Qual a relação entre sexualidade e suicídios na era digital

 

Esta pesquisa de doutorado, realizada na Faculdade de Saúde Pública da USP, investiga por que há um maior índice de tentativas de suicídio entre pessoas LGBTQIA+. Para compreender na atualidade esse fenômeno tabu, que vem aumentando no Brasil e no mundo, o autor investiga especialmente os ambientes digitais.

Nas conclusões, destaca que, entre as motivações para o suicídio, estão a culpa pelo desejo que sentem, uma sensação de desajuste social do próprio corpo e uma angústia existencial. O autor enfatiza ainda a necessidade de se realizarem pesquisas com pessoas que se identificam como assexuais e também análises que levem em consideração as especificidades de cada letra da sigla.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Dados de pesquisas internacionais demonstravam que pessoas LGBTQIA+ (lésbicas, gays, bissexuais, trans — travestis, transexuais e transgêneros —, queer, intersexuais, assexuais e as demais formas plurais de vivenciar identidades e desejos) têm mais intenção, mais tentativa e cometem mais suicídio em comparação com heterossexuais (que têm direção do desejo afetivo-sexual para o gênero oposto ao seu) e cisgêneros (que se identificam com o gênero atribuído no nascimento). Assim, duas perguntas principais moveram a pesquisa: no Brasil, os dados seriam parecidos? Quais seriam as possíveis razões para as pessoas LGBTQIA+ terem números maiores de tentativas de suicídio?

Para tentar entender melhor este fenômeno, a pesquisa contou com um questionário online que continha perguntas sobre ideação e tentativas no momento da resposta e no passado; e, também, uma etnografia em ambientes digitais — fundamentada em entrevistas em profundidade, interações em fóruns específicos e análise de sites e materiais diversos na Internet, incluindo alguns fóruns na internet não indexada (conhecida como deep web).

Por que isso é relevante?

A quantidade de pesquisas sobre suicídio das pessoas LGBTQIA+ ainda é escassa, embora eu tenha acompanhado o surgimento de algumas iniciativas desde que comecei o doutorado, em 2013. Isso espelha a dificuldade de tratar temas que são considerados tabus na nossa sociedade (tanto o suicídio quanto gênero e sexualidade), o que só contribui para a ausência de um debate efetivo e para a invisibilização de certos grupos sociais. Duas observações:

1) De modo geral, as taxas de suicídio no país vem aumentando. São poucos os exemplos de políticas públicas de prevenção do suicídio e são raras as reflexões sobre como fazer prevenção em tempos em que os processos comunicacionais estão em constante transformação (como é o caso da importância que têm as redes sociais hoje).

2) De modo específico, populações com taxas altas de suicídio (como LGBTQIA+, negros e indígenas; ou ainda habitantes de regiões como as de plantio de fumo, no Rio Grande do Sul) são desassistidas e há pouca discussão sobre a interseção de diferentes marcadores sociais. Assim, a pesquisa traz uma discussão urgente e necessária sobre o suicídio por um viés socioantropológico, em contraposição à medicalização excessiva dos comportamentos.

Resumo da pesquisa

O suicídio é um grande tabu em nossa sociedade. Nesta pesquisa, o objetivo principal é lançar luz a um tema relativamente pouco estudado, que é a interseção entre suicídio, gênero e sexualidade nos meios digitais. Além disso, busco entender como uma interpretação contemporânea da biopolítica, pautada nos sofrimentos sociais, tem impacto nas formações e (re)construções das subjetividades e nas experiências cotidianas de pessoas que tentaram ou que realizaram o suicídio. Esta etnografia digital é baseada em materiais, dados, entrevistas e outras informações coletadas na internet para mostrar como a experiência humana, no que tange ao suicídio, pode se tornar uma enorme terrae incognitae, cheia de vicissitudes ou interstícios que estão na base das formas de vida dos sujeitos.

Quais foram as conclusões?

A partir dos dados e da etnografia, identificaram-se algumas tipologias:

1) Dos sofrimentos: da interpretação do desejo como locus da culpa (um desejo proibido); entendimento do próprio corpo como socialmente desajustado (ser trans ou estar acima do peso); e uma angústia existencial que faz com que a vida perca sentido;

2) Das narrativas das causas: por impulso, que ocorre após um evento específico, como uma situação dramática no trabalho ou o término de um relacionamento; por uma lógica falha, com ou sem planejamento, como se o suicídio não fosse irreversível; e por uma lógica racional, de que não vale a pena continuar vivo porque os momentos de felicidade não superariam os momentos de tristeza.

Frisa-se que as tipologias não são categóricas, uma vez que o suicídio é fenômeno multifatorial.

Além disso, foram identificados assuntos que demandam mais pesquisas: pessoas que se identificam como assexuais (com pouco ou nenhum desejo afetivo e/ou sexual); o papel da educação na formação de um entendimento das questões LGBTQIA+; necessidade de análises que levem em consideração as especificidades de cada letra e que tragam um diálogo interseccional com outros marcadores sociais.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Profissionais da saúde, em geral, profissionais da educação, como gestores de escola, professores e pesquisadores. É essencial que quem está por trás da criação de políticas públicas também leia os resultados, seja para políticas mais específicas, voltadas à proteção de populações mais vulneráveis, seja para a criação de planos e estratégias de prevenção do suicídio. Além disso, para acadêmicos e pesquisadores que têm interesse nos temas de suicídio, gênero e sexualidade. A pesquisa é importante, também, para profissionais de comunicação, de revistas e jornais e das organizações não governamentais, porque é essencial que se fale mais sobre o tema de forma responsável. E, para finalizar, os dados podem ajudar na criação de projetos de leis específicos, por isso, devem ser do interesse de vereadores, deputados estaduais e federais e senadores.

Thiago Nagafuchi é doutor em ciências pela Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo), mestre em ensino de ciências e educação matemática e bacharel em matemática pela UEL (Universidade Estadual de Londrina). Passou por fundações públicas, como a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e a Fundap (Fundação do Desenvolvimento Administrativo de São Paulo, extinta).

Referências:

  • NAGAFUCHI, Thiago. Um réquiem feito de silêncios: suicídio, gênero e sexualidade na era digital (tese de doutorado), Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2017. 217pp.

  • NAGAFUCHI, Thiago. Em busca de vozes no silêncio: suicídio, gênero e sexualidade na era digital, In: MARQUETTI, Fernanda Cristina (Org), Suicídio: escutas do silêncio. São Paulo: Editora UNIFESP, 2018.

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