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O que memes e textões dizem sobre a organização política de grupos LGBT

Pesquisa estudou comunidade LGBT no Facebook, buscando compreender como operam modalidades de engajamento e ação política possibilitadas em espaços de sociabilidade on-line

 

 

 

Esta pesquisa partiu do acompanhamento e estudo de uma comunidade LGBT de universitários da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) no Facebook para buscar compreender como operam modalidades de engajamento e ação política em espaços de sociabilidade on-line.

Entre as conclusões, o autor destaca que a experimentação política que ocorreu no grupo analisado, o uso da desconstrução, dos memes, da "lacração" e dos recursos pedagógicos e bem-humorados é algo que vem acontecendo em uma escala consideravelmente ampliada na interação entre jovens nas redes sociais no Brasil.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Entre memes, textões e problematizações, busca compreender a articulação entre a popularização da internet e das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDICs), e a participação/engajamento político no contexto brasileiro contemporâneo. Para tanto, a pesquisa lançou olhar para os modos como um grupo LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) universitário no Facebook produz sentidos, convenções e práticas sobre o “fazer político” e a diversidade sexual e de gênero. Para além disso, a investigação também buscou entender as modalidades de engajamento e ação política possibilitadas em espaços de sociabilidade on-line.

Por que isso é relevante?

Diante do atual panorama político contemporâneo brasileiro, é importante compreender como a internet (e principalmente as mídias sociais) passa a ter importante centralidade na articulação de protestos e mobilizações, em conjunto com a pluralização de “atores individuais e coletivos e de lugares sociais, culturais e políticos”. Além disso, permite compreender aspectos de uma nova geração de ativistas que se utilizam fortemente das mídias sociais, com modos de fazer política que mistura bom humor, memes, tretas e pedagogia através das problematizações, em que as fronteiras do on/off-line passam a ser borradas.

Resumo da pesquisa

A popularização da internet e o modo como ela incide sobre a participação e o engajamento político constituem preocupação recente nas ciências sociais brasileiras, potencializada especialmente pelas chamadas “jornadas de junho” de 2013. Esta pesquisa procura contribuir para a reflexão acerca dessa articulação no contexto brasileiro contemporâneo, focalizando processos de politização e de engajamento político a partir de uma comunidade composta por LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) universitários na rede social Facebook, o GDU. Criada em 2011 com a finalidade de “aproximar o público gay da Unicamp”, a comunidade, classificada como secreta na rede social, reunia 3.479 participantes ao final de 2016, em sua maioria estudantes de universidades situadas no distrito de Barão Geraldo, em Campinas, e passou por processos de ampliação das identidades sexuais e de gênero presentes e de mobilizações políticas mais ou menos pontuais na universidade e em seu entorno, aliados a cisões internas e diversos níveis de engajamento político no grupo e em coletivos universitários, cuja atuação é mais expressamente política e voltada à intervenção no off-line.

Quais foram as conclusões?

Por meio do uso das novas tecnologias, os interlocutores da pesquisa, estando ou não envolvidos no cotidiano da militância LGBT, engajaram-se em ações políticas on/off-line. Assim, é necessário analisar o movimento LGBT não como algo uno, mas sim como uma malha costurada por cruzamentos entre pessoas, práticas, ideias e discursos. Se a lógica “bolha” de Facebook é essencial para conectar os interlocutores, ao juntar LGBT universitários, essa característica não se mostrou suficiente para a manutenção dessa conexão. Ao longo da vida do grupo diversas visões de mundo entraram em confronto, trazendo os limites da aparente homogeneidade que a bolha oferecia. Se a política institucional demora para responder aos anseios, encontram-se novas formas de como investir em mudar as mentalidades/combater preconceitos. Se há um cansaço de textões e problematizações, ocorre a tradução destes em pedaços de informações mais simples: os memes. A experimentação política que ocorre no grupo, o uso da desconstrução, dos memes, da lacração, dos recursos pedagógicos e bem-humorados, é algo que vem acontecendo em uma escala consideravelmente ampliada, na interação entre jovens nas redes sociais no Brasil.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Os resultados da pesquisa podem interessar tanto ao público em geral, quanto aos pesquisadores que trabalham com movimentos sociais contemporâneos, sejam eles exclusivamente on-line, ou que transitam por estas fronteiras (on/off-line), especificamente aos pesquisadores que se debruçam sobre processos de engajamento político proporcionados pelas tecnologias digitais de informação e comunicação. Além disso, pode interessar pessoas que buscam compreender termos amplamente usados nas mídias sociais como: lugar de fala, biscoito, opressão, privilégio, memes políticos, pedagogia e experimentação política, e desconstrução.

Thiago Henrique de Oliveira Falcão é mestre em antropologia social (2017) e bacharel em ciências sociais (2013) pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH/Unicamp). É doutorando no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais do IFCH/Unicamp. Pesquisador focado nas temáticas de gênero, sexualidade, movimentos sociais, internet e antropologia urbana,  é ativista LGBT pelo Coletivo Babado/Unicamp.

 

 

Referências:

  • ALVAREZ, S. E. Para além da sociedade civil: reflexões sobre o campo feminista. Cadernos Pagu, Campinas, n.43, 2014. Disponível em: . Acesso em: 09/jan/2016.
  • CARVALHO, M. F. L.; CARRARA, S. Ciberativismo Trans: Considerações sobre uma nova geração militante. Contemporânea, comunicação e cultura, v.13, n.02, 2015.

  • CARVALHO, M. F. L.; CARRARA, S. Ciberativismo Trans: Considerações sobre uma nova geração militante. Contemporânea, comunicação e cultura, v.13, n.02, 2015.

  • FACCHINI, R.; FRANÇA, I. L. Apresentação Dossiê Feminismos Jovens. Cadernos Pagu, Campinas, n.36, p. 9-24, 2011.

  • FERREIRA, Carolina Branco de Castro. Feminismos web: linhas de ação e maneiras de atuação no debate feminista contemporâneo. Cadernos Pagu, Campinas, n.44, 2015. Disponível em: . Acesso em: 08/nov/2015.

  • PARREIRAS, C. Altporn, corpos, categorias, espaços e redes: um estudo etnográfico sobre pornografia on-line. 2015. 267 fls. Tese (Doutorado em Ciências Sociais). Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2015.

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