Tese - Baixios de viadutos como desafio urbanístico: uma leitura das “terras de ninguém” nos viadutos Alcântara Machado e do Glicério

Autor

Victor Martins de Aguiar

Lattes

Orientador

Renato Cymbalista

Área e sub-área

Arquitetura e Urbanismo, História e Fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo

Defendida em

Universidade de São Paulo, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - 18/04/2017

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Este estudo busca compreender como diferentes atores sociais se organizam para intervir no espaço público e, assim, entender quais as consequências desses diferentes modos de organização na produção e no uso da cidade. O autor centra sua análise nas áreas inferiores de viadutos, os chamados baixios; em particular, aborda os usos e as ocupações nos baixios dos viadutos Alcântara Machado e do Glicério, na zona de transição entre o centro a zona leste da cidade de São Paulo.

O trabalho chega à conclusão de que a gestão desse tipo de espaço é problemática, recebendo pouca atenção do poder público. Assim, para o autor, a questão da qualificação dos espaços públicos tidos como residuais em São Paulo permanece um desafio e está em aberto.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Os baixios de viadutos historicamente foram tratados como espaços do abandono, residuais e marginais. Mas um olhar mais atento também revela que os baixios abrigam áreas de lazer, sedes de escolas de samba, academias de boxe, cooperativas de reciclagem e, muitas vezes, se conformam em espaços públicos. São espaços públicos normalmente geridos por atores sociais e que representam desafios de gestão para tais atores e para o poder público. O trabalho, portanto, buscou compreender no baixio do viaduto Alcântara Machado e do viaduto do Glicério, em São Paulo, como atores sociais conseguiram se organizar para intervir e as consequências desses diferentes modos de organização na produção e no uso de um espaço público.

Por que isso é relevante?

Entender as potencialidades e limites dos atores sociais e de seus papéis no urbanismo, esclarecendo quem são esses atores, o que os motiva e os benefícios de suas propostas, não é um aspecto relevante apenas para estudantes, professores e moradores que desejam realizar intervenções na pequena escala da cidade, conforme temos visto ocorrer nos últimos anos em diferentes espaços públicos. A compreensão desta postura mais ativa no espaço urbano pode se revelar uma ferramenta útil para administradores e funcionários do poder público e de outras instituições com atuação na cidade de maneira que seja possível incorporar nas políticas públicas novas formas de participação da sociedade civil e, assim, haja uma aproximação da cidade que se quer viver daquela que é vivida diariamente.

Resumo da pesquisa

O trabalho ocupa-se das áreas inferiores de viadutos, os chamados baixios. Ao analisar os usos e as ocupações nos baixios dos viadutos Alcântara Machado e do Glicério, em São Paulo, a dissertação procura mostrar a complexidade de territórios que, justamente por serem intersticiais, constituíram-se como oportunidades para atuações espontâneas promovidas por atores sociais. Ao inserir e manter iniciativas nos baixios, esses atores conseguiram estabelecer ali espaços públicos. A literatura acadêmica tem demonstrado que a apropriação do espaço público pode gerar um senso de coletividade a partir de sua gestão, caso ela seja compartilhada. A dissertação contrastou as iniciativas de uso dos baixios com a conceituação de “commons” presente no debate contemporâneo sobre o assunto, em que a ação voluntária e a autorresponsabilização permitem a mobilização de recursos para a ocupação. Esses processos de ocupação de espaços públicos ainda são vistos como fenômenos precários e/ou transitórios, embora tenham potencial para gerar possibilidades efetivas de uso e para tornar seus promotores agentes aptos a exercer papel mais ativo na ordenação do espaço urbano.

Quais foram as conclusões?

As questões analisadas do estudo de projetos no baixio do viaduto Alcântara Machado e do viaduto do Glicério revelam que, apesar de existir espaços públicos configurados ali, há problemas na sua gestão quando os equiparamos com a discussão sobre os comuns urbanos. Os usuários participam pouco da manutenção diária dos projetos. São os atores sociais que centralizam toda a gestão, e não existe com os usuários um diálogo visando fortalecer o ideal de “bem comum” ou da participação coletiva dos espaços. Embora tenha encontrado essas particularidades, por outro lado, os projetos contribuem em aspectos de segurança e de lazer para os bairros em que estão implantados. O que demonstra que a questão da qualificação dos espaços públicos tidos como residuais em São Paulo é desafiadora e está em aberto.

Quem deveria conhecer seus resultados?

A sociedade em geral deveria se aproximar dessa questão tendo em vista o crescimento de ações em espaços públicos em que pessoas físicas estão assumindo responsabilidades associadas ao poder público. Conhecer os limites dessas ações é indispensável para que os espaços públicos não percam seu estatuto de uso público e apenas respondam os desejos de um determinado grupo ou comunidade, pois a cidade é e deve ser para todos.

Victor Martins de Aguiar é mestre em história e fundamentos da arquitetura e do urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU USP). Graduado arquiteto e urbanista pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (FCT UNESP), onde integrou grupos de pesquisa e participou de projetos de extensão. É pesquisador no Laboratório para Outros Urbanismos (FAU USP). Atua sobretudo nos seguintes temas: processos de urbanização; espaços residuais; novas territorialidades urbanas; comuns urbanos; com o objetivo de teorizar o uso dos espaços públicos contemporâneos.

Referências

  • HESS, Charlotte. Mapping the new commons. In: INTERNATIONAL ASSOCIATION FOR THE STUDY OF THE COMMONS (IASC), 12, 2008, Cheltenham. Anais eletrônicos. Cheltenham: IASC, 2008. Acesso em: 05 maio 2017.
  •  OSTROM, Elinor. Governing the commons: the evolution of institutions for collective action. Cambridge: Cambridge University Press, 1990.
  • PELBART, Peter Pál. Parque Augusta. Ou um desejo de rua. Minha Cidade, São Paulo, ano 15, n. 176.03, Vitruvius, mar. 2015. Acesso em: 05 maio 2017.

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