Dissertação – "A construção do inimigo nos discursos presidenciais norte-americanos do pós-Guerra Fria"

Autor

Lucas Amaral Batista Leite

Lattes

Orientador

Marco Aurélio Nogueira

Área e sub-área

Relações Internacionais, Relações Exteriores dos Estados Unidos

Defendida em

Unesp (Universidade Estadual Paulista), Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas

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“É melhor que a Coreia do Norte não faça mais ameaças aos EUA ou encontrarão fogo e fúria como o mundo nunca viu antes”. Foi o que disse o presidente americano Donald Trump ao governo de Kim Jong-un no dia 9 de agosto. O país asiático é colocado na posição de inimigo da nação americana há décadas, mas a relação chega, agora, a um ponto crítico através do discurso do mandato republicano.

O trabalho da tese de mestrado do atual doutorando e professor Lucas Amaral Batista Leite propõe uma tentativa de entender “a evolução da narrativa do inimigo por meio da análise dos discursos presidenciais” americanos entre os anos 1989 e 2009. Como a ideia de ‘inimigo’ foi construída discursivamente pelos ex-presidentes do pós-Guerra Fria, por exemplo, é uma das perguntas objetos da pesquisa.

Para o autor, seu trabalho deve interessar estudantes de ciências sociais, relações internacionais, ciência política e linguística.

A qual pergunta a pesquisa responde?

O trabalho busca entender como a ideia de "inimigo" foi construída discursivamente pelos ex-presidentes norte-americanos do pós-Guerra Fria. Assim, buscou-se compreender como a relação de alteridade significou, em muitos momentos, uma busca por legitimidade e justificativa para ações mais assertivas em termos de política externa.

Por que isso é relevante?

A ideia de um discurso que busque delimitar o outro como inimigo carrega consigo algumas marcas que envolvem discussões e conceitos mais amplos. Dessa forma, é possível cogitar a existência, inclusive, de debates pré-estabelecidos entre formas de compreensão do que é civilizado e moderno em detrimento daquilo que é a barbárie. A relevância desse discurso não está apenas na delimitação de quem “eu sou” e quem “o outro é”, mas também na percepção de quais narrativas legitimam e embarcam essas construções. Por exemplo: a ideia de um constante progresso, da possibilidade de prever e conter riscos, de instituições e modelos mais propensos ao sucesso e à paz etc. Por isso, grandes temas e eventos servirão como pano de fundo para nossa pesquisa a fim de jogar luz nas contradições e “rachaduras” que possivelmente aparecerão nesses discursos; a contraposição entre ocidente e o resto, democracia e totalitarismo, paz e guerra, são algumas hipóteses já possíveis de serem levantadas previamente como repetições incansáveis na tentativa de resgatar construções passadas para legitimar ações no presente.

Resumo da pesquisa

Este trabalho busca compreender a evolução da narrativa do inimigo por meio da análise dos discursos presidenciais norte-americanos como o State of the Union – e outros selecionados tematicamente – entre os anos de 1989 e 2009, correspondentes aos governos de George H. W. Bush, Bill Clinton e George W. Bush. Para tanto, usamos as proposições teóricas de autores pós-estruturalistas como David Campbell e Robert Walker, além de utilizar a estrutura de pesquisa proposta por Lene Hansen. Junto à análise discursiva, abordamos as principais questões de segurança no período proposto como forma de alusão às representações do inimigo e de forma a enriquecer o trabalho. Nossa hipótese é a de que a mudança, por vezes proposta expressamente por alguns presidentes e autores de estudos sobre os Estados Unidos, é na verdade uma adaptação de discursos recorrentes na condução da política norte-americana. Dessa forma, buscamos analisar quais os elementos centrais e dissonantes para o período em questão.

Quais foram as conclusões?

Os presidentes norte-americanos usam de “caminhos” pré-estabelecidos a fim de criar um discurso que seja entendível, aceitável e, ao mesmo tempo, permita a identificação com significados próprios da cultura e da linguagem política dos Estados Unidos. Portanto o papel dos discursos é o de estabelecer limites e fronteiras no que se busca transmitir como a identidade norte-americana – quando o presidente assume para si essa função, ele transmite não apenas ideias já determinadas, mas também seus preconceitos e visões acerca de como o mundo deve ser enxergado e, em última instância, moldado. Por isso, a ideia de estabelecer como marco o fim da Guerra Fria possibilitou enxergar um mundo que buscava novamente se estabilizar, onde os significados deveriam novamente se estabelecer em pontos que permitissem para o público em geral – e para os próprios tomadores de decisão – a apreensão de uma “nova realidade”.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Alunos de graduação e pós-graduação dos cursos de ciências humanas e sociais, em especial Relações Internacionais, Ciência Política e Linguística. Além disso, ONGs em geral, diplomatas, representantes de entidades governamentais etc.

Lucas Amaral Batista Leite é professor da Fundação Armando Álvares Penteado e das Faculdades Integradas Rio Branco, e doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUCSP). Foi Pesquisador Visitante na Georgetown University, onde fez doutorado-sanduíche (BEPE-FAPESP) com pesquisa sobre História e Política Externa dos Estados Unidos no século XIX e XX. Integrante do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais (NEAI) do IPPRI-UNESP.

Referências

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  • WALKER, Rob B. J. Inside/outside: international relations as political theory. Cambridge: Cambridge University Press, 1993.

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