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Como a rede de cidades médias avançou Brasil adentro

Esta pesquisa, realizada por Clauber Scherer na UFMG, investiga características da rede urbana do país entre 2000 e 2010

 

Esta pesquisa, realizada na UFMG, investiga as particularidades da rede urbana brasileira entre 2000 e 2010, com foco nas cidades médias.

Entre as conclusões, o pesquisador destaca um processo de interiorização da rede, sobretudo no Norte e Nordeste do país. Entre as causas apontadas pelo autor, está o fortalecimento de políticas de transferência e valorização de renda implementadas na região.

A que pergunta a pesquisa responde?

A tese procura aprimorar a compreensão sobre a rede brasileira de cidades focando na identificação e caracterização das suas cidades médias evitando usar o tamanho populacional como critério definidor de hierarquia. O objetivo é priorizar, em vez disso, as relações de interação que se estabelecem entre os centros urbanos. A partir disso, avalia-se as mudanças internas da rede entre 2000 e 2010, além de comparar-se o caso do Brasil com o dos Estados Unidos. Os dois países, apesar de apresentarem um tamanho similar, ocupam posições reconhecidamente díspares em termos econômicos.

Por que isso é relevante?

Na medida em que se desenvolve uma melhor capacidade de compreensão da rede de cidades, permite-se que ações focadas sejam mais eficazes, principalmente em relação às cidades médias, cuja compreensão ainda é bastante limitada no Brasil. Por isso, compreender quais as características, como se distribuem e qual tem sido a evolução desse grupo de centros urbanos, torna-se um exercício importante para o entendimento e o fomento do desenvolvimento territorial do país.

Resumo da pesquisa

Esta tese representa um esforço de aprofundar o conhecimento das particularidades contemporâneas da rede urbana brasileira e, mais especificamente, das suas cidades médias. Para isso, analisando os anos de 2000 e 2010, parte-se da hipótese de que o tamanho da população é um fator insuficiente para capturar a inserção dos centros urbanos dentro dos diferentes níveis hierárquicos da rede. Isso ocorre especialmente em um caso como o Brasil onde, em função da expressiva heterogeneidade regional existente, uma cidade de 100 mil habitantes em São Paulo, por exemplo, tem uma inserção distinta de uma no estado de Roraima. Os resultados apontam para uma continuidade da interiorização da rede – já constatada para períodos temporais anteriores –, evidenciada tanto pelas mudanças nas composições hierárquicas quanto pelos níveis de centralidade das regiões mais periféricas. Aos já conhecidos argumentos dos vetores agropecuários e da extração mineral agindo como elementos ativos de mudança nessas regiões, junta-se aqui um fator novo que se mostra central na explicação da alteração de centralidade: a dinâmica interna, a partir das políticas de valorização e transferência de renda ocorridas na década.

Quais foram as conclusões?

No período compreendido entre 2000 e 2010, pôde-se perceber que a rede de cidades brasileira e, em especial, as suas cidades médias, interiorizaram-se no território avançando principalmente nas regiões Norte e Nordeste. Dentre as causas desse movimento, as políticas de transferências e valorização de renda, que se fortaleceram na década, mostraram-se como importantes elementos nesse movimento, pois permitiram a dinamização de economias regionais mais deprimidas. Porém, quando comparada a rede de cidades brasileira com a norte-americana, percebe-se que no Brasil as cidades médias estão presentes em menor número e, no geral, são também cidades menores. Essa constatação permite levantar a hipótese de que a discrepância entre os grandes centros e o resto da rede não ocorre pelo excessivo tamanho dos primeiros, mas sim pela insuficiência dos centros no próximo nível hierárquico, quais sejam, as cidades médias.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Em termos de planejamento regional, o reconhecimento das características da rede de cidades local é central para o êxito de qualquer política voltada para aquela região. Por isso, esse trabalho serve de subsídio para políticas de fomento regional, bem como para demais pesquisadores interessados em uma análise mais meticulosa que vise cidades em específico e suas relações com seu entorno. Além disso, por ter um foco explícito nas cidades médias, o estudo procura também chamar atenção dos gestores para a importância representada por essa fração de cidades na articulação da rede urbana do país.

Clauber Eduardo Marchezan Scherer é doutor em economia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da UFMG.

Referências:

  • CHRISTALLER, W. Central Places in Southern Germany. New Jersey: Englewoods Cliffs, 1966.

  •  IBGE. Região de Influência das Cidades 2007. Rio de Janeiro, 2008.

  •  JACOBS, J. The Economy of Cities. New York: Random House, 1969.

  • SPÓSITO, M. E. B. (Org.). Cidades médias: espaços em transição. São Paulo: Expressão Popular, 2007.

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