Paper: Papilas modernistas: alteridade e identidade nacional no diário de viagem "O Turista Aprendiz", de Mário de Andrade

Autores

José Bento de Oliveira Camassa

Lattes

Área e sub-área

História, História do Brasil/História da Cultura

Publicado em

Revista de História Bilros História(s), Sociedade(s) e Cultura(s) 30/01/2018

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Esta pesquisa, publicada na Revista de História Bilros História(s), Sociedade(s) e Cultura(s), analisa o impacto que a viagem do escritor modernista Mário de Andrade até a Amazônia teve na sua produção.

O autor analisa relatos de viagem escritos por Andrade, e destaca a influência das reflexões na percepção do escritor sobre o que é a identidade brasileira, e todos os fenômenos que a compõem.

A que pergunta a pesquisa responde?

Como a viagem à Amazônia impactou a obra de Mário de Andrade e suas visões sobre o Brasil?

Por que isso é relevante?

Mário de Andrade foi um dos principais intérpretes do Brasil e um dos maiores estudiosos das culturas populares do país. A reflexão do intelectual sobre o tema não se esgotou em suas obras poéticas e ficcionais. “O Turista Aprendiz”, diário de viagem de Mário pela Amazônia em 1927, é uma das suas mais ricas fontes. Essa viagem foi um momento-chave para consolidar a preocupação do pensamento marioandradiano (e do modernismo, em maior grau) com a temática nacional, uma vez que o autor publicaria clássicos como “Clã do Jabuti” (novembro de 1927) e “Macunaíma” (1928), nos quais as referências à Amazônia são centrais. Para Andrade, a ida à Amazônia contribuiu para reforçar o expediente da viagem como recurso privilegiado para estudar as culturas brasileiras. Em 1938, chefiando o Departamento de Cultura paulistano, Mário organizou a Missão de Pesquisas Folclóricas, expedição que documentou (inclusive fonograficamente) manifestações culturais populares do Norte e do Nordeste nacionais. Ademais, “O Turista” é um documento extremamente profícuo, reunindo não apenas o diário íntimo como também fotos, poemas, anedotas, esboços de ficção e, especialmente, amplas passagens ensaísticas.

Resumo da pesquisa

Relatos de viagem são textos privilegiados para o estudo das percepções sobre a alteridade e para a reflexão por parte do escritor-viajante sobre a sua identidade. Procuramos identificar o estabelecimento de tais relações n’O Turista Aprendiz, diário de viagem de Mário de Andrade durante sua excursão pelo rio Amazonas, em 1927. Na obra, as considerações de Andrade sobre si e sobre o outro buscam, com humor, problematizar o eurocentrismo, bem como estão atreladas à preocupação do autor com as questões da identidade e da cultura nacionais. Tal interesse direciona a observação do poeta à cultura material, à música, às variantes linguísticas e à alimentação amazônicas. Sustentamos que os escritos do diário mostram a importância da experiência da viagem à Amazônia para a forja da concepção, por parte de Mário, da brasilidade como um fenômeno cultural sincrético, pluralista e ligado à experiência popular cotidiana. Assim, acreditamos que não é adequado considerar os discursos presentes em ”O Turista Aprendiz” como mero reflexo do modernismo marioandradiano. Este também teria sido moldado pelo que Mário viu, ouviu, provou, conversou e refletiu na Amazônia.

Registro feito em 1927 pelo escritor Mário de Andrade na Procissão de Maria, em Santarém
 

Quais foram as conclusões?

A viagem pela Amazônia alimentou profundamente os projetos estéticos e políticos de Mário de Andrade, especialmente no que tange à concepção da brasilidade como fenômeno cultural sincrético e atinente à experiência popular cotidiana. Em sua excursão, o escritor paulista e urbano direciona seu olhar para as mais diversas manifestações culturais populares amazônicas e para grupos sociais marginalizados, como ribeirinhos, seringueiros e indígenas. Frente a essa alteridade, Mário reforça sua percepção de que a identidade nacional brasileira deveria ter um caráter múltiplo, incorporando culturas interioranas e de origem africana e indígena, historicamente desvalorizadas pelas classes dominantes. Analogamente, em diversas passagens e anedotas, o modernista brinca com o “olhar imperial” (o discurso de superioridade civilizatória europeia, compromissado com projetos imperialistas), tópica bastante presente na literatura de viagens europeia oitocentista, como estudado por Mary Louise Pratt. Andrade também intenta relativizar o eurocentrismo ao criticar modismos cosmopolitas das elites brasileiras e abordar como as visões de mundo indígenas podem destoar das da modernidade ocidental.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Todos aqueles, sejam acadêmicos ou leigos, interessados pelos seguintes temas: Amazônia, cultura popular, diversidade étnica e cultural brasileira, vida e obra de Mário de Andrade, modernismo brasileiro, história da literatura e do pensamento social brasileiro e literatura de viagens. O artigo também é recomendado para quem se interessa pela gastronomia amazônica (tida em alta conta por muitos chefs de cozinha contemporâneos, brasileiros e estrangeiros), uma vez que o diário de Mário de Andrade registra e comenta detalhadamente inúmeros pratos, ingredientes e iguarias da região.

José Bento de Oliveira Camassa é bacharel e licenciado em história pela USP. Mestrando em história social na mesma instituição.

Referências:

  • ANDRADE, Mário de. O Turista Aprendiz. LOPEZ, Telê Ancona; FIGUEIREDO, Tatiana Longo (ed.). Edição de texto apurado, anotada e acrescida de documentos. Inclui CD-ROM, intitulado "Os diários do fotógrafo", e DVD com o Documentário "A casa do Mário". Brasília: IPHAN, 2015.

  • ____________________. “Clã do Jabuti”. In: ___________________. Poesias completas. LOPEZ, Telê Ancona; FIGUEIREDO, Tatiana Longo (ed.). Edição de texto apurado, anotada e acrescida de documentos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013

  • ____________________. Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. LOPEZ, Telê Ancona; FIGUEIREDO, Tatiana Longo (estabelecimento do texto). Rio de Janeiro: Agir, 2008

  • MORAES, Eduardo Jardim de. “Modernismo Revisitado”. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 1, n. 2, 1988, pp. 220-238

  • PRATT, Mary Louise. Os olhos do Império: relatos de viagem e transculturação. Bauru: Edusc, 1999

  • TRINDADE LIMA, Nísia; BOTELHO, André. “Malária como doença e perspectiva cultural nas viagens de Carlos Chagas e Mário de Andrade à Amazônia”. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v.20, n.23, jul.-.set. 2013, pp. 745- 763.3

     

     

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