Tese: A Construção Estratégica do Bairro Madureira na Cidade Olímpica - novas espacialidades, temporalidades e conflitos no Rio de Janeiro dos megaeventos

Autor

João Felipe Pereira Brito, UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro

Orientadora

Maria Celi Scalon

Área e sub-área

Sociologia e Antropologia, Sociologia Urbana

Defendida em

UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro, PPGSA - Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia - 01/12/2016

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Esta pesquisa analisou os impactos e investimentos recebidos pelo bairro de Madureira, na cidade do Rio de Janeiro. Foi observado pelo autor que as grandes transformações se deram desde 2009, quando foi anunciado que a cidade carioca seria sede dos Jogos Olímpicos do ano de 2016.

Entre as conclusões, o autor destaca a construção de uma nova centralidade na cidade em torno do bairro Madureira, com iniciativas de infraestrutura e mobilidade, como o Parque Madureira e o BRT Transcarioca. O pesquisador também nota que a concentração de investimentos no bairro responde a uma lógica política eleitoral, como forma de, ao intervir em Madureira, simbolicamente intervir em todo o subúrbio do Rio, e fincar a bandeira do poder estatal ali. 

A qual pergunta a pesquisa responde?

A cidade do Rio de Janeiro passou por grandes transformações materiais e econômicas, ideais e simbólicas, desde que foi anunciada em 2009 como sede dos Jogos Olímpicos do ano de 2016. Se tomarmos como prerrogativa para qualquer discussão sobre esse período histórico que a cidade inteira, incluindo sua região metropolitana, sentiu os efeitos dessas transformações, também é coerente afirmar que alguns de seus bairros experimentaram com maior intensidade tais efeitos. Dentro desses bairros, algumas pessoas e instituições se beneficiaram mais e outras menos desse processo. Há ainda aquelas que foram excluídas de qualquer valorização experimentada nessas localidades. Os sentidos e as consequências da mudança social observada no bairro Madureira, na zona norte carioca são decorrentes, em grande medida, das mudanças na cidade do Rio de Janeiro. Assim, a pesquisa buscou responder à seguinte questão: por que Madureira recebeu tantos investimentos materiais e simbólicos neste “ciclo olímpico”?

Por que isso é relevante?

Para a compreensão das ideias e do funcionamento de uma governança urbana de “gestão empreendedorista”, na qual os aspectos materiais e imateriais da cidade são pensados prioritariamente como mercadorias. Nesse tipo de “gestão”, os projetos urbanísticos também devem contemplar as necessidades político-eleitorais dos interventores e de seus parceiros locais, além de vencerem as disputas políticas sobre os rumos da cidade na esfera estatal, nas ruas e na imprensa. Para tanto, precisam ainda incluir aspectos simbólicos de grande importância para o imaginário dos citadinos: referenciais identitários, memórias, tradições, patrimônios, etc. O bairro Madureira foi inserido nessa problemática de maneira privilegiada, tanto pelas intervenções que recebeu nos últimos anos (BRT Transcarioca e Parque Madureira), quanto pelos usos que se fez e se faz das "representações simbólicas" que conferem reconhecimento e prestígio ao bairro. Esta pesquisa averiguou mais de perto esses fenômenos num bairro de grande visibilidade e visitabilidade na mais famosa cidade brasileira, em seu período mais próspero em décadas e de maior reconhecimento internacional em toda sua história.

Foto: João Felipe Pereira Brito

 

Resumo da pesquisa

A partir de 2009, quando foi anunciada como sede dos Jogos Olímpicos de 2016, a cidade do Rio de Janeiro passou a receber grandes intervenções urbanísticas que não apenas a preparavam para este e outros grandes eventos internacionais, mas também indicavam a ascensão ou ápice de uma governança urbana “empreendedorista”, em que Estado e agentes privados promovem, em parceria, investimentos estratégicos e localizados. O bairro Madureira, centralidade comercial, cultural e de transportes na zona norte da cidade, foi um dos lugares privilegiados por estas intervenções, com destaque para o Parque Madureira e o BRT Transcarioca. Paralelamente aos investimentos materiais, Madureira também recebeu uma série de investimentos simbólicos que destacavam algumas de suas representações, tempos e espaços prestigiosos: festas, memórias, tradições, com especial destaque para aquelas ligadas às instituições de cultura afro-brasileira. Contudo, outros elementos da vida cotidiana do bairro foram subvalorizados ou mesmo esquecidos. Tempos e espaços sofreram importantes mudanças. Conflitos e disputas se aprofundaram.

Quais foram as conclusões?

Por que tantos investimentos materiais e simbólicos em Madureira durante o “ciclo olímpico”? Por uma combinação de fenômenos apenas aparentemente isolados. (1) Sócio-espacial: ligado à formação da centralidade do bairro e à sua localização na cidade, que transfere moradias, empregos e equipamentos para a Barra da Tijuca, da qual Madureira torna-se centralidade de apoio. (2) A existência no lugar de elementos culturais (musicalidades, festas, religiosidades, etc) mercantilizáveis no turismo e na “economia criativa”, em expansão com os megaeventos. Estes viabilizariam ainda negócios imobiliários, de transportes e construção civil, predominantes nesta época global de “ajuste espacial urbano” – reprodução do capital a partir da urbanização. (3) As gramáticas político-eleitorais do Rio, imersas numa governança “estratégica e vocacionada” que pensa a cidade de forma fracionada, sem universalização de muitos projetos. Madureira deveria representar todo o “subúrbio carioca”, um Rio “popular” e “autêntico”, garantindo junto a segmentos periféricos a legitimidade indispensável para intervenções e apoio político-eleitoral para manutenção do poder estatal.

Quem deveria conhecer seus resultados

Estudantes e pesquisadores das ciências sociais (sociólogos, antropólogos, historiadores) e dos estudos urbanos (geógrafos, arquitetos, urbanistas, museólogos). Gestores de políticas públicas, produtores culturais, jornalistas, artistas e lideranças locais.

João Felipe Pereira Brito é carioca e nasceu e cresceu em Bangu, periferia oeste do Rio de Janeiro. É pesquisador e colaborador da organização Observatório de Favelas (Maré, Rio de Janeiro). Bacharel em ciências sociais pela UFRJ, fez mestrado e doutorado em sociologia e antropologia pelo PPGSA-UFRJ e extensão em planejamento e gestão de políticas socioambientais pela PUC-Rio.

Referências

  • BOURDIEU, Pierre. A Distinção: crítica social do julgamento. São Paulo: EdUSP; Porto Alegre: Zouk, 2008.
  • O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009.
  • CHARTIER, Roger. A História ou a Leitura do Tempo. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009.
  • COSTA, António Firmino da. Sociedade de Bairro: Dinâmicas Sociais da Identidade Cultural. Oeiras, Portugal: Celta Editora, 1999.
  • HARVEY, David. Cidades Rebeldes: do direito à cidade à revolução urbana. São Paulo: Martins Fontes, 2014.
  • SCHAFER, Murray. “Introduction”. In: SCHAFER, Murray. The tuning of the world. Toronto: The Canadian Publishers, 1977.
  • SPIVAK, Gayatri. “Subaltern Studies: Deconstructing Historiography (1985)”.
  • In: LANDRY, D.; MCLEAN, G. (Orgs.). The Spivak Reader. Nova Iorque, EUA: Routledge, 1996.

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