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O que causa o ‘sentimento do estranho’ observado pela psicanálise

Este estudo investiga os fatores que constituem o  conceito de “estranho” a partir da obra de Sigmund Freud

 

Esta pesquisa, feita na USP, analisa os elementos fundamentais na constituição do “sentimento do estranho”, conceito originado na psicanálise que trata da relação entre o familiar e o desconhecido. Disseminado a partir da obra do médico criador da psicanálise Sigmund Freud, o tema também é estudado nos campos da linguística, estudos literários, filosofia e outros.

Entre as conclusões, os autores do estudo destacam um novo fator, além dos dois apontados por Freud, para a causa do sentimento do estranho, relacionado à necessidade da experiência de colapso dos domínios sobre o que é familiar e o que é estrangeiro.

A que pergunta a pesquisa responde?

Este trabalho procura aprofundar a problemática do sentimento do estranho (aquilo que é estranhamente familiar),  um tema clássico para a estética e para a psicanálise. Em um texto seminal sobre o assunto, o criador da psicanálise Sigmund Freud aponta dois fatores fundamentais para o surgimento do estranho — o retorno de elementos do que foi recalcado, assim como de um modo de pensamento mágico. Contudo, conclui que esses elementos, ainda que fundamentais, não seriam suficientes para explicar o conceito, e que seria ainda necessário um terceiro fator. É a esta pergunta que procuramos responder: qual seria o terceiro fator determinante para o sentimento do estranho?

Por que isso é relevante?

O tema do estranho obteve atenção e desenvolvimento nos campos da linguística, da crítica e dos estudos literários, da filosofia e da estética, além da própria psicanálise. Ele aparece nas produções literárias e cinematográficas enquanto um tipo de experiência humana bastante intrigante e, por vezes, assustadora. Dentre as situações geralmente retratadas, temos a da figura do duplo, a máquina ou boneca que se torna viva ou, inversamente, do humano que é reduzido a uma máquina; dos acontecimentos que se repetem como uma perseguição do destino; das palavras que significam também o seu oposto; o déjà-vu, a descoberta de uma memória que nunca aconteceu de fato; do objeto relíquia que representa um morto; da alma que migra para outro corpo etc.

A compreensão dos mecanismos psicológicos por trás desse sentimento pode ajudar a aprofundar esse tipo de pesquisa e produção estéticas. Junto a isso, importantes aspectos do funcionamento geral do psiquismo e da linguagem se revelam pelo tema do estranho.

Resumo da pesquisa

Neste texto procuraremos expandir os horizontes da significação do conceito de estranho (geralmente tomado apenas enquanto alegoria do retorno do recalcado). Buscamos  reabrir fissuras em torno da questão, ressaltando sua condição narrativa ou de experiência dos limites do eu, a ligação com uma condição primitiva da constituição do psiquismo e a problemática da repetição que o acompanha, assim como suas vinculações ao tema do fetiche e da relíquia.

Entendemos ser este um conceito que mereceria mais atenção dos psicanalistas —o texto de Freud obteve mais desenvolvimentos nos campos da linguística, da crítica e dos estudos literários, da filosofia e da estética, em geral, do que no próprio campo psicanalítico. Além de refletir o próprio funcionamento neurótico do recalque, a oposição entre familiar e estrangeiro remete também a distinções mais primitivas, tais como eu e não-eu ou dentro e fora. Destacamos ainda o romance “Mar da fertilidade”, do escritor e dramaturgo Yukio Mishima, por meio do qual apontaremos um aspecto singular da experiência de leitura; além da obra, constitui um parêntese especial a questão do fetiche e da relíquia, analisados aqui pelo vértice do estranho.

Quais foram as conclusões?

Esperamos ter demonstrado com clareza suficiente o terceiro fator para que haja o estranho: o eu (self) deve experimentar a vivência momentânea de colapso entre os domínios do que é familiar e do que é estrangeiro — deve ter a experiência de ter seus contornos abalados. Nem todo pensamento mágico, repetição ou retorno do recalcado produz o efeito do estranho, mas tão somente aqueles que criam esse “efeito narrativo”, o abalo da experiência de identidade do eu.

Além das situações estranhas que podemos experimentar na vida comum, também por meio da literatura ou do cinema, trata-se sempre de uma experiência narrativa do eu: diante de uma obra, a partir de determinado momento, já não é mais possível dissociar objetivamente os sentimentos e pensamentos do personagem dos nossos próprios. Emprestamos nossa percepção e aparelho psíquico àquela voz literária, a seus sentimentos e aos acontecimentos que o personagem vive, tal como se fosse um duplo nosso. Essa é a persuasão do escritor (ou do diretor), quando é bem-sucedido – deixamo-nos submergir nesse meio linguageiro e compartilhamos, de dentro, as experiências que são propostas.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Pessoas interessadas em literatura e cinema. Do ponto de vista teórico, psicanalistas, psicólogos, filósofos, escritores e teóricos da estética.

André de Martini é psicanalista, possui doutorado e mestrado pelo Instituto de Psicologia da USP e pós-doutorado pelo Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da PUC-SP.

Nelson Ernesto Coelho Junior é professor doutor do Departamento de Psicologia Experimental do Instituto de Psicologia da USP

Referências:

  • FREUD, S. (1919/1996). O estranho. Obras completas, ESB, v. XVII. Rio de Janeiro: Imago Editora. 
  • HOFFMANN, E.T.A. O Homem de Areia. Rio de Janeiro: Imago, 1993.

  • MISHIMA, Y. Mar da fertilidade, v. 1. Neve de primavera. São Paulo: Brasiliense, 1969/1986. 
  • MISHIMA, Y. Mar da fertilidade, v. 2. Cavalo selvagem. São Paulo: Brasiliense, 1969/1987. 
  • MISHIMA, Y. Mar da fertilidade, v. 3. O templo da aurora. São Paulo: Brasiliense, 1969/1988. 
  • MISHIMA, Y. Mar da fertilidade, v. 4. A queda do anjo. São Paulo: Brasiliense, 1970/1988.

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