Como o bairro do Bom Retiro se tornou polo da indústria têxtil

 

Esta pesquisa, realizada na Universidade de São Paulo, investiga a relação entre cidade e moda a partir da história do bairro do Bom Retiro, na região central de São Paulo. A autora propõe uma retomada histórica das transformações na área, partindo dos anos 1920, para entender como o Bom Retiro virou um ponto central para a indústria têxtil brasileira.

Entre as conclusões, o trabalho destaca que a localização privilegiada, considerando a dinâmica urbana de São Paulo, o aumento da demanda por roupas e a incidência de comunidades imigrantes  trabalhando no mercado têxtil ajudam a explicar como a região se transformou em território fundamental para a moda popular brasileira.

A que pergunta a pesquisa responde?

Para entender como cidade e moda se relacionam em São Paulo,  o objeto de estudo escolhido para a pesquisa  foi a rua José Paulino, principal eixo do Bom Retiro, cujo polo têxtil possui abrangência nacional. Segundo dado da Câmara de Dirigentes Lojistas do Bom Retiro, 55% da moda feminina brasileira produzida em 2015 saiu do bairro. A fim de definir os fatores determinantes para o protagonismo da José Paulino, realizou-se uma reconstituição histórica do início e desenvolvimento de sua especialização têxtil. Imigrantes judeus disseminaram as primeiras oficinas de roupas na rua a partir dos anos 1920. Nas décadas seguintes, as oficinas, fabricantes artesanais, cresceram e se modernizaram, transformando-se em confecções produtoras de roupas em escala industrial. Os artigos fabricados e o modo de comercialização também sofreram modificações. Roupas utilitárias foram substituídas por coleções alteradas sazonalmente, influenciadas por tendências da moda. O comércio atacadista cedeu espaço para a economia mista de atacado e varejo. O primeiro ciclo de ocupação da José Paulino encerrou-se na década de 1980, quando a comunidade judaica se aposentou e coreanos instalaram suas confecções na rua.

Por que isso é relevante?

O estudo de territórios delimitados possibilita discutir como ocorre a produção de cidade a partir do desenvolvimento de atividades econômicas específicas desempenhadas por grupos sociais. No caso da José Paulino, a pesquisa evidenciou como a atuação de judeus na indústria e comércio têxteis alterou a paisagem da rua. Se as oficinas funcionavam em armazéns e casas originalmente construídos para abrigar moradias e mercearias, sua transformação em confecções exigiu a demolição desses espaços e a construção de edifícios projetados especificamente para abrigar produção e venda de roupas. Entretanto, foi a própria atividade têxtil que possibilitou o acúmulo de capital necessário para tais investimentos imobiliários. Prédios de dois a quatro andares foram erguidos majoritariamente nas décadas de 1940 e 1950 e são presentes na rua até hoje. Trata-se de uma arquitetura funcional, comum em outros bairros paulistanos centrais com atividade comercial intensa. Apesar de frequente no cotidiano urbano, tal arquitetura é pouco estudada na academia, onde trabalhos privilegiam os extremos da produção arquitetônica, seja da precariedade urbana, seja da monumentalidade da linguagem.

Resumo da pesquisa

A dissertação é um estudo sobre as transformações pelas quais passou a Rua José Paulino, principal via comercial do bairro paulistano Bom Retiro, entre 1928 e 1980. Em 1928, tratava-se de uma via mista, ocupada simultaneamente por inúmeros usos, como moradia, comércio, serviço e pequenas indústrias que supriam as necessidades das várias comunidades imigrantes residentes no bairro. Em 1980, a José Paulino era uma via reconhecida nacionalmente por possuir um comércio de moda predominantemente feminino e a preços acessíveis, atraindo diversos compradores de outras regiões do Estado de São Paulo e do Brasil. O objetivo da pesquisa foi compreender como se deram as sucessivas mudanças nos usos da rua e quais são os rebatimentos dessas mudanças na materialidade da José Paulino durante o intervalo proposto para o seu estudo. A estruturação de uma nova atividade econômica no local implicou alterações materiais e estéticas, com demolições de imóveis antigos, construções de novos edifícios e a posterior ocupação de suas fachadas pela comunicação visual que os proprietários das confecções passaram a aplicar em seus imóveis.

 

Quais foram as conclusões?

A proximidade com a linha férrea e com duas estações de trem fez do Bom Retiro um lugar cobiçado para a recepção de imigrantes e a instalação de indústrias. A inserção profissional via setor têxtil é comum entre estrangeiros recém-chegados em novas cidades devido a baixos capital e estrutura necessários no investimento inicial. Nessa conjunção de fatores, judeus desenvolveram a especialização têxtil da José Paulino pela abertura de negócios próprios ligados à produção de vestuário. Logo, o desenvolvimento local foi atrelado à somatória de processos de ascensão social individuais e familiares. A construção de edifícios possibilitou a transformação do capital da confecção em capital imobiliário, pois apesar da maioria das confecções abertas por judeus terem encerrado suas atividades nos anos 1980, grande parte dos edifícios da rua ainda são de propriedade de famílias judias. Assim, a inserção geográfica privilegiada na dinâmica urbana de São Paulo; a influência do crescimento da cidade e da demanda por roupas prontas por parte de sua população e a incidência de comunidades imigrantes na indústria têxtil explicam como a José Paulino tornou-se território fundamental para a moda popular brasileira.

Quem deveria conhecer seus resultados?

A tomada de conhecimento acerca das transformações pelas quais passou determinado território auxilia na compreensão de suas configurações e dinâmicas atuais. Portanto, esse conhecimento é de fundamental importância na tomada de decisões acerca da intervenção ou não nesse território, em seu entorno, no bairro no qual está inserido ou em outras áreas que possuem características comuns ou com as quais é possível fazer analogias. Por se tratar de um estudo interdisciplinar, a pesquisa histórica sobre a José Paulino possui interfaces com diferentes campos de produção de conhecimento, como história da cidade, história do urbanismo, história de São Paulo, história do Bom Retiro, história da moda, história da indústria têxtil paulista, história da imigração judaica etc. Pesquisadores, professores e interessados em geral nesses temas podem se beneficiar do contato com o trabalho.

Stephanie Silveira Guerra de Andrade é pesquisadora de história da cidade e história da moda. Possui graduação e mestrado em arquitetura e urbanismo pela Universidade de São Paulo. É pesquisadora do Laboratório para Outros Urbanismos, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

Referências:

  • CRANE, Diane. A moda e seu papel social. São Paulo: SENAC, 2006.

  • FELDMAN, Sarah. Bom Retiro: bairro de estrangeiros, bairro central (1928-1945), in: LANNA, Ana Lúcia Duarte; LIRA, José Tavares Correia de; PEIXOTO, Fernanda Arêas; SAMPAIO, Maria Ruth do Amaral (Orgs.). São Paulo, os Estrangeiros e a Construção das Cidades. São Paulo: Alameda Editorial, 2011.

  •  FELDMAN, Sarah. Bom Retiro: bairro múltiplo, identidade étnica mutante, in: Anais eletrônicos, vol.15. Encontros Nacionais da ANPUR. Disponível em: . Acesso em: 05.04.2016. Associação Nacional de Pósgraduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional. Recife, 2013.

  • GREEN, Nancy. Ready-to-Wear and Ready-to-Work: A Century of Industry and Immigrants in Paris and New York. Durham: Duke University Press, 1997.

 

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: