Ir direto ao conteúdo

Quais as estratégias adotadas por candidatos populistas no Twitter

Esta pesquisa, realizada na Hertie School of Governance, na Alemanha, analisa tuítes de 12 políticos em campanhas eleitorais de quatro países: França, Alemanha, Espanha e Estados Unidos

 

 

Esta pesquisa, realizada na Hertie School of Governance, na Alemanha, analisa tuítes de 12 políticos em campanhas eleitorais de quatro países: França, Alemanha, Espanha e Estados Unidos. O objetivo é investigar possíveis padrões de comportamento adotados pelos candidatos na plataforma e entender de que maneira eles se beneficiam das redes sociais.

Entre as conclusões, o autor destaca a capacidade dos candidatos analisados de atrair público por meio de uma comunicação “negativa”, caracterizada pela abordagem pessimista de temas tratados na campanha e pelo ataque a adversários políticos, entre outros aspectos.

A que pergunta a pesquisa responde?

A pesquisa busca identificar se existe um padrão de comunicação no uso de redes sociais por candidatos considerados populistas, sejam eles de extrema esquerda ou extrema direita. O entendimento é de que candidatos populistas tendem a se beneficiar de novas mídias em sua estratégia eleitoral, já que deixam de depender exclusivamente dos meios de comunicação tradicionais, que antes atuavam como filtros, para transmitir sua mensagem. Dessa forma, o estudo abre espaço para a discussão sobre o papel que meios de comunicação digitais têm em contextos eleitorais. O padrão de comunicação identificado é testado a partir de uma série de categorias que visam a entender o estilo e a mensagem dos candidatos e os tópicos aos quais eles se referem, além de identificar o alvo de suas críticas e a forma como falam sobre diferentes temas. Mostramos ainda que candidatos populistas se diferem radicalmente de candidatos de partidos tradicionais na maneira como usam o Twitter em todos os contextos analisados. Além disso, demonstramos que, em média, candidatos populistas geram maior atenção que candidatos de partidos tradicionais na plataforma.

Por que isso é relevante?

Com maior ou menor impacto, o uso de internet, redes sociais e o consumo de informação – verdadeira ou falsa – em meios digitais leva à necessidade de debater sobre como o comportamento político do eleitor pode ser influenciado à medida que aumenta a presença dessas tecnologias em nosso cotidiano.

Nesse contexto, frequentemente se critica o papel dos algoritmos em priorizar conteúdo para usuários. Quando tratamos de conteúdo político, essa priorização acaba fechando as portas para visões políticas contrárias às nossas, criando bolhas que nos separam ideologicamente. Nesse sentido, a ideia básica de democracia, que demanda diálogo entre  diferentes pontos de vista, dá lugar a um debate que reforça e radicaliza a posição ideológica de um indivíduo, que é colocado entre pessoas que pensam como ele, nas chamadas “câmaras de eco”. Dessa forma, a pesquisa discute não apenas as mudanças na forma de comunicação entre candidatos e eleitores através de redes sociais, mas também a interação entre novas mídias e meios de comunicação tradicionais, uma vez que eles passam a se complementar quando se trata da cobertura de processos eleitorais.

Resumo da pesquisa

A dissertação compara 12 campanhas políticas em quatro países diferentes — França, Alemanha, Espanha e EUA — para buscar padrões no uso do Twitter como ferramenta de comunicação política. O objetivo é identificar se existe um estilo e uma estratégia de comunicação em comum entre  candidatos populistas, independentemente do país de origem ou posição no espectro político. Com base em uma extensa revisão da literatura sobre populismo e estratégias de comunicação política, codificamos 400 tuítes para cada candidato, resultando em uma base de dados de 4.800 postagens. Utilizando o método de análise hierárquica, identificamos três conjuntos com padrões similares de comportamento. Dois deles descrevem com sucesso o comportamento esperado dos candidatos que se enquadram na categoria "establishment" ou "populista". Dessa forma, deciframos empiricamente as características do discurso populista nas redes sociais: uma maneira de transmitir uma mensagem de forma negativa e conflituosa, criando uma atmosfera de crise e mobilizando eleitores com a narrativa "nós contra eles", auxiliada por uma forte crítica contra as "elites" — da política, de empresários e da mídia.

Quais foram as conclusões?

Em termos gerais, candidatos populistas tendem a se comunicar de maneira negativa, criando uma situação de caos e crise ao retratar os temas aos quais se referem. Também costumam tratar de agendas políticas e propostas de maneira muito polarizada e apresentam uma forma conflituosa de comunicação, atacando adversários políticos e elites. Entendendo que essa forma de comunicação conflituosa e negativa tem um apelo grande entre consumidores de notícias, a pesquisa discute como candidatos populistas se beneficiam no contexto de novas mídias. No caso norte-americano, meios de comunicação tradicionais tiveram um impacto significativo ao colocar o presidente Donald Trump em pé de igualdade com outros candidatos na disputa eleitoral, em parte com base no uso das redes sociais pelo então candidato. Nesse sentido, ao angariar interações de usuários e servir de fonte de informação para notícias, a forma como candidatos populistas usam redes sociais em contextos eleitorais tende a beneficiá-los. Em comparação com candidatos de partidos tradicionais, geram maior atenção para suas propostas e agendas políticas.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Ao argumentar que as redes sociais interagem com meios tradicionais de comunicação, e que nesse espaço ideias mais polarizadas e dramatizadas tendem a ganhar atenção, a pesquisa serve de alerta para usuários de redes sociais, consumidores de notícias e jornalistas. O estudo mostra  que o método de comunicação de candidatos populistas, ainda que negativo para o debate democrático, é positivo em gerar atenção para eles mesmos e suas agendas políticas — potencialmente resultando em melhores resultados eleitorais. A partir do momento que atuamos como consumidores e multiplicadores dessa estratégia, temos nossa parcela de responsabilidade ao permitir que o debate público trate ideias e posições extremistas como opções viáveis,  especialmente em contextos eleitorais. Nesse sentido, é imperativo que os eleitores tenham consciência dessa dinâmica para evitar que a polarização e a radicalização estejam no centro do debate político.

Rafael Schmuziger Goldzweig é mestre em políticas públicas pela Hertie School of Governance, em Berlim, com bolsa do programa Helmut-Schmidt de políticas públicas e boa governança. É graduado em relações internacionais pela Universidade de São Paulo. Atualmente, trabalha como pesquisador no Dahrendorf Forum, em Berlim, no grupo de trabalho sobre Populismo e Tendências Eleitorais, com foco em novas mídias e comportamento político.

 

 

Referências:

  • Faris et. al (2017). Partisanship, Propaganda, and Disinformation: Online Media and the 2016 U.S. Presidential Election. Berkman Klein Center, Harvard.  
  • Pariser, E. (2011). The filter bubble: What the Internet is hiding from you. Penguin UK.

  • Sunstein, C. (2001). Echo Chambers: Bush v. Gore; Impeachment, and Beyond. Princeton: Princeton University Press.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!