O que é discutido no processo seletivo de diplomatas no Brasil

 

Esta tese, realizada na Universidade Federal de Santa Catarina, analisa os processos seletivos para diplomatas brasileiros feitos entre 1995 e 2010. O foco é no concurso de ingresso do Instituto Rio Branco, a escola de formação do Ministério das Relações Exteriores, e nos Guias de Estudos oferecidos aos candidatos.

Entre as conclusões, o pesquisador destaca a presença de referências que discutem a identidade brasileira no material fornecido para o concurso de admissão à carreira diplomática. E mostra, também, que embora elas se relacionem com as pesquisas universitárias produzidas na área, têm relativa autonomia, de modo que o Instituto Rio Branco se destaca como um espaço importante para a reflexões sobre esse tema.

A que pergunta a pesquisa responde?

Esta tese responde como se dá o processo de seleção dos diplomatas brasileiros no período compreendido entre 1995 e 2010. Ela investiga um dos concursos mais tradicionais do Brasil — o de ingresso no Instituto Rio Branco, a escola de formação do Ministério das Relações Exteriores —, analisando os Guias de Estudo oficiais lançados a cada nova edição do CACD (Concurso de Admissão à Carreira Diplomática) . O Instituto Rio Branco é particularmente interessante de se estudar por ter sido uma das primeiras instituições brasileiras a adotar o critério de ingresso por provas e títulos, ainda na década de 1940, durante a era Vargas. Quando se estudam as mudanças no processo de contratação da burocracia brasileira, o Instituto Rio Branco costuma ser citado junto ao antigo Dasp (Departamento Administrativo do Serviço Público). Apenas para efeitos de comparação, não custa lembrar que o concurso de ingresso na carreira diplomática na vizinha Argentina só foi organizado definitivamente no padrão de provas e títulos na década de 1960, sob a influência de iniciativas da Organização das Nações Unidas que buscavam melhorar o funcionamento das administrações públicas nos países em desenvolvimento.

Por que isso é relevante?

Entender os processos e as mudanças do Concurso de Admissão à Carreira Diplomática nos diz algo sobre os critérios de ingresso na administração pública brasileira. Estudar isso também nos diz algo sobre como uma importante elite brasileira vê a si mesma e mostra alguns dos critérios pelos quais são selecionados novos membros. Compreender a bibliografia recomendada aos candidatos nos Guias de Estudo do Concurso de Admissão à Carreira Diplomática, por exemplo, pode nos dizer muito sobre quais são os pensadores, autores, ideias, livros e referências considerados relevantes ou mesmo fundamentais para um grupo que representa o Brasil no exterior em missões bilaterais ou multilaterais, como as embaixadas, e que, por meio dos consulados, lida com questões das comunidade de imigrantes brasileiros e de empresas brasileiras no exterior.

Resumo da pesquisa

Este trabalho estuda as provas de ingresso no Instituto Rio Branco durante o período de 1995 a 2010, dedicando especial atenção às provas de história do Concurso de Admissão à Carreira Diplomática. Uma vez que durante o período mencionado existe uma alternância democrática de partidos políticos à frente do Executivo federal brasileiro, considera-se o período ideal para tentar captar quais mudanças no processo de seleção seriam mudanças inerentes à diplomacia brasileira enquanto burocracia e quais seriam resultado da ação e influência de diferentes grupos políticos. Como hipótese presente no trabalho, sugerimos que a prova seletiva do corpo diplomático brasileiro não estaria tão interessada em selecionar especialistas que dominem a bibliografia acadêmica mais atual acerca de um tópico, mas indivíduos que consigam manusear minimamente a bibliografia para argumentar acerca de uma questão dada, sendo indiferente se eles o fazem seguindo a opinião do mainstream acadêmico sobre aquela questão.

Quais foram as conclusões?

Entre as conclusões desta tese, está  a percepção de que pode ser encontrado nos Guias de Estudo do CACD uma constante reflexão sobre a identidade do Brasil, que faz referência, a pensadores do Brasil como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Darcy Ribeiro, Raymundo Faoro e Antonio Candido. Além disso, essa reflexão sobre identidade do Brasil presente no concurso se relaciona com as pesquisas universitárias que estão sendo realizadas hoje, embora tenha uma relativa autonomia, tornando o Instituto Rio Branco um espaço muito especial para a reflexão sobre identidade brasileira.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Todas as pessoas interessadas na representação oficial do Brasil no exterior, e todas as pessoas interessadas no funcionamento da administração pública brasileira encontrarão nesta tese material digno de reflexão. Também pessoas interessadas em fazer a prova do Instituto Rio Branco, que lecionam ou ministram aulas, cursos e coachings para o Concurso de Admissão à Carreira Diplomática, assim como grupos interessados na representação política de minorias nos processos de ingresso na administração pública brasileira encontrarão nesta tese fontes adicionais de interesse.

Daniel Lopes Bretas nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais. É graduado em história na UFMG. Seu mestrado foi realizado em Porto Alegre, também em história, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Já seu doutorado foi em sociologia política pela Universidade Federal de Santa Catarina, em 2016. Daniel é um escritor de literatura de ficção em prosa — mais especificamente, romancista — e mora atualmente em Belo Horizonte.

Referências:

  • CHEIBUB, Zairo B. (1984), Diplomacia, Diplomatas e Política Externa: Aspectos do Processo de Institucionalização do Itamaraty.

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