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Como a precarização de trabalhadores varia entre setores

 

Esta pesquisa, realizada por Katiuscia Moreno Galhera na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), investiga por que trabalhadores de alguns setores industriais são mais precarizados que outros, de acordo com seus perfis em termos de gênero e nacionalidade, e quais as diferenças entre suas respectivas redes sindicais internacionais.

Entre as conclusões, a autora destaca que trabalhadores da indústria siderúrgica (predominantemente masculinos, brancos e nacionais) têm mais capacidade de se auto-organizarem internacionalmente quando comparados com os da moda (mão de obra majoritariamente feminina, negra ou parda, e estrangeira). A autora conclui então que as políticas de identidade são benéficas à internacionalização sindical.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Por que trabalhadores de alguns setores industriais são mais precarizados que outros e por que, como consequência, algumas redes sindicais internacionais (organizações internacionais de trabalhadores e trabalhadoras) são desenhadas de forma diferente do que outras? Para tanto, foi realizado primeiramente um estudo comparado de como trabalhadores com distintos perfis em termos de gênero e nacionalidade se organizam distintamente em dois setores industriais – confecção do vestuário (moda) e siderurgia – em uma organização internacional chamada “IndustriALL”. A pesquisa buscou propor, ainda, possíveis respostas de trabalhadores às estruturas de poder, principalmente aquelas estabelecidas por empresas multinacionais, na economia contemporânea e globalizada. Para tanto, foi analisada a agenda política de duas organizações sindicais brasileiras distintas.

Por que isso é relevante?

Pensar formas de organização internacional de trabalhadores na economia globalizada é relevante porque as empresas multinacionais nunca atuaram exclusivamente em territórios nacionais. Na organização global das empresas multinacionais, as empresas alocam recursos humanos em locais com níveis salariais comparativamente mais baixos, como China, em um complexo e imbricado sistema que envolve pesquisa e desenvolvimento, terceirização, logística, lobbies com governos, marketing, valor agregado do produto fabricado, transferência de tecnologia e distribuição de produtos finais, dentre outros fatores. A esse imbricado sistema de operações das empresas multinacionais que inclui diversas formas de relação de poder denominam-se cadeias globais de valor. Boa parte das pessoas é empregada em cadeias globais de valor e isso não deve ser ignorado.

Resumo da pesquisa

Redes sindicais internacionais e o papel da IndustriALL Global Union nas indústrias de confecção do vestuário e siderúrgica são os objetos desta dissertação. A premissa é de que trabalhadores são mais empoderados por poder estrutural na indústria siderúrgica – majoritariamente masculina, branca e nacional – comparada ao poder associacional na indústria têxtil – majoritariamente feminina, negra ou parda, e estrangeira. Meu argumento é de que dado que trabalhadores são fragmentados devido a raça, gênero e nacionalidade em cadeias globais de confecção, a política de identidade é benéfica ao sindicalismo internacionalmente. Duas hipóteses são testadas no nível internacional: primeiro, devido ao poder estrutural, trabalhadores da siderurgia estabelecem arranjos do tipo “bottom-up” em redes sindicais internacionais e, devido ao poder associacional, trabalhadores da confecção do vestuário estabelecem arranjos do tipo “top-down” em redes sindicais internacionais. Resultados demonstram que: (1) há uma correlação próxima entre marcadores sociais de diferença (gênero, raça e nação) e o sucesso relativo de uma rede; (2) política de identidade é um fator que influencia a internacionalização sindical.

 

Quais foram as conclusões?

Como resultado desses tipos de poder relativos, internacionalmente trabalhadores da indústria siderúrgica têm mais capacidade de se auto-organizarem se comparados com trabalhadores da moda. Com efeito, a rede internacional de trabalhadores da indústria siderúrgica envolve em seu “repertório político” reuniões periódicas, compartilhamento de informações, incorporação de demandas dos trabalhadores de base através dos comitês de fábrica, etc., a despeito do não reconhecimento patronal (poder estrutural). A esse arranjo internacional trabalhista denominei bottom-up, ou construído de baixo para cima. A rede internacional de trabalhadores da moda, por seu turno, tem como repertório político uma rede internacional organizada a partir da cúpula, envolvendo outros atores sociais, como empresas, ONGs e movimento estudantil (poder de associação). Talvez mais relevante, os casos de trabalho escravo na moda continuam sendo deflagrados pelo poder público e oficinas de trabalhadores imigrantes chegaram até mesmo a serem eliminadas da cadeia produtiva de uma grande marca. A esse arranjo denominei top-down, de cima para baixo.

 

Quem deveria conhecer seus resultados?

Pessoas e organizações interessadas em cadeias globais de valor, trabalho digno e formas de ativismo social. Portanto, empresas que se querem comprometidas com códigos éticos, como os selos de atestado de monitoramento de cadeias produtivas, governo, consumidores e associações de consumidores, ONGs, militantes e ativistas são partes potencialmente interessadas nos resultados desta pesquisa de doutorado.

 

Katiuscia Moreno Galhera é doutora em Ciência Política pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), foi visiting scholar/faculty member na Universidade da Pensilvânia (Penn State University/PSU, Estados Unidos), ambas ligadas à GLU (Global Labour University). Trabalhou como consultora e/ou pesquisadora para organizações ou indicadores internacionais como OIT (Organização Internacional do Trabalho), SASK (Finlândia), Solidarity Center (Estados Unidos), KU Leuven (Bélgica) e Instituto Observatório Social (Brasil).

 

Referências:

  • TILLY, Charles. Stories, identities, and political change. Oxford: Rowman & Littlefield, 2002.

  • TILLY, Charles. The politics of collective violence. Cambridge: Cambridge University Press, 2003.

  • SILVER, Beverly J. Forças do trabalho: movimentos trabalhistas e globalização desde 1870. São Paulo: Boitempo, 2005.

 

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