Dissertação: A participação feminina na força de trabalho em economias em desenvolvimento: uma comparação entre o Brasil e a Índia

Autora

Veronica Deviá, Instituto de Relações Internacionais (USP)

Orientadora

Adriana Schor

Área e sub-área

Economia, política, internacional, estudos de gênero, relações internacionais

Defendida em

Instituto de Relações Internacionais (USP) - 8/2/2017

Link para o original

 

Esta pesquisa analisou se a expansão econômica foi capaz de impulsionar a participação das mulheres no mercado de trabalho em dois países: no Brasil e na Índia. O ponto de partida foi a constatação consagrada pela literatura especializada de que quanto maior o crescimento econômico de um país, maior a representação feminina na economia.

Entre as conclusões, a autora destaca que, no Brasil, é possível ver que, com o aumento da renda, aumenta a participação feminina no mercado de trabalho. Porém, no caso da Índia, a participação diminuiu com o aumento da renda – o que aponta para a existência de outros fatores determinantes, para além da economia.

A qual pergunta a pesquisa responde?

A literatura que trata de gênero e desenvolvimento encontra uma relação em U entre crescimento econômico e participação feminina no mercado de trabalho. Se colocarmos no eixo x o PIB e no y a participação, vemos que quando o PIB é baixo há maior taxa de participação. Nesse "estágio", encontram-se economias com atividade agrícola, sem indústria e serviços, nas quais as mulheres participam muito no mercado de trabalho por "necessidade", por participarem da economia familiar. Nesse nível de PIB, a educação da população feminina também é menor, com menor remuneração pelo seu trabalho. Contudo, a "necessidade" faz com que as mulheres "vendam" sua força de trabalho fora do lar. Isso pode ser visto no clá​ssico da literatura sobre o assunto, publicado por Goldin (1991) no gráfico abaixo:

 

Conforme o PIB aumenta (deslocando-se para direita), cai a participação feminina no mercado. Pois à medida que a economia cresce e passa a se industrializar, principalmente com serviços de base e infraestrutura, essas ocupações, por serem consideradas mais "masculinas", não absorvem a mão de obra das mulheres, e a participação geral cai. Aqui, a curva está na sua parte baixa. Nesse nível de PIB, a força de trabalho feminina é reabsorvida pelo lar.

Com o crescimento do PIB (quando a curva volta a subir), as atividades se transformam e passamos a ter mais serviços. Assim, a mão de obra feminina é reabsorvida em ocupações de escritório e secretariado. Com o nível de PIB mais alto, a educação feminina também é mais alta, de forma que sua remuneração fora do lar é maior e o custo por ficar "no lar" é alto demais. Desta forma, o PIB é utilizado para explicar a participação feminina no mercado de trabalho. Segundo o nível do PIB (o que acaba sendo um reflexo também do tipo de atividade desenvolvida, da educação, entre outras coisas), encontramos níveis diferentes de participação.

Tendo em mente o crescimento econômico  experimentado por países em desenvolvimento, a pesquisa buscou responder se a expansão econômica foi capaz de impulsionar a participação das mulheres no mercado de trabalho em dois países, no Brasil e na Índia, seguindo o modelo consagrado pela literatura.

Por que isso é relevante?

A pesquisa é relevante porque a participação da força de trabalho feminina não pode ser pensada apenas em função do crescimento econômico de um país. Na Índia e no Brasil ela deverá ser considerada levando em conta não apenas a economia – a taxa de participação no mercado de trabalho, a renda do domicílio etc. –, mas sua história recente e os hábitos socioculturais, principalmente no que concerne o papel da mulher nessas sociedades. Nas medidas globais de participação, produtividade, renda e ocupação, as mulheres são mais economicamente excluídas do que os homens. Segundo a teoria econômica feminista, essas desvantagens são o resultado de desigualdades refletidas em todas as áreas da vida social. Segundo a bibliografia usada neste trabalho, há uma relação em U da função do PIB e da participação feminina na força de trabalho. Enquanto o Brasil vivenciou o aumento da sua mão-de-obra feminina nos últimos 50 anos, a Índia viu sua queda de 23% nos últimos 25 anos. Ou seja: dois países que teriam fatores semelhantes para estabelecer a trajetória da participação feminina no mercado de trabalho têm resultados distintos.

