Tese: Corpos impossíveis: A (des)ordem do corpo e a ambivalência da língua no discurso transexual

Autor

Mônica Ferreira Cassana, Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Lattes

Orientador

Solange Mittmann

Área e sub-área

Letras, Linguística/Análise de Discurso

Publicado em

Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Letras 24 de maio de 2016

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Nesta pesquisa que trabalha no campo dos estudos da linguagem, são analisados os discursos de pessoas transexuais na televisão aberta brasileira.

A partir dessa análise, a autora busca compreender como os sujeitos trans “dão pistas” de seu entendimento sobre o próprio corpo, para além da binariedade homem-mulher consagrada pelo discurso méẽdico-científico.

Nas fissuras do discurso, a pesquisa entrevê a constituição do sujeito transexual, que mostra para a sociedade quem é e chama a atenção para o necessário debate sobre a identidade e gênero.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Quem é o sujeito transexual em nossa sociedade? A partir desse questionamento, investigo o funcionamento da linguagem na constituição do sujeito. Os pressupostos teóricos que orientam o estudo têm embasamento na Análise de Discurso, fundamentada por Pêcheux na década de 1960. A característica principal dessa teoria é pensar a língua não como um instrumento de comunicação, mas constitutiva do sujeito, uma vez que o discurso é afetado tanto pela história (saberes de ordem do materialismo-histórico) como pelo inconsciente (saberes de ordem psicanalítica). Ao observar os sujeitos transexuais falando sobre si em entrevistas divulgadas na televisão, analisei o discurso desses sujeitos pensando no conceito de interdiscurso (um lugar imaginário onde os sentidos esperam ser “colados” às palavras). Dessa forma, o dizer dos sujeitos está orientando saberes vários, que organizei como discurso médico-científico e jurídico. Assim, muito do que os sujeitos trans dizem sobre si está marcado por um dizer que não está explícito, mas que aparece por meio de pistas linguísticas.

Por que isso é relevante?

O Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo. Ainda antes de serem representados em novelas e ganhar espaço no mundo das artes, o primeiro lugar em que os sujeitos trans começaram a poder falar sobre si foram as entrevistas transmitidas pela televisão, em programas exibidos no turno da noite. Por meio das entrevistas, os telespectadores começaram a conhecer o que significam as questões relacionadas à identidade de gênero. De alguma forma, as entrevistas começaram a elucidar a questão da identidade de gênero à sociedade. Todas essas questões que atingem o sujeito vão ser perceptíveis na produção de seu discurso. Mas até que ponto o que falamos consegue dizer exatamente o que pensamos? De acordo com a  teoria da Análise de Discurso, a língua não consegue dizer tudo o que um sujeito pretende - e é isso que afasta essa teoria de concepções de língua mais instrumentais.

Resumo da pesquisa

Neste trabalho, lançamos um olhar para o discurso de sujeitos transexuais, analisando teoricamente a relação entre língua e corpo para a constituição desse discurso (im)possível. A constituição de um corpo que não corresponde aos sentidos estabilizados expressos pelos significantes instituídos “homem” e “mulher” leva-nos ao questionamento sobre a constituição de um sujeito que situa seu corpo em um entre-lugar entre as posições binárias de gênero reconhecidas e legitimadas em nossa formação social. Baseados nos pressupostos da teoria da Análise de Discurso de linha francesa, fundamentada por Michel Pêcheux, analisamos um corpus constituído por discursos de sujeitos transexuais produzidos a partir de entrevistas jornalísticas veiculadas na televisão aberta brasileira. A partir dessa análise, questionamos como a não binaridade do corpo transexual – que escapa ao determinado no discurso dominante sobre a sexualidade, produzido pelo medicina – também possui uma relação constitutiva com o discurso desses sujeitos, por meio do qual falam de si mesmos a partir do olhar do outro.

Quais foram as conclusões?

Por meio do conceito de interdiscurso (um lugar imaginário onde os sentidos esperam ser “colados” às palavras), entendi que as entrevistas têm o caráter de discurso pedagógico, uma vez que servem para informar determinada parcela da sociedade sobre um assunto. Por sua vez, a entrevista, sendo um recorte editado, permite criar uma impressão de como esse assunto será recepcionado, interpretado pelos telespectadores. Contudo, as análises mostram que muito do que os sujeitos trans diziam sobre si estava marcado por um dizer que não estava explícito, mas aparecia através de pistas. Dessa forma, ao referir-se à transexualidade como “colocar os sapatos invertidos”, o sujeito tentava aproximar os telespectadores da sua condição, mostrava sua posição. Assim, discurso do sujeito trans, em nossa sociedade, funciona como um discurso de resistência aos saberes que pretendem determiná-lo. Por meio das análises dessas marcas da língua, pude perceber que algo escapa à língua que não consegue dizer tudo. E, através das brechas que a própria língua deixa, o sujeito se constitui, e mostra para a sociedade quem é e chama a atenção para o necessário debate sobre a identidade de gênero na atualidade.

Quem deveria conhecer seus resultados?

A pesquisa foi produzida no âmbito dos estudos da linguagem. Contudo, pessoas interessadas em refletir sobre como linguagem e corpo se constituem poderão encontrar algumas provocações na leitura do trabalho. Assim, a leitura é sugerida a alunos de graduação e pós-graduação nas áreas de Letras, Linguística e Estudos da Linguagem, professores, pesquisadores em áreas ligadas às ciências humanas e sociais e militantes.

Mônica Ferreira Cassana  é doutora em letras, área de estudos da linguagem, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2016). Possui mestrado em letras pela Universidade Católica de Pelotas (2011) e graduação em letras pela Universidade Federal de Pelotas (2008). É professora na  Universidade Federal do Pampa, campus Bagé/RS, atuando nas áreas de texto, discurso, corpo, linguagem e ensino.

Mônica Ferreira Cassana é doutora em letras, área de estudos da linguagem, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2016). Possui mestrado em letras pela Universidade Católica de Pelotas (2011) e graduação em letras pela Universidade Federal de Pelotas (2008). É professora na  Universidade Federal do Pampa, campus Bagé/RS, atuando nas áreas de texto, discurso, corpo, linguagem e ensino.

Referências

PÊCHEUX, Michel. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio (1975). Tradução de Eni P. Orlandi. 4ª edição. São Paulo: Unicamp, 2009. Portal Transrespect versus Transphobia (TvT). Disponível em http://transrespect.org. Acesso em 21 set. 2017.

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