As contradições e ambivalências na modernização de São Paulo

 

Esta pesquisa, realizada por Pedro Beresin Schleder Ferreira, na FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo), analisa as dinâmicas complexas do processo de modernização paulistano na virada do século 20. Por meio do estudo do caso da Avenida Angélica, no bairro de Higienópolis, entre 1890 e 1920, o autor buscou compreender quais grupos sociais atuaram na construção desse espaço urbano e quais foram as estratégias utilizadas.

Entre as conclusões, o autor destaca que nessa avenida não moravam apenas as elites, mas também grupos de média e baixa renda, que disputaram avidamente sua produção e apropriação, tensionando o projeto exclusivista ansiado pelos moradores de classe alta. Segundo o autor, foi possível perceber que o Estado, as elites e os agentes imobiliários, além de não formarem um conjunto coeso, tampouco compartilhavam um projeto monolítico e consensual para a cidade.

A qual pergunta a pesquisa responde?

O objetivo da pesquisa foi analisar as dinâmicas do processo de modernização de São Paulo na virada do século 20. Por meio de uma aproximação minuciosa do "fazer-se" da Avenida Angélica entre 1890 e 1920, procurei apreender quais grupos sociais disputaram a construção e apropriação de seu espaço, bem como quais estratégias empregaram para que prevalecessem seus direitos e interesses nesse processo. Por meio desse estudo, procurei problematizar narrativas dominantes sobre a modernização da cidade e construir outros esquemas explicativos para esse processo.

Por que isso é relevante?

A pesquisa contribui para uma compreensão mais complexa da história de São Paulo, demonstrando como grupos e instituições comumente tomados como homogêneos, como as elites e a municipalidade, estavam fracionados em subgrupos que disputavam e negociavam constantemente a produção do espaço urbano. Disputas que não eram protagonizadas apenas pelos mais poderosos, mas também pelos setores médios e baixos que eram ativos e operantes nos debates e embates da cidade, e que, através de seus próprios meios e estratégias, concorriam com seus interesses no seu contínuo "fazer-se”.

Resumo da pesquisa

A representação da Avenida Angélica como um espaço de exclusividade dos abastados, entre as décadas de 1890 e 1920, constitui e reitera uma perspectiva historiográfica que tende a perceber a modernização da cidade como um processo unívoco, retilíneo e pleno, resultante de um projeto consensual das elites. Buscando dar passos em direção a outros caminhos interpretativos para essa modernização, procuramos analisar as tensões, fissuras e incongruências constitutivas do “fazer-se” dessa avenida, indo ao encontro de uma historiografia recente, que percebe a modernização das cidades nos séculos 19 e 20 como processos ambivalentes, tensos, plurais e imbricados. Por meio desse percurso, pudemos perceber que o Estado, as elites e os agentes imobiliários, além de não formarem um conjunto coeso e orquestrado, tampouco compartilhavam um projeto monolítico e consensual para a cidade, mas vários, que eram constantemente disputados e negociados . E não apenas entre os poderosos, mas também pelos grupos de média e baixa renda, ativos e operantes nos debates e embates da cidade, e que, através de seus próprios meios e estratégias, concorriam com seus interesses pelo seu contínuo "fazer-se".

Quais foram as conclusões?

Tensionando e matizando essa narrativa dominante, a pesquisa parte da Avenida Angélica, uma das vias mais importantes de Higienópolis, para mostrar como mesmo as áreas exclusivas da cidade tiveram um percurso intrincado e tortuoso. Ao contrário do estabelecido na bibliografia, descobrimos que na Avenida Angélica não habitavam apenas as elites, mas também grupos de média e baixa renda. Eles disputaram avidamente a produção e apropriação da avenida em diversas arenas. Na Câmara Municipal, batalharam pela revogação de uma lei que proibia construções de baixa renda na região e reivindicaram da municipalidade o direito de que a parte da via em que moravam recebesse o mesmo tratamento do trecho em que moravam os mais abastados. No chão do cotidiano, disputavam a ocupação da via com suas práticas e costumes, tensionando o projeto exclusivista ansiado pelos moradores de classe alta. A atuação das elites, por sua vez, mostrou-se menos coerente e orquestrada do que retratada na bibliografia. Mesmo que concordassem com o projeto de um bairro exclusivo, na prática, quando o jogo das leis se chocava com seus interesses de mercado, sua atuação era mais errante e contraditória.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Todos os que se interessam por desenvolver um olhar crítico para a história de São Paulo e de outras cidades brasileiras. Pois, apesar de analisar um caso específico, a pesquisa procurou descrever dinâmicas socioespaciais que podem ajudar a compreender processos análogos em outros contextos.

Pedro Beresin Schleder Ferreira é doutorando e mestre em história e fundamentos da arquitetura e do urbanismo pelo Programa de Pós-Graduação da FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo). É professor de história da arquitetura na Escola da Cidade - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, instituição na qual realizou sua graduação.

 

Referências:

  • CERASOLI, Josianne Francia. Modernização no plural: obras públicas, tensões sociais e cidadania na passagem do século XIX para o XX. Tese (Doutorado) – IFCH-UNICAMP, 2004.
  • MARINS, Paulo César Garcez. Um lugar para as elites: os Campos Elíseos de Glette e Nothmann no imaginário urbano de São Paulo. IN: LANNA, A. et al (org.). São Paulo, os estrangeiros e a construção das cidades. São Paulo: Ed. Alameda, 2011.
  • LEPETIT, Bernard; SALGUEIRO, Heliana Angotti (org.). Por uma nova história urbana. São Paulo: Edusp, 1996.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: