Como a identidade explica a política externa dos EUA

 

Esta pesquisa de doutorado, realizada no programa de pós-graduação em relações internacionais que reúne Unicamp, Unesp e PUC-SP, busca compreender em que medida a identidade norte-americana ajuda a explicar as ações de política externa dos Estados Unidos no período posterior à Guerra Fria. Para isso, são analisados os discursos que justificaram conflitos e guerras, como os que ocorreram no Iraque, Afeganistão e Kosovo.

Nas conclusões, a autora destaca que examinar a questão da identidade proporciona uma explicação complementar sobre as ações de política externa do país, além de apresentar a importância que certas ideias — como liberdade, igualdade, individualismo e democracia — têm no imaginário norte-americano. Elas são utilizadas em discursos e narrativas da política externa para dar significado e balizar as ações internacionais, usando essas intervenções para recuperar o sentimento de segurança.

A qual pergunta a pesquisa responde?

A pesquisa de doutorado responde a duas perguntas. Primeiro, em que medida a identidade de um país, no meu caso de pesquisa a identidade norte-americana, pode ser um fator explicativo das ações de política externa dos Estados Unidos. Em segundo lugar, como essa mesma identidade pode ter força representacional, ou seja, como ela pode servir de âncora para transladar a nação de momentos de insegurança ontológica (em outras palavras, insegurança da existência do “eu” no mundo) para um outro momento de segurança ontológica, em que as representações do “eu” para ele mesmo e para os outros são reorganizadas e voltam a formar um todo coerente.

Por que isso é relevante?

Os trabalhos de relações internacionais e ciência política que visam compreender decisões de política externa geralmente se inserem em duas frentes. A primeira busca entender tais ações por meio da identificação de interesses, materiais ou subjetivos. A segunda avalia como os discursos políticos utilizam certas ideias para legitimar uma ação externa. Tais vertentes, no entanto, apresentam algumas lacunas. A primeira, de modo inadvertido ou não, negligencia a existência de algo anterior à identificação de interesses, o qual se configura na imagem que o “eu” tem dele mesmo e dele no mundo; ou seja, que a identidade é aquilo que em primeira instância informa os interesses. A segunda, por outro lado, ao se focar em momentos pontuais, não percebe que as ideias mobilizadas para legitimar uma ação são recorrentemente empregadas, mesmo que em momentos históricos distintos. Isso, por sua vez, nos aponta para a existência de um núcleo central de compartilhamento de valores e ideias que podemos chamar de identidade. Por fim, se hoje as relações internacionais reconhecem que a identidade importa, a identificação de como ela importa e como ela estabelece as fronteiras das ações políticas é subteorizada.

Resumo da pesquisa

Como uma estrutura geral, o objetivo mais amplo desta tese é contribuir para o aprofundamento do debate em relações internacionais acerca da interconexão entre identidade e resultados políticos. Mais do que focar em como as articulações de uma identidade são realizadas por agentes específicos, esta tese está interessada em avançar no argumento de que a identidade "faz" alguma coisa e, portanto, tem através das práticas discursivas a capacidade do que chamei de “causalidade-na-constituição”. Dessa forma, proponho a elaboração de um modelo para avaliar como os dispositivos de uma identidade podem ser mobilizados em contextos políticos, mais especificamente nos processos de tomada de decisão de política externa dos EUA.

Nesse sentido, através da avaliação dos casos empíricos da construção das narrativas nos EUA para (des)legitimar as intervenções no Kosovo (1998/1999), a Guerra do Golfo (1999/1991), Afeganistão (2001) e Iraque (2003), apesar da intenção geral de desenvolver uma visão mais ampla do debate sobre política externa dos EUA após a Guerra Fria, esta tese também visa avaliar a força representacional da identidade como fonte de ordem para o âmbito nacional. Propõe ainda um gradiente, de momentos de menor a maior insegurança ontológica, através dos quais se pode visualizar a capacidade dos pontos de ancoragem da identidade para reassentar a identidade e colocá-la de volta no lugar.

Quais foram as conclusões?

Primeiro, que olhar para a identidade garante uma explicação complementar das ações de política externa dos EUA, bem como nos apresenta a importância que certas ideias têm no imaginário norte-americano. Ainda que tais ideias sejam operacionalizadas de modo diferente por governos ou em momentos específicos, existe uma latitude de significados por trás de liberdade, igualdade, individualismo e democracia que não só balizam suas utilizações enquanto gatilhos discursivos, mas também dotam de significação a ação política dos EUA. Dessa forma, em cada um dos casos analisados, as narrativas que vencem o debate público são aquelas que melhor conseguem falar a linguagem da identidade e inserir o uso da violência externa, via intervenções, na recuperação do sentimento de segurança. No caso mais extremo de (in)segurança ontológica, o Iraque, a utilização de medidas condenáveis, como a tortura, nos mostra que a identidade só tem condições de prover segurança ontológica até um certo ponto. Em momentos de trauma, como o 11 de setembro, a violência mais excepcional se apresenta como único meio à nação de se sentir segura.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Como todo trabalho acadêmico, a tese se beneficiaria do maior alcance possível ao escrutínio público. Do ponto de vista do pensar as relações internacionais, acadêmicos das ciências humanas, jornalistas e intelectuais poderiam ter interesse na tese para refletir sobre como um imaginário político sustenta uma atuação nacional no âmbito das relações interestatais. Por outro lado, do ponto de vista do fazer as relações internacionais, políticos e indivíduos que atuam nas mais diversas atividades internacionais podem se interessar pelo debate para aperfeiçoar suas interações e compreender melhor seus interlocutores.

Bárbara Vasconcellos de Carvalho Motta é doutora e mestre em relações internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (Unesp/ Unicamp/ PUC-SP), bacharel em relações internacionais pela UFF (Universidade Federal Fluminense). Integrante do Gedes (Grupo de Estudos em Defesa e Segurança Internacional) e autora do livro “Securitização e política de exceção” (Unesp), fruto de dissertação de mestrado premiada como a melhor de 2014 pela Abri (Associação Brasileira de Relações Internacionais).

Referências:

  • BOURDIEU, P. The forms of capital. In: RICHARDSON, John G. (Ed) Handbook of theory and research for the sociology of education. New York: Greenwood Press, 1986. p. 241-258

  • BOURDIEU, Pierre. Language & Symbolic Power. Cambridge: Polity Press, 1991.

  • BOURDIEU, Pierre. The Logic of Practice. Stanford: Stanford University Press, 1992.

  • MOTTA, Bárbara. Securitização e política de exceção: o excepcionalismo internacionalista norte-americano na segunda guerra do Iraque. São Paulo: Editora Unesp, 2018.

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