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Qual a relação entre a ideia de antropofagia e a universidade

 

 

Esta dissertação, realizada na Universidade de São Paulo, analisa as obras “Manifesto Antropófago” e a “A crise da filosofia messiânica”, escritos pelo modernista Oswald de Andrade, e a sua aceitação no ambiente acadêmico entre as décadas de 1950 e 1970.

Entre as conclusões, o pesquisador destaca que o conceito de antropofagia foi pouco considerado como formação intelectual válida dentro da tradição universitária da época.

A que pergunta a pesquisa responde?

O trabalho responde a uma questão que envolve a relação do escritor Oswald de Andrade com a universidade. Ele é autor do "Manifesto Antropófago", de 1928, além de ter sido um dos principais artífices do modernismo brasileiro, inaugurado pela  Semana de Arte Moderna, ocorrida em fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo. O fato é que, posteriormente, em 1950, Oswald de Andrade escreveu a tese de filosofia intitulada "A crise da filosofia messiânica" na qual retomava o conceito de antropofagia (desenvolvido inicialmente como proposta de vanguarda modernista no seu já citado manifesto, nos anos 1920), formulando-o filosoficamente. Com essa tese, Oswald tentou se tornar docente de filosofia na ainda jovem Universidade de São Paulo, mas sem sucesso, já que não possuía curso formal na área.

A formulação filosófica da antropofagia, até o final dos anos 1970, jamais foi lida com seriedade, institucionalmente, como matéria válida de pensamento, principalmente no caso da universidade paulista. Portanto, a pergunta que a dissertação responde é: por que a universidade, num primeiro momento, não soube acolher e interpretar a formulação filosófica da antropofagia?

Por que isso é relevante?

A relevância da questão se estabelece quando explico a relação do pensamento de Oswald de Andrade e a universidade (especificamente a Universidade de São Paulo, pois foi ali que o autor pretendeu ingressar como docente). Busco demonstrar as correntes de pensamento que se tornaram hegemônicas dentro da instituição e, nesse sentido, evidencio a hegemonia de uma maneira específica de interpretar a cultura no Brasil. Tal hegemonia fica identificada nos discursos de formação nacional, bem representados pelas clássicas obras de Gilberto Freyre, Caio Prado Jr., Sergio Buarque de Holanda, Celso Furtado e, no caso específico da literatura, Antonio Candido. Os textos deste último serão o principal objeto da minha análise. Por fim, cabe fazer a seguinte ressalva: a citada hegemonia, se não é exatamente extensiva até os dias atuais, consolidou-se nos anos 1960 nos cursos de filosofia e ciências humanas da USP, e existia de fato até meados dos anos 1970.

Resumo da pesquisa

A dissertação propõe uma análise comparativa entre os discursos de formação nacional e a antropofagia. Os exemplos privilegiados de análise são, respectivamente, a obra de Antonio Candido “A formação da literatura brasileira”, de 1959, e a tese de Oswald de Andrade “A crise da filosofia messiânica”, de 1950. A pesquisa enfatiza os anos posteriores a 1950, os quais correspondem ao período em que Oswald de Andrade retomou o conceito de antropofagia, cunhado primeiramente no Manifesto Antropófago como vanguarda modernista. Esse período coincide também com a consolidação da instituição universitária no país. Busca-se, portanto, entender a relação entre aqueles dois discursos dentro da universidade, tendo como contexto a vida universitária em São Paulo nos anos 1950 até meados dos anos 1970.

Quais foram as conclusões?

A principal conclusão da dissertação é a seguinte: o discurso antropofágico (entendido pelos textos dos anos 1920 e, mais tarde, dos anos 1950) permite o questionamento das principais premissas que fundamentam o discurso de formação nacional (premissas estas que tem sua origem na tradição da crítica romântica brasileira, ainda no século 19). Portanto, o discurso institucionalizado na Universidade de São Paulo, a partir da perspectiva de formação nacional, faz prevalecer seu ponto de vista numa interpretação geral da história do modernismo. Consequentemente, a antropofagia, dentro dos seus próprios princípios e pressupostos, passa a ser pouco considerada como formulação intelectual válida, dentro da referida tradição universitária – em que pese as contradições de posição do próprio autor da antropofagia.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Todos aqueles interessados em história intelectual e cultural brasileira, em história da filosofia no Brasil, história da formação universitária e, especificamente, a dissertação é endereçada àqueles que se interessam pelo modernismo, a antropofagia de Oswald de Andrade e pelo pensamento de Antonio Candido.

 

Raphael Meciano é  historiador graduado pela Universidade de São Paulo. É também mestre em história social pela Universidade de São Paulo, com pesquisa em história intelectual contemporânea e literatura brasileira. Atualmente é professor de história para ensino médio e fundamental.

Referências:

  • CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira. 15ª edição. São Paulo: Ou-ro sobre azul, 2014.

  •  ANDRADE, Oswald. A Utopia Antropofágica. São Paulo: Editora Globo, 1990.

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