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Qual o perfil de ex-escravos lavradores no Rio do século 18

Esta pesquisa, realizada na UFRJ, busca analisar o perfil socioeconômico e as estratégias de sobrevivência dos lavradores de cana de Campo Grande, Rio de Janeiro, na segunda metade do século 18

 

Esta pesquisa de mestrado, realizada na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), busca analisar o perfil socioeconômico e as estratégias de sobrevivência dos lavradores de cana da freguesia rural de Campo Grande, Rio de Janeiro, durante a segunda metade do século 18.

Entre as conclusões, o autor destaca que foram identificadas fortes hierarquias sociais no cotidiano dos alforriados lavradores de cana no período estudado, em grande medida relacionadas ao tempo de permanência das famílias nas terras da região. Segundo ele, essas desigualdades entre ex-escravos mostram algumas brechas que possibilitavam a atuação desses personagens.

A qual pergunta a pesquisa responde?

A pesquisa procurou entender o cotidiano de ex-escravos em uma área açucareira, suas estratégias de sobrevivência numa sociedade extremamente hierarquizada. Nesse contexto, estudos apresentaram tais sujeitos com alguma fragilidade socioeconômica: como personagens que, submetidos a relações paternalistas, aparecem agregados à casa dos seus antigos senhores; como sitiantes que migram para regiões de baixa capacidade produtiva, longe dos antigos senhores, buscando maior autonomia para suas vidas. Por outro lado, especialistas têm demonstrado que tratar ex-escravos como um grupo homogêneo é um grave equívoco. Havia fortes diferenças entre eles e diversas classificações sociais que podiam incidir sobre suas estratégias de vida.

No interior dessas discussões, procuramos entender como algumas famílias de ex-escravos permaneciam numa região açucareira por mais de quatro gerações, independente de suas antigas relações paternalistas, e se mantinham nas terras mesmo que os engenhos mudassem de senhor. Questiona-se se essa antiguidade resultava em diferentes classificações sociais entre eles — ou seja, hierarquias entre forros — e como isso se manifestava.

Por que isso é relevante?

Em alguns textos clássicos da historiografia, a lavoura de cana estava atrelada às elites econômicas e políticas na América Lusa do século 17. Através deste estudo, vemos um cenário diferente nas bordas dos engenhos de açúcar de uma freguesia rural do Recôncavo da Guanabara. Conseguimos identificar que, em fins do século 18, a origem dos lavradores de cana é apagada, pouquíssimos possuíam menção à cor ou condição jurídica. Com este trabalho, trouxemos à luz essas origens, chamando atenção para atuação desses forros enquanto lavradores de cana, ou seja, atrelados a uma das formas de produção econômica mais prestigiadas do período colonial. Nessa posição, é relevante demonstrar sua atuação enquanto chefes de uma casa, com autonomia na gestão de suas famílias no que diz respeito à transmissão dos seus patrimônios, na solidariedade com seus vizinhos, na dimensão do parentesco, enfim, na organização de seu cotidiano. Lembrando que esse é um momento de aumento da população como um todo, desde escravos, forros até a entrada de portugueses em toda a América Lusa. Esse contexto resulta em um complexo processo de hierarquização social — procura-se justamente historicizar esse fenômeno.

Resumo da pesquisa

Este estudo procura analisar o perfil socioeconômico dos lavradores de cana da freguesia rural de Campo Grande, Rio de Janeiro, durante a segunda metade do século 18. A região era caracterizada pelo sistema de partido de cana, sistema agrário no qual, ao lado dos escravos dos senhores de engenhos, a cana de açúcar era cultivada por lavradores livres. Tal forma de acesso à terra englobava mais da metade de sua população livre. Esse conjunto de lavradores deve ser compreendido no bojo das transformações que impactavam a cidade do Rio de Janeiro, transformada na principal praça mercantil do Atlântico Sul. A constante chegada de africanos cativos e o crescimento de uma população de forros também é visível em Campo Grande, entre os lavradores de cana, num contexto de mestiçagens sociais e culturais. Nesse cenário, busca-se apresentar as especificidades das classificações sociais presentes no espaço rural fluminense, enfatizando a agência de ex-escravos na formação de famílias, na chefia de domicílios, no matrimônio legal e grande parentela na vizinhança. Assim, procura-se rediscutir as hierarquias entre forros e algumas noções sobre fragilidade econômica e social dos ex-escravos.

