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Como o jornalismo local aborda as mudanças climáticas

 

Esta pesquisa, realizada na UFPR (Universidade Federal do Paraná), busca compreender como o jornalismo local apresenta as mudanças climáticas e seus riscos e de que forma esses discursos são percebidos por jornalistas, fontes de informação e leitores. A tese analisa o maior jornal de circulação diária em Curitiba, a Gazeta do Povo.

Entre as conclusões, a pesquisadora destaca que as notícias não repercutem a relação global-local das questões climáticas e, assim, não contribuem para o envolvimento da população no enfrentamento do problema. Os entrevistados apresentam dificuldade em identificar os efeitos das mudanças climáticas no lugar onde vivem.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Como melhorar a comunicação de risco e promover o envolvimento da sociedade com a governança climática, e de que forma o jornalismo local se faz presente nesse processo. A partir dessa questão geral, indaga-se ainda qual é a relação entre as percepções de riscos climáticos dos diferentes atores do circuito da notícia e de que modo essa relação poderia colaborar para o enfrentamento das mudanças climáticas?

O objetivo geral da pesquisa é averiguar quais as percepções dos atores envolvidos na produção das notícias sobre mudanças do clima (e seus riscos) e como os discursos elaborados por eles são interpretados pelos leitores, buscando captar os pontos de intersecção entre percepção, comunicação e governança dos riscos. Em outras palavras, procura-se compreender que tipo de relação existe entre os discursos das mudanças climáticas e seus riscos difundidos pelo jornal de maior circulação em Curitiba, capital do Paraná, e as percepções de risco verificadas nos atores sociais envolvidos em sua produção e recepção, de modo a contribuir com uma melhor comunicação de risco e, consequentemente, fomentar ações que motivem o exercício da governança climática no âmbito local.

Por que isso é relevante?

Nas duas últimas décadas, as mudanças climáticas, consideradas um dos maiores desafios da humanidade neste século ou o maior risco ambiental do nosso tempo, têm ganhado espaço na esfera pública, seja por seus embates políticos e econômicos, seja por suas incertezas, intrínsecas ao campo científico. As mídias em geral têm visibilizado essa questão e, nesse contexto, o jornalismo, como arena central de informação, análise e debate, possui relevante papel no esclarecimento da população, especialmente quando se fala de assuntos complexos. A partir do pressuposto de que as notícias legitimadas e divulgadas interferem na forma como as pessoas percebem os riscos, estudar como o jornalismo local apresenta os riscos climáticos, assim como averiguar as percepções de jornalistas, fontes de informação e leitores, contribui para identificar os acertos e falhas desse processo de comunicação, que está relacionado às ações de sensibilização, mitigação e adaptação. Se os cidadãos não se sentem ameaçados, ou não percebem quanto podem perder em razão dos efeitos negativos das mudanças do clima, não tomarão medidas para combatê-los.

Resumo da pesquisa

A pesquisa se centra nas relações existentes entre comunicação, percepção e governança a respeito das mudanças climáticas e seus riscos no âmbito do circuito da notícia de um jornal local. Para tanto, o recorte da pesquisa consiste no jornal Gazeta do Povo e atores que participaram de sua produção (fontes de informação e jornalistas) e recepção (leitores do citado diário).

A partir de uma perspectiva interdisciplinar e construcionista, a investigação busca verificar como se desenrolam os meandros da comunicação de riscos, por meio do jornalismo, e como tais discursos são interpretados e/ou percebidos por aqueles leitores que, de algum modo, já estão familiarizados com a questão ambiental. Metodologicamente, foi realizada observação participante das rotinas produtivas dos jornalistas, análises de percepção de riscos dos vários atores sociais por meio de questionários e entrevistas em profundidade, e análises de enquadramentos das notícias, com o objetivo final de triangular os resultados, inspirando-se na proposta da hermenêutica de profundidade. Dentre os achados, constata-se que a percepção de risco climático está distante do cotidiano dos leitores de Curitiba.

Quais foram as conclusões?

Em razão das análises feitas, verificou-se que as notícias do jornal diário não repercutem a relação global-local das questões climáticas, revelando que o caráter local do jornal é seletivo. Além disso, os próprios atores entrevistados, com algumas exceções, apresentam dificuldade em conectar sintomas das alterações do clima no lugar em que residem.

Dessa forma, verifica-se que a Gazeta do Povo não atua como um ator a favor da governança, ainda que replique de forma não sistemática notícias sobre o assunto procedentes de agências de notícias nacionais e internacionais. Constata-se que a percepção de risco climático está distante do cotidiano dos leitores de Curitiba, revelando que a mediação jornalística amplificou os efeitos negativos globais e a discussão dos acordos internacionais, voltada para a responsabilização dos países desenvolvidos – e tais aspectos não contribuem para o envolvimento dos cidadãos no enfrentamento das mudanças do clima.

Quem deveria conhecer seus resultados?

É necessário que a sociedade, de forma geral, conheça melhor as causas e consequências das mudanças climáticas, assim como formas de agir para reduzir os gases de efeito estufa e se adaptar a um novo contexto climático.

Jornalistas e fontes de informação, em razão de serem atores sociais que produzem discursos para vastos públicos, deveriam ficar mais atentos com os links entre as questões globais e locais, assim como com enquadramentos que colaborem para a ação (não focando apenas nos efeitos negativos ou em abordagens catastrofistas). É preciso ter ciência do papel-chave que as mediações midiáticas desempenham na percepção de riscos, especialmente daqueles não sentidos na pele.

Espera-se ainda que leitores sejam mais proativos em seu relacionamento com os veículos que acompanham, apontando lacunas e novos olhares sobre o tema. Afinal, considerando a urgência do assunto e a necessidade de mudarmos comportamentos, devemos amplificar e qualificar ainda mais o debate climático.

Eloisa Beling Loose é pós-doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Possui graduação em Comunicação Social, com habilitação em jornalismo, pela UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), mestrado em Comunicação e Informação pela UFRGS (2010) e doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela UFPR (Universidade Federal do Paraná) (2016). Recebeu o Prêmio Capes 2017 pela melhor tese na área de Ciências Ambientais.

Referências:

  • BANCO MUNDIAL. Relatório Anual de 2009 do Banco Mundial: ano em perspectiva, 2009.
  • EREAUT, Gill; SEGNIT, Nat. Warm words: How are we telling the climate story and can we tell it better? London: Institute for Public Policy Research, 2006.
  • HANNIGAN, John. Sociologia ambiental. Lisboa: Instituto Piaget, 1995.
  • PNUD. Informe sobre Desarrollo Humano 2007-2008. La lucha contra el cambio climático: Solidaridad frente a un mundo dividido. New York: Programa de Naciones Unidas sobre Desarrollo Humano (PNUD), 2007.
  • WILSON, Kris. Communicating climate change through the media – Predictions, politics and perceptions. In: ALLAN, Stuart; ADAM, Barbara; CARTER, Cynthia (Eds). Environmental Risks and the Media. London: Routledge, 2000. p.201-217.

 

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