Resumo da pesquisa

Utilizamos as abordagens interseccional e categórica para analisar subgrupos (educação, raça, localidade e estado) e investigar se a renda dos domicílios pode ser uma medida suficiente para explicar a participação feminina no mercado de trabalho na Índia e no Brasil. Desta forma, revelando que características culturais, demográficas, e históricas parecem ser fatores que podem explicar o papel atribuído à mulher na sociedade e como estas variáveis podem influenciar sua participação na força de trabalho.

Quais foram as conclusões?

Analisando os dados das pesquisas nacionais por amostra de domicílio dos dos países (a Pnad brasileira e NSSO indiana) para o ano de 2011, o trabalho concluiu que a relação em U da teoria não se aplica à Índia. Enquanto no Brasil é possível ver que as mulheres de menor renda têm maior participação no mercado, as de renda média têm menor participação e as de alta renda voltam a ter alta participação; na Índia, a participação diminui com o aumento da renda. Os resultados foram controlados com outras variáveis como escolaridade, raça/grupo social, região (região do país) e localização (rural/urbana). No Brasil, com escolaridade mais alta e localização urbana observamos maior participação. Na Índia, escolaridade mais alta tem menor participação, grupo social e localização rural têm maior participação. Como o crescimento econômico indiano é superior ao brasileiro, as conclusões indicam que só este fator não garante a maior participação feminina no mercado de trabalho. Para que isso aconteça, acreditamos que o papel da mulher na sociedade tem que ser transformado para permitir que ela consiga sair do seu papel no lar.

 

Quem deveria conhecer seus resultados?

Esses resultados são importantes para a população como um todo, já que no Brasil as mulheres trabalhadoras são uma realidade. Instituições que formulam políticas públicas podem se beneficiar desses resultados porque eles reforçam a ideia de que mudanças estruturais no papel da mulher na sociedade devem fazer parte de um programa maior. Se apenas o crescimento econômico não é capaz de impulsionar a maior participação na Índia, isso é um reflexo de que as políticas públicas e sociais para maior inserção da mulher na sociedade e a igualdade entre os gêneros são necessárias. Sem elas, até um grande crescimento do PIB não melhora a participação feminina no trabalho. Além disso, qualquer empresa onde há mulheres é tocada por esse assunto, pois a pesquisa esmiúça a população segundo as variáveis de educação, raça e localização para entender quais são os fatores que facilitam ou atrapalham o acesso da mulher ao mercado de trabalho.

Veronica Deviá se formou em jornalismo pela PUC-SP em 2010 e ciências sociais pela USP em 2011. É mestre em relações internacionais pela USP com a dissertação "A participação feminina na força de trabalho em economias em desenvolvimento: uma comparação entre o Brasil e a Índia". É pesquisadora do Gepô - Grupo de Estudos de Gênero e Política - USP e trabalha como coordenadora de comunicação no Movimento90°.

Referências

  • GOLDIN; Claudia. U-Shaped Female Labour Force function in economic development and economic history. 1994, Investment in Women's Human Capital. Chicago: University of Chicago Press, p.61-90.
  • IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: Notas Metodológicas. Vol. 1. Rio de Janeiro: IBGE, 2014. Acesso em 2 de setembro de 2016.
  • Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua. Acessado em 19/10/2016
  • MINISTRY OF STATISTICS AND PROGRAMME IMPLEMENTATION, Informal Sector and Conditions of Employment in India, 2014, NSS Report No. 557: Ministry of Statistics and Programme Implementation, Government of India, July.
  • Employment and Unemployment Situation in India, 2014. NSS Report No. 554:, 2011-12.

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