Quais foram as conclusões?

Notamos intensas hierarquias no cotidiano dos forros lavradores de cana. Grande parte dessas diferenças se dava pela antiguidade de determinadas famílias na região. Algumas viviam ali há mais de 70 anos e o acesso à parte das lavouras de cana era mediado por elas. Exerciam papel fundamental nas dinâmicas fundiárias ao redor dos engenhos de açúcar cariocas. Seus descendentes não eram forros juridicamente, mas eram classificados como pardos forros. Eram designações fruto de sua origem genealógica, mas também da especificidade de suas casas e de suas parentelas. A família e a antiguidade na terra eram indicativos das suas qualidades sociais — conceito em voga na historiografia atualmente. Ainda que ramos das famílias de pardos forros se casassem com outros ex-escravos, parte dos forros, os pretos, tinham mais dificuldades de inserção — não se inseriam em parentelas livres, moravam em casas menos populosas e com baixa produção. Tais desigualdades entre ex-escravos demonstram as brechas de agência desses personagens, que não eram possíveis a todos. Nesse contexto, as famílias antigas de forros são ponto-chave nos processos de hierarquização social do período.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Notamos uma constante tentativa de diferenciação social na sociedade estudada, desde os membros da elite até os forros. Compreender que nossa sociedade foi forjada nessa constante busca de distinção é fundamental para refletirmos sobre nossas mazelas atuais. Alguns segmentos de forros conseguiam uma razoável mobilidade social e isso se refletia em novas classificações sociais, que indicavam mais do que a cor ou condição jurídica, o lugar sociopolítico desses personagens. E ao mesmo tempo que tal processo salienta a atuação de ex-escravos em busca de melhores condições de vida, demonstra como aquela sociedade ia hierarquizando o seu mundo, através da busca por bons casamentos, da capacidade de agregar pessoas à casa e das redes com muitos amigos e parentes, etc. Nesse sentido, tais resultados contribuem para pensarmos processos de hierarquização social em distintos estratos de nossa sociedade, devendo ser conhecido pelo público em geral.

Jerônimo Aguiar Duarte da Cruz é  mestre em história pelo Programa de Pós-Graduação em História Social da UFRJ e doutorando pela mesma instituição. É vinculado ao grupo de pesquisa do CNPq Antigo Regime nos Trópicos.

Referências:

  • CASTRO, Hebe M. Mattos. A escravidão moderna nos quadros do Império português: o Antigo Regime em perspectiva atlântica. In: FRAGOSO, João; BICALHO, Maria Fernanda & GOUVÊA, Maria de Fátima (orgs.). Antigo Regime nos trópicos: a dinâmica imperial portuguesa (séculos XVI-XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

  • FRAGOSO, João. Apontamentos para uma metodologia em História Social – RJ, séc. XVII- XVIII. In: Guedes, Roberto; Fragoso, João; Sampaio, Antônio Carlos Jucá de (org.). Arquivos paroquiais e história social na América Lusa.

  • MAUADX. RJ, 2014. PAIVA, Eduardo F. Dar nome ao novo: uma história lexical da Ibero-América entre os séculos XVI-XVIII (as dinâmicas de mestiçagens e o mundo do trabalho). Belo Horizonte: Ed. Autêntica, 2015.

  • SCHWARTZ, Stuart B. Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial, 1550- 1835. São Paulo: Companhia das letras, 1988.

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