Qual é o impacto da cibercultura em práticas artísticas de São Paulo

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Esta pesquisa, realizada na Unesp, investiga o trabalho de coletivos artísticos que usam a tecnologia para fazer criações em rede. Três iniciativas paulistanas são analisadas: BaixoCentro, Pimp My Carroça e Piscina no Minhocão.

Entre as conclusões, o autor destaca que existem muitas características comuns aos grupos que criam seus trabalhos com o auxílio de conceitos da cibercultura. Na dissertação, esses aspectos estão distribuídos em cinco pontos teóricos: concepção, manifestação no espaço público, execução aberta, temática comum e comunidade em torno.

A qual pergunta a pesquisa responde?

A pesquisa investiga a crescente cena de arte coletiva de São Paulo, que desde a virada para 2010 apresenta trabalhos que compartilham uma característica: o uso da tecnologia para criar em rede.

A ideia é criar uma reflexão sobre a hipótese de que, no mesmo período histórico de maturidade da internet e da estética occupy, coletivos de artistas paulistanos estariam se valendo do conceito de “commons” (bens comuns) para criar ações de resistência estética e política alinhadas aos princípios da “cultura livre”. Utilizo como objetos de estudo três iniciativas: BaixoCentro (2012), que articula centenas de intervenções urbanas em um festival; Pimp My Carroça (2012), que reúne grafiteiros para transformar os veículos de catadores em tela e Piscina no Minhocão (2014), que transfigura o viaduto em palco aquático de intervenções. Essas obras e ações teriam o “código aberto”? Esse seria um tipo de “arte feito pela multidão”? Que outros atributos estéticos podem ter ações artísticas pensadas como plataforma? São examinados os  três casos para apontar o que seriam essas novas poéticas dos bens comuns, ou “poéticas do comum”.

Por que isso é relevante?

Quando aconteceram, essas intervenções coletivas geraram uma repercussão tal que inauguraram um movimento maior de retomada das ruas da capital. A estética do lambe-lambe, a Avenida Paulista aberta, os últimos carnavais de rua e mesmo as Jornadas de Junho são exemplos desse resgate. Além disso, foram financiadas via crowdfunding, um fenômeno também novo da produção cultural brasileira. Há um espírito de vanguarda artística que vale a pena estudar. Porém, ao contrário do boom das primeiros anos da década, hoje a arte urbana sofre perseguição em São Paulo, inclusive do próprio poder público. O prefeito João Doria apaga murais de grafite, força um padrão estético com o programa higienista “Cidade Linda” e precariza como nunca a pasta da Cultura. As ações estudadas na pesquisa ganham relevância diante desse contra-ataque histórico. Por último, a utopia da internet não se confirmou. Em vez dos protocolos livres e do compartilhamento do conhecimento, hoje a rede é dominada por corporações e Estados vigilantes, interessados em lucrar política e economicamente com nossas subjetividades. Exemplos disso são o presidente norte-americano Donald Trump, o Brexit, a farsa do impeachment etc. A pesquisa de certa forma resgata a utopia do coletivo.

Resumo da pesquisa

Este trabalho analisa o conceito de commons digital, originado no campo da cibercultura, no contexto de ações artísticas produzidas nos últimos anos na cidade de São Paulo. Valendo-me principalmente das teorias de Antonio Negri, Nicolas Bourriaud, Guy Debord e Gilles Lipovetsky, a pesquisa parte da retomada do “comum” como valor intrínseco à sociedade informacional, e segue com uma análisenos campos da arte pública e artemídia para, enfim, classificar cinco aspectos das “poéticas do comum” . Eles são listados a partir de três modelos de caso: BaixoCentro (2012), Pimp My Carroça (2012) e Piscina no Minhocão (2014). Por fim, são apresentados os primeiros resultados da ação “Terrenos Apaixonantemente Objetivos”, que aplica a ideia do comum à deriva situacionista, e é detalhada a concepção e o desenvolvimento do Derivoscópio, um aparato vestível construído com hardware e software livres que integra a ação.

Quais foram as conclusões?

