Duas versões de Charles Chaplin do filme Em Busca do Ouro

 

Esta pesquisa de mestrado, realizada na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), analisa a mudanças feitas por Charles Chaplin no filme “Em Busca do Ouro” (The Gold Rush), da primeira versão silenciosa, de 1925, para a segunda, sonorizada e falada, de 1942. A dissertação discute se a produção se trata de uma tradução ou uma adaptação.

Nas conclusões, o autor reforça a peculiaridade do objeto estudado e destaca a questão da autoria de Chaplin e do grande controle que ele tinha sobre sua obra. Segundo o estudo, na nova versão, o artista enfatiza elementos que considera importantes, como seu personagem Carlitos.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Em minha pesquisa, procurei me orientar pelas seguintes questões: em que sentido a produção de uma versão sonora tão específica por Chaplin pode ser considerada uma tradução? E uma adaptação? Como ocorrem as mudanças de uma para outra versão? E, em um sentido mais amplo: por que Chaplin, autor associado ao cinema silencioso, e defensor dessa forma de cinema, lançou uma nova versão para seu filme, uma obra já estabelecida e conhecida, justamente com o acréscimo de sons, entre eles as falas de Chaplin? Utilizei como base os estudos da tradução, principalmente o conceito de tradução intersemiótica, ou tradução entre linguagens, proposto por Roman Jakobson e discutido por Julio Plaza; e também os estudos de adaptação, a partir de autoras como Linda Hutcheon e Julie Sanders.

Por que isso é relevante?

Em primeiro lugar, na pesquisa, discuto a obra de um dos principais diretores e atores da história do cinema, que influenciou praticamente a todos que o sucederam. Além disso, trata-se de um objeto mais específico da sua obra e bastante peculiar, mesmo dentro do campo mais amplo do cinema. É um elemento não muito conhecido, mesmo para os que conhecem Chaplin, e acredito que também pouco discutido. Além disso, acredito que a discussão realizada na pesquisa pode trazer contribuições para o campo teórico mais amplo no qual ela se situa, o dos estudos de tradução/adaptação.

No momento atual, de intensa circulação e tradução entre as mídias, pode ser produtivo observar um exemplo um pouco mais antigo, mas que aponta para profundas transformações e recriações. Além disso, o próprio fato de termos um objeto atípico pode trazer contribuições para o campo de estudo, ao mostrar uma ocorrência diferente da adaptação, que foge das suas formas mais comuns.

Resumo da pesquisa

Esta dissertação discute as duas versões do filme Em Busca do Ouro (The Gold Rush), de Charles Chaplin. A primeira, de 1925, com as características gerais do período do cinema silencioso, sobretudo a ausência de falas, e a segunda, de 1942, sonorizada e falada, com o acréscimo de comentários e diálogos pelo próprio Chaplin, além da presença de efeitos sonoros, música e alterações na montagem. Pretende-se refletir sobre essas versões a partir dos estudos de tradução e de adaptação, pensando-se, sobretudo, na existência de uma nova função exercida por Chaplin: a de tradutor/adaptador. São abordadas fundamentalmente as modificações e novidades trazidas, com destaque para o acréscimo da fala. Ao mesmo tempo, a pesquisa discute possíveis motivações e implicações das mudanças, pensando-se em um controle realizado pelo “criador Chaplin” com relação à sua obra, o que aponta para características mais amplas do trabalho do diretor e pode ajudar a explicar determinadas escolhas e desenvolvimentos em seus filmes.

Quais foram as conclusões?

Ao fim, reforço a especificidade do objeto discutido nesta pesquisa, bastante diferente dos casos mais comuns de adaptação ou versão cinematográfica. Temos uma tradução, uma adaptação, mas bastante peculiar. Procurei destacar, em meu texto, a questão da autoria de Chaplin e de seu grande controle sobre sua obra. Chaplin é um autor multifacetado: ator, diretor, montador, produtor, compositor de trilha sonora... Nessa nova versão de "Em Busca do Ouro", ele adiciona mais uma camada de sua autoria, controlando ainda mais a sua obra, e dando destaque para elementos que considera mais importantes. Principalmente, para aquela que talvez seja sua maior criação: o seu personagem Carlitos.

 

Quem deveria conhecer seus resultados?

De um modo geral, acredito que a minha pesquisa pode ser produtiva aos estudantes e interessados em cinema de modo geral, pela relevância da obra de Chaplin e das questões relacionadas a ela. Estudantes e interessados na área da comédia, em suas variadas formas, também podem se interessar, já que também observo em minha pesquisa a influência do som e da fala na criação do humor. Em relação ao próprio campo teórico em que a pesquisa se situa, penso que pesquisadores ou pessoas interessadas em questões de adaptação podem encontrar em minha pesquisa algumas reflexões produtivas e talvez motivadoras de outros estudos. Acredito que pessoas interessadas nas questões da linguagem poderiam aproveitar a minha pesquisa. Um dos elementos principais discutidos, o acréscimo das falas de Chaplin ao filme, envolve abertamente questões linguísticas, como a influência da linguagem verbal em uma obra fundamentalmente visual. Devido à grande relevância do cinema de Chaplin, acredito que mesmo pessoas de fora dos itens citados podem se interessar.

Diogo Rossi Ambiel Facini é graduado em letras pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), mestre e doutorando em linguística aplicada pela mesma universidade.

Referências:

  • HUTCHEON, Linda. Uma teoria da adaptação. Tradução de André Cechinel. Florianópolis: Editora da UFSC, 2013.

  • JAKOBSON, Roman. Aspectos Linguísticos da Tradução. In: Lingüística e comunicação. Tradução de Izidoro Blikstein e José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix, s/d.

  • PLAZA, Julio. Tradução intersemiótica. São Paulo: Perspectiva, 2010.

  • SANDERS, Julie. Adaptation and Appropriation. Nova York: Routledge, 2006.

 

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