Como o centro de São Paulo se relaciona com a população LGBT

 

Esta pesquisa, realizada na Unicamp, analisa de que forma as regiões próximas à rua Augusta e ao bairro da República, em São Paulo, são caracterizadas pela presença da população LGBT. A pesquisa também investiga a influência dessa relação sobre as políticas públicas implementadas no centro da cidade.

Entre as conclusões, o pesquisador destaca a diversidade de grupos que frequentam o centro, apesar da tendência de estigmatização, e a presença de ações de resistência que questionam o planejamento urbano da região, marcada pela presença de minorias marginalizadas.

A que pergunta a pesquisa responde?

Minha pesquisa de doutorado teve como objetivo central analisar a coprodução de sujeitos e espacialidades marcadas por identidades sexuais na região central da cidade de São Paulo. Se deteve, especificamente, nas formas como as imediações  da rua Augusta, objeto de minha pesquisa de mestrado, e a região da  República são entendidas como “gays”, mas de maneiras diferentes. Busquei abordar não apenas o ponto de vista de frequentadores de bares e casas noturnas das regiões que se identificam como gays, mas também o de  moradores novos e antigos, empresários da noite.

Também foi analisada a dinâmica do mercado imobiliário ao se aproximar dessas classificações em materiais de divulgação e venda de novos empreendimentos. Além disso, cruzei os dados relativos ao lazer utilizado pelos interlocutores da pesquisa com a busca de novos terrenos pelo mercado imobiliário para compreender políticas públicas de combate à discriminação de LGBT territorializadas nos espaços da pesquisa durante o período do doutorado. Assim, diferentes definições de identidade sexual atreladas aos espaços indicavam formas de pensar, produzir e planejar a cidade.

Por que isso é relevante?

Diversas pesquisas sobre homossexualidades, focando mercado, movimentos sociais e consumo têm mostrado como a presença de pessoas que se definem ou são definidas como homossexuais se dá desde as primeiras décadas do século 20. Meu trabalho dialoga com essa bibliografia, em especial com o trabalho do antropólogo argentino Néstor Perlongher sobre a prostituição masculina na região da República e as classificações móveis dos sujeitos nos lugares de seu trabalho sexual, para pensar como os espaços são socialmente produzidos, e não fixos. Além disso, meu trabalho visa cruzar dados qualitativos com números sobre as mudanças dos mercados de lazer segmentado e imobiliário nas regiões pesquisadas num período recente, permitindo inferir sobre a concentração de moradia de um perfil social valorizado em áreas centrais outrora desvalorizadas. A análise mostra a população LGBT ajudando de forma inédita a compreender o planejamento urbano e seus diferentes conflitos com populações estigmatizadas na implementação de políticas públicas territorializadas frente a novos atores políticos.

Resumo da pesquisa

O objetivo desta tese é compreender processos de produção da cidade e de centralidades e periferias a partir da região central de São Paulo. Para tanto, a pesquisa considera processos que têm lugar nos últimos 30 anos nos mercados de lazer segmentado e imobiliário e as inter-relações estabelecidas com a sexualidade  e sobretudo com a população gay. A metodologia articula elementos qualitativos e quantitativos a partir da produção de etnografia, cuja principal estratégia consistiu em caminhar pela cidade seguindo um amplo conjunto de atores. Ao longo da tese, diferenças e conflitos urbanos são articulados para refletir sobre a produção da cidade em diálogo com noções como as de gueto e de gentrificação. A perspectiva analítica considera a constituição mútua de diferenças relativas a gênero, sexualidade, classe, geração e raça e o espaço como produto de relações sociais, argumentando na direção da constituição mútua e contingente de espaços, relações e sujeitos.

Quais foram as conclusões?

Olhar para os espaços pesquisados a partir de sua produção nos contextos das relações sociais com os interlocutores evitou uma definição mais ampla de que estaríamos falando de uma grande região central "gay". Há diferenças nas formas como os sujeitos são classificados em intersecção, principalmente com formas de nomear pessoas a partir de pertencimento de raça, classe e gênero. Mesmo amplamente utilizado entre os interlocutores, o termo "gay" compete com classificações depreciativas como "bicha" ou "viado" quando se trata da região da República, por exemplo, e isso impacta na expansão dos mercados e na implementação de políticas públicas lá territorializadas, sem dialogar com sua população frequentadora. Chamo atenção para como, mesmo assim, tais mercados se expandiram em especial pelo uso do termo "diversidade", mas não sem observarem ações de resistência que visam   questionar o planejamento urbano, principalmente marcando a região da República como o lugar da presença homossexual marginalizada e de travestis e transexuais.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Tenho tido bastante diálogo com colegas de diferentes áreas, além da antropologia e da sociologia que trabalham com espaço urbano, gênero e sexualiade, como arquitetas/os e geógrafas/os. Acredito que meu trabalho pode ser interessante também ao público em geral, que queira compreender melhor o contexto contemporâneo de espaços da cidade classificados a partir das sexualidades, além de gestoras/es públicas/os, planejadoras/es urbanas/os, pessoas que estudem políticas públicas municipais, movimentos sociais focados em direito à moradia nas cidades e ocupação urbana democrática e novos atores políticos reunidos em coletivos.

 

Bruno Puccinelli é doutor em Ciências Sociais pela Unicamp e mestre em ciências sociais pela Unifesp. Trabalha com pesquisas  voltadas para  a  produção do espaço, em especial do espaço das cidades, tendo como suporte as contribuições da antropologia urbana, dos estudos de gênero, das reflexões sobre sexualidades e da geografia feminista. Me aproximo deste debate também na área da Arquitetura e do Urbanismo, pensando nas formas de planejamento, disputa e especulação do espaço, e da Saúde Pública e Coletiva em suas possíveis interseções na reflexão sobre políticas públicas.

 

Referências:

  • FACCHINI, R. “Sopa de letrinhas?”: movimento homossexual e produção de identidades coletivas nos anos 90. Rio de Janeiro: Garamond, 2005.

  • FACCHINI, R.; FRANÇA, I. L.; BRAZ, C. Estudos sobre sexualidade, sociabilidade e mercado: olhares antropológicos contemporâneos. Cadernos Pagu, n. 42, jan.jun./2014, p. 99-140.

  • FRANÇA, I. L. Consumindo lugares, consumindo nos lugares: homossexualidade, consumo e subjetividades na cidade de São Paulo. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2012.

  • MACRAE, E. Em defesa do gueto. In: GREEN, J.; TRINDADE, R. (orgs.). Homossexualismo em São Paulo e outros escritos. São Paulo: Editora da Unesp, 2005.

  • PERLONGHER, N. O. O Negócio do Michê: a prostituição viril. São Paulo: Perseu Abramo, 2008.

  • SIMÕES, J. A. Homossexualidade masculina e curso da vida: pensando idades e identidades sexuais. In: PISCITELLI; GREGORI, M. F.; CARRARA, S. (orgs.). Sexualidade e saberes: convenções e fronteiras. Rio de Janeiro: Garamond, 2004.

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