Tese: Músicos 'de base' e tecnologias digitais para produção e circulação musical

Autor

Andreas Rauh Ortega, Universidade de Leeds

Orientador

David Hesmondhalgh, Bethany Klein

Área e sub-área

Mídia e comunicação, Produção cultural, condições de trabalho, e música popular

Defendida em

Universidade de Leeds, School of Media and Communication 18 de Maio

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Esta tese, realizada na Universidade de Leeds, no Reino Unido, analisa as condições de trabalho de DJs e produtores de música eletrônica que não são conhecidos pelo grande público, chamados pelo autor do trabalho de “músicos de base”. O objetivo da pesquisa é entender como as práticas desses profissionais são afetadas por mudanças associadas a tecnologias digitais, sobretudo no campo da comunicação.

Entre os desafios do cenário atual, o pesquisador destaca que músicos de base precisam desempenhar mais do que atividades relacionadas a composição e performance. É necessário que trabalhem em estratégias específicas para sua promoção e para o financiamento de atividades em um cenário de declínio de renda fonográfica e alta competitividade.

A que pergunta a pesquisa responde?

Muitas das reflexões sobre os impactos do desenvolvimento tecnológico na música abordam diretamente a indústria fonográfica. Novas tecnologias também afetaram de maneira importante a vida de quem trabalha nesse mercado, especialmente músicos e compositores. Grandes estrelas nacionais e internacionais se adaptaram a um mundo onde a música circula amplamente pela internet, entretanto, pouca atenção é dirigida ao vasto número de músicos que não são famosos ou reconhecidos pelo grande público, chamados aqui de 'músicos de base'. Este trabalho busca entender como as experiências e práticas cotidianas desses músicos foram afetadas pela popularização da internet. Neste sentido, a pesquisa responde a duas perguntas: 1) em que medida as mudanças associadas às tecnologias digitais de comunicação facilitam as práticas de músicos de base?; 2) como essas mudanças afetam as experiências de vida desses músicos? A pesquisa foca em DJs e produtores de música eletrônica, uma vez que  esse é um gênero marcado por uma relação profunda com as tecnologias para (re)produção musical e socialização mediada digitalmente.

Por que isso é relevante?

A popularização da internet e das plataformas da chamada “web 2.0” (YouTube, Twitter, Facebook, SoundCloud) é acompanhada por um discurso tecno-otimista sobre o potencial que a rede mundial de computadores tem para melhorar a vida de seus usuários e das sociedades conectadas. No caso de músicos e criadores de conteúdo digital, esses discursos enaltecem o potencial da tecnologia para democratizar o acesso à música em formato digital; ajudar na expressão criativa e realização pessoal e facilitar o acesso às ferramentas e conhecimento necessário para criar e fazer circular música. Ainda que essas vantagens existam, elas são acompanhadas de uma série de desafios e problemas. Este trabalho demonstra que a realidade vivida por músicos de base é mais complexa do que a visão oferecida por tecno-otimistas. Entender a complexidade da produção musical de base hoje é importante não só para questionar visões simplistas sobre música, sociedade e tecnologia, mas principalmente porque aprofunda o nosso conhecimento sobre a vida de músicos de base e a respeito das condições de produção e identidade cultural na música popular em um momento de grandes transformações.

Resumo da pesquisa

Este trabalho investiga as condições de produtores culturais ‘de base’  por meio de uma análise das oportunidades e dos desafios vividos por músicos do gênero de música eletrônica de pista. Usando dados e métodos de pesquisa qualitativa junto com análises macroinstitucionais, a tese afirma que mudanças associadas a tecnologias digitais (particularmente de comunicação) oferecem benefícios para músicos ‘de base’, assim como dificuldades para quem aspira ao profissionalismo. Entre as vantagens estão a  maior possibilidade de expressão criativa; oportunidades de aprendizagem; autorrealização; menores barreiras técnicas e materiais de entrada e facilidade de circulação de áudio em formato digital. Os desafios se apresentam na dificuldade em consolidar carreira profissional; sociabilidade marcada por altos níveis de individualismo, competição negativa e empreendedorismo; grandes incentivos para autopromoção; e desigualdades estruturais que resultam em menos oportunidades para mulheres e minorias. Os resultados reforçam a crítica aos discursos ultraotimistas sobre tecnologia digital, e oferece uma visão mais detalhada sobre a relação entre tecnologia e sociedade.

