souza é graduado em história (2015) e bacharel interdisciplinar em humanidades (2013) pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri. É mestre  pelo Programa de Pós Graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz/Fundação Oswaldo Cruz (2018). Atualmente é doutorando do referido programa sob a orientação do professor Gilberto Hochman.

Referências:

  • SENNA, Nelson de. Anuário de Minas Gerais. Ano VI, Tomo 2, vol. 6, Belo Horizonte, 1918.

  • Relatórios da Estrada de Ferro Vitória a Minas, 1916. Pap. e Liv, Gomes Pereira [Rio de Janeiro], 1917.

  • Relatórios da Estrada de Ferro Vitória a Minas, 1918. Pap. Typ, Gomes Brandão, Marcondes e Cia [Rio de Janeiro], 1920.

  • Relatórios da Estrada de Ferro Vitória a Minas, 1919. Pap. Typ, Gomes Brandão, Marcondes e Cia [Rio de Janeiro], 1921.

  • Relatórios da Estrada de Ferro Vitória a Minas, 1920. Pap. Typ, Gomes Pereira [Rio de Janeiro], 1922.

  • Relatórios da Estrada de Ferro Vitória a Minas, 1921.Pap. Moderna, [Rio de Janeiro], 1922.

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