Como a favela foi e é representada no cinema brasileiro

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Esta dissertação, realizada na UniRio, analisa as representações das favelas no cinema brasileiro, dos primeiro filmes que abordaram o tema, nos anos 1950, até obras recentes, como “5x favela – agora por nós mesmos” e “Cidade de Deus - 10 anos depois”.

Entre as conclusões, a pesquisadora destaca que a produção mais recente se preocupa em priorizar o retrato endógeno, isto é, a perspectiva dos moradores das comunidades, e desmistificar a imagem de favela cristalizada por obras anteriores.

A que pergunta a pesquisa responde?

Por meio desta pesquisa,  buscamos analisar o olhar dos diretores que criam a representação da favela no cinema e, assim, construir uma memória desse território em  imagens cinematográficas.

Nosso problema de pesquisa consiste em compreender por que cineastas oriundos de comunidades rememoram filmes de favela de décadas anteriores. Dentro desse contexto, nosso primeiro objetivo foi buscar as primeiras representações de favela, que refletem na consolidação do cinema brasileiro. Traçamos uma visão geral sobre a cinematografia nacional de favela, dividindo-a em categorias, desde os considerados primeiros filmes, nos anos 1950 e 1960, até o momento atual. A partir dessa análise, supomos que há um projeto de evocar essas produções, mas revistas por uma percepção “de dentro”. Entendemos, então, que a representação da favela no cinema está em busca da aproximação com a visão endógena, isto é, realizada por seus próprios moradores.  A representação da favela no cinema está em busca da aproximação com a visão endógena, isto é, realizada por seus próprios moradores.

Por que isso é relevante?

A importância do trabalho se deu em debater o conceito de lugar de fala, que está sendo amplamente discutido, mas nos meios cinematográficos. A crítica Gayatri Spivak aponta para os silenciamentos dos grupos subalternos. Boa parte das vezes, esses grupos são impedidos de ter representatividade. A expressão dos sujeitos subalternos, que é a “fala” destacada por Spivak é sua forma de autonomia perante a sociedade excludente. Os sujeitos oprimidos não precisariam ter alguém para falar por eles por serem capazes manter um ato de resistência. Podemos ponderar que, de certa maneira, essa contestação pode ser realizada através de expressões artísticas, nas quais os grupos subalternos podem encontrar um lugar para se manifestar. A expressão das minorias nas artes é a forma de estabelecer debates e proporcionar visibilidade às suas questões. Contudo, é importante ressaltar que esses grupos são igualmente aptos a tratarem não só de sua própria realidade, mas, ao terem acesso a esses espaços, são capazes de debater diversos assuntos. É comum que iniciem representando o seu próprio contexto, tal como o artista que utiliza a técnica do autorretrato como estudo, mas também como uma autovalorização.

Resumo da pesquisa

A favela é uma temática amplamente discutida no cinema, seja em filmes mais antigos ou mesmo em produções recentes. Ao refletirmos sob esse viés, optamos por discuti-la utilizando de imagens fílmicas de cineastas originados nas favelas cariocas e que reconstroem obras anteriores a partir do seu olhar endógeno. O trabalho pretendeu verificar nessas cenas o que elas reapresentam e rememoram dos longa-metragens que os antecedem, em particular “Cinco vezes favela”, de 1962,  e “Cidade de Deus”, de 2002. Para tanto, o primeiro objetivo consistiu em analisar as primeiras representações partindo do livro “Os sertões”, de 1902, escrito por Euclides da Cunha, que consideramos como mito fundador. Ao refletirmos sobre isso, notamos outras obras literárias que tratam da favela e como de certa maneira imprimem um valor patrimonial sobre ela. O cinema igualmente carrega essa valoração advinda da literatura e, por isso, discutimos a construção da favela cinematográfica.

Quais foram as conclusões?

O primeiro filme analisado foi “5X favela – agora por nós mesmos”, de 2010, que traz cinco episódios de cineastas diferentes. Notamos que cada um deles parte de suas próprias memórias, além de haver uma tentativa de desmistificar a visão de favela compartilhada no imaginário. Ao analisarmos o documentário “5X Pacificação”, de 2012, consideramos que mesmo os filmes atuais de favela, que se propõem a trazer a visão dos moradores, se apoiam em diversos discursos, até mesmo os que estão “de fora”. Ao retomarem os filmes anteriores, os olhares “apresentam outras imagens, mas se espelham nas que já foram produzidas, algo também observado em “Cidade de Deus – 10 anos depois”, de  2012. Para nós, essas informações apontam para nossa problemática, pois os cineastas desejam expor sua realidade a partir de seu olhar e, desta forma, se incluem nos meios cinematográficos. Por isso, entendemos que essas representações são interdependentes: retratam-se “de dentro”, mas utilizam elementos exteriores. Dessa maneira é proporcionada a compreensão deles mesmos e do outro, fora da favela, assim como o “asfalto” estabelece outras visões sobre as comunidades.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Os grupos de movimentos sociais voltados para as questões minoritárias são um grande alvo de nossa pesquisa, assim como leitores podem desenvolver o interesse no assunto em entrar em contato com o trabalho.

Sarah Borges Luna é graduada em turismo pela Universidade Federal Fluminense e especialista em arte e cultura pela Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro/Universidade Cândido Mendes. Tem mestrado  em memória social na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. É professora tutora do Curso de Licenciatura em Turismo da Unirio - Fundação Cecierj/Consórcio Cederj e pesquisadora do Grupo de Pesquisa Turismo, Cultura e Sociedade da Universidade Federal Fluminense - e do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Turismo e Museus (EpisTemus).

Referências:

  • BILAC, Olavo. Ironia e Piedade. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1916.
  • SPIVAK, Gayatri. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.
  • VENTURA, Zuenir. Cidade partida. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

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