A conclusão é de que há diversos pontos em comum entre os três projetos artísticos estudados – e também entre muitas outras manifestações do “commons” em trabalhos de arte realizados em São Paulo no mesmo período. Na dissertação, esses pontos são organizados em cinco tópicos teóricos, a primeira tentativa de identificar caminhos poéticos na contemporaneidade que têm no “comum” seu principal campo de pertencimento:

1) Concepção/autoria coletiva

2) Manifestação no espaço público

3) Execução aberta/permeável/relacional

 4) Temática comum

 5) Comunidade em torno

Por fim, apresento o memorial descritivo da ação “Terrenos Apaixonantemente Objetivos”, minha contribuição artística na busca do commons como temática e ética de projetos de artes.

Em parceria com Tiago F. Pimentel, o Derivoscópio é construído. Trata-se de um “capacete sensitivo” de código aberto, que registra as emoções do artista enquanto caminha pelas cidades. Quase 60 anos depois de “Teoria da Deriva”,  texto clássico do situacionista Guy Debord, propomos usar a tecnologia para poeti-ironizar dois pilares da sociedade da informação: os dispositivos de vigilância e os egos autorreferentes em rede.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Curadores são as principais figuras do universo das artes que, imagino, deveriam se inteirar deste trabalho. Primeiro, porque as temáticas e o tipo de iniciativa abordados passam ao largo da maioria dos projetos curatoriais em cartaz hoje no Brasil – cuja mentalidade ainda privilegia a criação artística individual e, de preferência, virtuosística. Devido à natureza interdisciplinar, ao diálogo com as redes digitais e ao caráter militante, os projetos que estudo não são sequer considerados pelas “instâncias de consagração” das artes. Para além dos curadores, os resultados da pesquisa podem ser interessantes para ativistas da cultura livre e do direito à cidade, coletivos de arte e desenvolvedores de plataformas tecnológicas (voltadas a crowdfunding e mobilização online, por exemplo). Imagino que também possa despertar a curiosidade de gestores (públicos e privados) de instituições de fomento à arte e à cultura.

Lucas Pretti é artista, ativista e pesquisador, interessado nas intersecções da contracultura de rede com as artes, a tecnologia e transformações sociais e urbanas. Em 2017, com o trabalho “Poéticas do Comum” e a ação “Terrenos Apaixonantemente Objetivos”, obteve o título de mestre em artes pelo Instituto de Artes da Unesp, mesma universidade onde se graduou em comunicação social. É cofundador da Change.org Latinoamérica.

 

 

Referências:

  • ARANTES, Priscila. @rte e mídia: perspectivas da estética digital. São Paulo: Ed Senac, 2005.  
  • BEIGUELMAN, Giselle. O livro depois do livro. São Paulo: Peirópolis, 2003.

  • BOURRIAUD, Nicolas. Estética relacional. Tradução Denise Bottmann. São Paulo: Martins, 2009.

  • CARRAPATOSO, Thiago. A Arte do Cibridismo: as tecnologias e o fazer artístico no mundo contemporâneo. São Paulo: Funarte, 2010.

  • DEBORD, Guy. Teoria da Deriva. In: Internacional Situacionista, n. 2. Dez. 1958. Tradução de Gunh Anopetil

  • HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Multitude: war and democracy in the age of Empire. Cambridge: Polity Press, 2004.

  • HYDE, Lewis. Common as Air: revolution, art and ownership. Nova York: FSG, 2010.

  • LESSIG, L. Free culture: how big media uses technology and the law to lock down culture and control creativity,2004.

  • MESQUISTA, André. Insurgências Poéticas : arte ativista e ação coletiva (1990-2000).

  • Dissertação (Mestrado em História Social – FFLCH – USP), 2008.

  • MOVIMENTO BAIXOCENTRO. BaixoCentro: o grito dos outros. In: ROLNIK, Raquel; FERNANDES, Ana (orgs.). Cidades. Rio de Janeiro: Funarte, 2016.

  • NEGRI, Antonio. Art & multitude. Londres: Polity Press, 2011.

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