Como a desigualdade urbana influencia percursos escolares

Este paper, elaborado por uma professora e um doutorando da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), investiga como a distribuição desigual das oportunidades escolares no espaço urbano impacta as decisões escolares das famílias. O artigo analisa os resultados de uma pesquisa realizada em duas regiões de Belo Horizonte com habitantes de perfis socioeconômicos distintos.

Entre as conclusões, os autores destacam que, ao compará-las, verifica-se que a região composta por famílias de maior renda, escolaridade e ocupações mais altas, conta com um maior número de escolas (públicas e privadas), de Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) mais elevado e alunos de nível socioeconômico superior. Por isso, alguns pais que vivem na região menos favorecida percebem essa desigualdade e tentam obter vagas nas escolas públicas da região vizinha, em busca de oportunidades melhores.

A qual pergunta a pesquisa responde?

As grandes metrópoles brasileiras são marcadas por profundas desigualdades que se expressam em uma distribuição muito desequilibrada das condições de moradia, saúde, mobilidade e em outros aspectos. Em uma mesma cidade é possível encontrar bairros cujo índice de desenvolvimento se assemelha aos de países mais desenvolvidos, enquanto outros se comparam a países marcados por fragilidades sociais. Isso faz com que o bairro ou região em que a pessoa vive influencie nas suas oportunidades de ser atendido por um bom hospital, obter um bom emprego ou frequentar uma boa escola, determinando suas chances de ascender socialmente.

Interessados nesse último ponto, procuramos em nossa pesquisa verificar como a distribuição desigual das oportunidades escolares no espaço urbano influencia as decisões escolares das famílias, favorecendo-as ou desfavorecendo-as, de acordo com a posição que viviam no território. Para isso, realizamos a pesquisa em duas regiões de Belo Horizonte que se diferenciavam no perfil social de seus moradores, bem como em relação à distribuição de oportunidades sociais. Procuramos entender então como a desigualdade urbana influencia os percursos escolares.

Por que isso é relevante?

Existe uma ideia surgida do senso comum de que as chances de ascender socialmente por meio da escola seriam igualitárias a todos os indivíduos, sendo o sucesso ou fracasso escolar dependentes puramente do esforço individual. Décadas de pesquisas sociológicas evidenciam, por outro lado, que as chances de prosseguir ou obter um bom desempenho educacional são fortemente ligadas a variáveis como a renda e escolaridade dos pais, a qualidade da escola frequentada e até mesmo o local em que o estudante vive na cidade. Portanto, os alunos não se encontram em posições iguais para serem bem sucedidos na escola, contando com mais ou menos recursos que os auxiliarão em sua trajetória escolar.

Apesar de a sociologia da educação no Brasil contar com muitos estudos dedicados aos efeitos da renda, escolaridade, ou mesmo das características das escolas, que influenciam as desigualdades escolares, poucos estudos nacionais investigaram especialmente o peso dos fatores urbanos sobre a escolarização, o que nos motivou a produzir esta pesquisa. Com isso, pretendemos oferecer subsídios para compreender como o espaço urbano é relevante para entender as trajetórias escolares dos estudantes.

Resumo da pesquisa

Este artigo apresenta resultados de uma pesquisa cuja temática se inscreve na interseção das problemáticas clássicas da sociologia da educação e da sociologia urbana. Objetivando compreender se, e de que maneira, as desigualdades socioespaciais impactam as desigualdades escolares, analisamos o modo como determinadas características sociais e urbanas de um território estruturam as estratégias e as escolhas escolares das famílias ali residentes. Para tanto, examinamos duas sub-regiões da região do Barreiro, situada em Belo Horizonte, as quais apresentam contrastes socioeconômicos e urbanos. Partindo da noção de “geografia de oportunidades”, comparamos as estratégias e escolhas escolares efetuadas pelas famílias que vivem nessas duas áreas, procurando identificar de que forma as características sociais do entorno constrangem ou favorecem suas preferências escolares. Os resultados indicaram um efeito da distribuição desigual das oportunidades escolares sobre as escolhas parentais, derivado das características quantitativas e qualitativas da oferta escolar local.

Quais foram as conclusões?

Comparando as duas regiões, verificamos que o Barreiro de Baixo era composto por famílias de maior renda, escolaridade e ocupações mais altas. Essa região ainda contava com um maior número de escolas (públicas e privadas), de Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) mais elevado (no caso das públicas) e um alunado de nível socioeconômico superior – configurando uma situação de distribuição desigual das oportunidades educacionais. Em nossas entrevistas, identificamos também que alguns pais que viviam no Barreiro de Cima percebiam essa situação e se mobilizavam para obter vagas nas escolas públicas da região vizinha, uma estratégia denominada como “fuga de lugar”. Portanto, a situação desigual da distribuição das oportunidades educacionais faz com que as famílias do Barreiro de Baixo contem com um número de escolas mais amplo e qualificado e as famílias do Barreiro de Cima, a depender dos recursos de que dispõem, vejam-se obrigadas a se satisfazer com a oferta escolar local ou buscar melhores oportunidades na região mais afluente.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Esses resultados podem interessar a pesquisadores da área de sociologia, especialmente sociologia da educação e urbana. Traz informações aos educadores e gestores educacionais preocupados em compreender como as características da região em que se localizam as escolas podem influenciar nas dificuldades vivenciadas pelos alunos e professores. De modo mais amplo, esta pesquisa traz subsídios àqueles envolvidos nas políticas educacionais e urbanas e que busquem dados e resultados para pensar em programas que envolvam esses dois temas.

Gustavo Bruno de Paula se graduou em Ciências Sociais pela UFMG. Mestre em educação pela mesma universidade, com período de pesquisa na Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales, na Argentina. Doutorando em educação pela UFMG na linha de sociologia da educação. Integrante do grupo de pesquisa Observatório Sociológico Família-Escola. Atua em pesquisas na área de desigualdades educacionais, relação entre desigualdade escolar e urbana, e acesso e permanência no ensino superior.

Maria Alice Nogueira se graduou em pedagogia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Santo André (1973) e em ciências da educação pela Universidade de Paris V (1975). Possui doutorado em educação pela Universidade de Paris V (1986). Realizou dois estágios de pós-doutorado: na Universidade de Paris V/CNRS (1996) e na École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris (2006). É professora titular da Faculdade de Educação da UFMG, onde também é coordenadora do Observatório Sociológico Família-Escola.

Referências:

  • ÉRNICA, Maurício. BATISTA, Antônio G. Educação em territórios de alta vulnerabilidade social na metrópole: um caso na periferia de São Paulo. Informe de Pesquisa. CENPEC, n. 3, Nov. 2011.

  • GALSTER, George C.; KILLEN, Sean P. Te geography of metropolitan opportunity: A reconnaissance and conceptual framework. Housing Policy Debate, v. 6, n. 1, p. 7-43, 1995.

  • KOSLINSKI, Mariane C. ALVES, Fátima. Novos olhares para as desigualdades de oportunidades educacionais: a segregação residencial e a relação favela-asfalto no contexto carioca. Educ. Soc., Campinas, v.33, n. 120, p. 805-831, jul.-set. 2012.

 

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