Quais foram as conclusões?

A análise das práticas musicais e das experiências cotidianas de DJs e produtores de música eletrônica revela um cenário complexo em que vantagens e desvantagens oferecidas pela tecnologia coexistem de forma desafiadora, quiçá contraproducente, para usuários sérios e engajados. Essas conclusões refletem dilemas vividos por criadores de conteúdo em várias plataformas digitais — como produtores de conteúdo audiovisual, blogueiros, vlogueiros, fotógrafos, influenciadores de opinião e usuários de redes sociais — que operam em um universo de abundância de conteúdo (música, notícias, imagens, notificações) veiculado e comercializado de acordo com a lógica do mercado da atenção. Nesse ambiente, cliques e tempo de atenção são vendidos para publicidade, e criadores de conteúdo (incluindo músicos de base) precisam entender mais do que atividades musicais (composição e desempenho ao vivo): é preciso saber como empregar estratégias promocionais alinhadas com suas identidades artísticas,  financiar suas atividades musicais perante o declínio de renda fonográfica e lidar com altos níveis de competição individualista que influenciam condições de trabalho.

Quem deveria conhecer seus resultados?

A pesquisa é relevante para quem se interessa pelas relações entre tecnologia e sociedade, particularmente em temas vinculados a  produção cultural, música popular, "novas" tecnologias digitais, e a cultura da música eletrônica. A leitura é recomendada para DJs e produtores de música eletrônica e músicos de outros gêneros, especialmente quem aspira a ser profissional ou já atua como um. Fãs e entusiastas de música de base terão uma visão do universo pouco explorado de DJs e produtores, além de mais informações sobre como apoiar novas iniciativas culturais e talentos para a renovação musical. Os temas abordados também são de interesse para as pessoas envolvidas na produção, circulação, promoção e comercialização de conteúdo digital em geral – de profissionais a amadores e entusiastas, do setor corporativo ao independente – tanto na área cultural quanto nas voltadas à tecnologia e plataformas digitais. Por fim, é de interesse para educadores, professores (em especial de música popular) e acadêmicos nas áreas de mídia e comunicação, música popular, mercado cultural, música eletrônica, e novas tecnologias.

 

Andreas Rauh Ortega é pesquisador de música e mercado cultural, DJ e designer de áudio. Concluiu seu primeiro mestrado pela Universidade Estadual de Washington, nos Estados Unidos, com uma pesquisa sobre a cena grunge de Seattle. Na Universidade Pompeu Fabrá, na Espanha, fez seu segundo mestrado pelo programa Sistemas Cognitivos e Mídias Interativas. Em 2018, obteve o título de doutor pela Escola de Mídia e Comunicação da Universidade de Leeds, no Reino Unido. Atualmente, se dedica a um projeto sobre métodos de pesquisa aplicada e publicações nas áreas de comunicação, novas tecnologias, música popular, e mercado cultural.

Referências:

  • Baym, N.K. 2018. Playing to the crowd. Nova Iorque: New York University Press. Christopherson, S. 2008. Beyond the self-expressive creative worker. Theory, Culture & Society. 25(7–8), pp.73–95.

  • Duffy, B.E. e Hund, E. 2015. “Having it all” on social media. Social Media + Society. [Online]. 1(2). Hesmondhalgh, D. e Meier, L.M. 2017. What the digitalisation of music tells us about capitalism, culture and the power of the information technology sector. Information, Communication & Society, pp.1–16.

  • Mosco, V. 2005. The digital sublime: myth, power, and cyberspace. Cambridge, MA: The MIT Press. Reitsamer, R. 2011. The DIY Careers of Techno and Drum ‘n’ Bass DJs in Vienna. Dancecult: Journal of Electronic Dance Music Culture. 3(1), pp.28–43.

  •  Stahl, M. 2013. Unfree masters. Durham e London: Duke University Press. Reitsamer, R. 2011. The DIY Careers of Techno and Drum ‘n’ Bass DJs in Vienna. Dancecult: Journal of Electronic Dance Music Culture. 3(1), pp.28–43.

  • Wernick, A. 1991. Promotional culture. Londres: Sage Publications. Wikström, P. 2009. The music industry. Cambridge: Polity Press. Wu, T. 2017. Attention Merchants. Londres: Atlantic Books.

 

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