Como o modelo evolutivo de Darwin nos ajuda a entender a moralidade

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Esta pesquisa se debruça sobre investigações científicas a partir da teoria elaborada pelo naturalista inglês Charles Darwin. Seu objetivo é entender como a moral e as interações sociais entre os humanos se relacionam com o evolucionismo.

Segundo o autor, existe uma expectativa entre biólogos de que estudos sobre a evolução do comportamento animal possam ajudar a esclarecer aspectos das relações humanas. Nessa direção, questões sobre a moralidade e suas origens têm recebido grande atenção da ciência.

A qual pergunta a pesquisa responde?

A pesquisa desenvolve um diálogo entre filosofia e ciência a partir de uma análise das investigações evolucionistas sobre a moralidade.

O principal objetivo é avaliar se as diversas investigações científicas baseadas no modelo evolutivo estruturado pelo britânico Charles Darwin produzem exposições esclarecedoras acerca de elementos como a capacidade humana de produzir juízos morais, o conteúdo de nossas crenças morais e  o modo como pensamos sobre a moral. O trabalho se dá a partir da apresentação e da crítica das diferentes propostas que têm como objetivo compreender a moralidade e seus elementos partindo da perspectiva evolucionista.

Por que isso é relevante?

Diversas investigações afirmam que a teoria da evolução fornece uma base para analisar de forma mais profunda a ação humana do que qualquer outro modo de compreensão disponível nas ciências. Sua posição parte da premissa de que, uma vez que os seres humanos, assim como todos os outros animais, evoluíram por meio do processo descrito por Darwin, as suas características físicas e comportamentais são compreensíveis em termos evolutivos.

Os biólogos que estudam a evolução do comportamento animal produziram  um grande corpo de literatura, e sua expectativa é  de que esses estudos possam ser valiosos na compreensão da interação social humana. Nesse contexto, o fato de que nós seres humanos fazemos juízos morais, possuímos sentimentos morais e buscamos suas explicações e fundamentos tem recebido crescente atenção da ciência.

Assim, a pesquisa analisa as investigações científicas que buscam compreender as origens evolutivas da moralidade, mostrando pertinência para a compreensão de nossa condição.

Resumo da pesquisa

O trabalho desenvolve um diálogo entre filosofia e ciência a partir de uma análise crítica das investigações evolucionistas sobre a moralidade. O principal objetivo é avaliar se as diversas investigações científicas baseadas no modelo evolutivo estruturado pelo britânico Charles Darwin produzem exposições esclarecedoras acerca de elementos como a capacidade humana de produzir juízos morais, o conteúdo de nossas crenças morais e  o modo como pensamos sobre a moral, entre outros.

Quais foram as conclusões?

Investigações empíricas sobre a natureza da moralidade não são explicações definitivas do fenômeno moral, principalmente em relação à prescrição de propostas sobre como devemos viver.

No entanto, elas nos ajudam a compreender como e por que somos formas de vida que buscam regular sua sociabilidade, por meios racionais e emocionais, nas mais variadas circunstâncias.

 A complexidade da vida social humana fez com que certos componentes fossem criados a partir da moral,. Entre eles, o interesse em buscar condições que promovam a cooperação segura; a sensibilidade frente a castigos e ameaças; a preocupação com a própria reputação; disposições marcadas frente ao autocontrole e regulação e à capacidade de adotar compromissos satisfatórios com os demais.

 Não compreender tais traços ou deixar de reconhecê-los na estruturação de propostas normativas e/ou políticas faz com que essas construções sejam pouco realistas em relação ao modo como nossa moralidade é estruturada e também em relação àquilo que somos: criaturas que têm origem no processo natural de desenvolvimento da vida.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Sociólogos, pela compreensão mais ampla de fenômenos que envolvem a moralização, filósofos, pela compreensão mais geral da ação humana, e cientistas políticos, que podem se interessar pela estruturação de políticas mais viáveis e estáveis. A pesquisa também pode atrair economistas que queiram se informar sobre modelos econômicos mais realistas, religiosos, por conta da compreensão dos limites da ação e reação humanas e jornalistas com interesse em contextualização de práticas sociais.

José Costa Júnior é professor de filosofia e sociologia do IFMG Campus Avançado Ponte Nova. Doutor em filosofia pela UFMG. Mestre, bacharel e licenciado em filosofia pela UFOP. Realiza pesquisas nas áreas de filosofia da ciência e filosofia da biologia, com ênfase na investigação sobre os limites e possibilidades do naturalismo evolucionista.

Referências:

  • BARKOW, Jerome; COSMIDES, Leda; TOOBY, John. The Adapted Mind: Evolutionary Psychology and the Generation of Culture. Oxford: Oxford University Press, 1992. 
  • BIRCHAL, Telma. “Joshua Greene e Marc Hauser nas fronteiras da filosofia: a moral das morais evolucionistas.” In: Ethic@, Vol. 8, pp. 89-100, 2009.

  • DARWIN, Charles. A Origem das Espécies. Tradução de Ana Afonso. Lisboa: Planeta Vivo, 2009. (1859)

  • DARWIN, Charles. A Origem do Homem e a Seleção Sexual. Tradução de Attílio Cancian e Eduardo Nunes Fonseca. São Paulo: Hemus Editora, 1974. (1871)

  • DENNETT, Daniel. A Perigosa Idéia de Darwin. Tradução de Talita Rodrigues. São Paulo: Editora Rocco, 1998. (1995)

  •  GOULD, Stephen Jay. Darwin e os Grandes Enigmas da Vida. Tradução de Maria Elizabeth. São Paulo: Martins Fontes, 1992. (1977)

  • KAHNEMAN, Daniel. Rápido e Devagar: Duas formas de pensar. Tradução de Cássio de Arantes Leite. São Paulo: Editora Objetiva, 2012. (2011)  

  • SINGER, Peter. The Expanding Circle: Ethics, Evolution and Moral Progress. Princeton: Princeton University Press, 2011. (1981)

  • WILSON, Edward O. Da natureza humana. Tradução de Geraldo Florsheim e Eduardo D´Ambrosio. São Paulo: Edusp, 1981. (1978)

 

 

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