Como a pirataria influenciou o mercado legal de streaming

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Este artigo, elaborado por Andressa Nunes Soilo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, analisa as mudanças desencadeadas pela popularidade do compartilhamento ilegal de arquivos na internet. A autora busca compreender como discursos e demandas da pirataria foram incorporados ao mercado legalizado da transmissão via streaming.

Entre as conclusões, a autora sugere que as plataformas existentes atualmente, como Spotify e Netflix, são não somente inspiradas, mas permeadas e produzidas pela pirataria digital e por suas estratégias de resistência ao mercado tradicional do entretenimento.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Os rearranjos desencadeados no campo da propriedade intelectual, ao final da década de 1990, por programas de compartilhamento de conteúdo "pirata"  — com destaque para o Napster —, apresentaram mais do que reações amparadas em punições legais e em publicidades pedagógicas por parte dos detentores de direitos autorais. Eles também provocaram o surgimento de novos modelos de negócios no mercado digital. Intimamente relacionadas ao capitalismo, as relações entre entretenimento e propriedade intelectual se perceberam, nas últimas décadas, reféns das reivindicações e desejos de gerações que experienciaram a gratuidade do acesso e que cultivaram sensos de injustiça sobre uma indústria gananciosa que não respeitava seu público. Tais gerações, suas escolhas, discursos, práticas e valores acabaram por pressionar o mercado a reestruturar sua operatividade. Nesse contexto, questiono a construção da tecnologia streaming como estratégia de atração do mercado legal baseada nas incorporações de resistências "piratas" ao modelo de consumo tradicional, problematizando a coexistência produtiva do legal/ilegal.

Por que isso é relevante?

A incorporação de novas tecnologias que à primeira vista foram percebidas com suspeição e hostilidade pela indústria do entretenimento é questão histórica no campo do controle do acesso. Nas décadas de 1950 e 1960, a televisão foi amplamente rejeitada por estúdios de cinema devido à queda nos rendimentos de bilheteria. Posteriormente, a televisão foi notada como instrumento útil à indústria que a viu como oportunidade de gerar receita sobre filmes antigos. Nas décadas de 1970 e 1980, surge a Betamax, uma tecnologia de gravação e reprodução de imagens, que também gerou desconforto à indústria do entretenimento, já que oferecia ao consumidor maior controle sobre quando e a que assistir. Poucos anos depois, com as fitas VHS, a indústria passa a licenciar seus produtos em tal formato assimilando-o. As dinâmicas de incorporação de novas tecnologias e práticas percebidas, primeiramente, como ameaças correspondem a um processo de atualização comum no contexto do entretenimento audiovisual. A relevância deste estudo reside em destacar a capacidade de ação do público e dos simpatizantes da “pirataria” digital no processo de decisão sobre os meios de acesso.

Resumo da pesquisa

Com base em etnografia realizada no ciberespaço entre os anos de 2015 e 2018, sugiro que as atuais plataformas de streaming (tais quais Spotify e Netflix) são não somente inspiradas, mas permeadas e produzidas pela “pirataria” digital e por suas estratégias de resistência ao mercado tradicional do entretenimento. Em uma dinâmica porosa de produção do legal a partir da incorporação do ilegal, é possível dizer que os novos modelos de mercado do entretenimento digital correspondem a processos de formalização das demandas e discursos piratas.

Quais foram as conclusões?

Nos anos 2000, especialmente com a criação e popularização do Napster, novas tolerâncias, valores e demandas sociais envolvendo o acesso ao entretenimento (res)surgiram, problematizando, também, os sensos de justiça do público consumidor frente ao regime de propriedade intelectual. Esta pesquisa procurou destacar tais atualizações de percepções, assim como a incorporação do ilegal ao novo formato do mercado digital em questão e, consequentemente, sugerir que a "pirataria" simboliza parte constituinte e produtora dos atuais meios legais de acesso a áudios e vídeos. As influências consideradas ilegais no mercado do streaming podem ser percebidas não somente como um desvio, mas também como uma força criativa e produtora fundamental nos (re)arranjos do mercado do entretenimento na atualidade.

Quem deveria conhecer seus resultados?

A pesquisa também pode interessar a profissionais que atuam com propriedade intelectual e a empresas que se atentam ao comportamento de seu público e à análise antropológica do consumo.

Andressa Nunes Soilo é doutoranda e mestre em antropologia social pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), bacharel em direito graduada pelo Uniritter (Centro Universitário Ritter dos Reis), e cientista social graduada pela UFRGS. Seus interesses de pesquisa envolvem as temáticas da antropologia digital, antropologia da propriedade intelectual e antropologia política.

Referências:

  • ALVES, Simone; DIAS, Pedro; NOGUEIRA, Antonio; FIGUEIREDO, Kléber. 2011. Webfilmes: Aluguel de Filmes em Tempos de Pipoca Virtual. In.: ANPAD, Curitiba, v.1, n.2, p.68-85.

  • LEV, Peter. 2003. The American Film Industry in the Early 1950s. In.: The Fifties –Transforming the Screen, 1950-1959. University of California Press, 2003.

  • RIAA, 2017. REPORT - News and Notes on 2016 RIAA Shipment and Revenue Statistics 2016. In.: RIAA REPORT. Acesso em: 03, maio, 2017.

 

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