Dissertação - Nas tramas da política: Uma etnografia da ação coletiva na Favela de Vila Prudente

Autora

Kassia Bobadilla

Orientadores

Lindomar Coelho de Albuquerque, Alexandre Barbosa Pereira

Área e sub-área

Antropologia, Antropologia urbana, Antropologia da política, Etnografia

Defendida em

Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais, 10/11/2016

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Esta pesquisa pretende mostrar os significados da política e os meandros da ação coletiva na Favela de Vila Prudente, considerada a mais antiga da cidade de São Paulo. Acompanhando os conflitos, alianças e disputas que permeiam as relações políticas na comunidade, a autora analisa como noções em torno da memória e do território são articuladas de forma estratégica. Também a partir dos distintos repertórios e contornos que a ação coletiva adquire nesse contexto específico e entre gerações de lideranças e grupos que nele atuam.

Ao lançar um olhar etnográfico sobre o cotidiano da favela e a atuação de lideranças comunitárias, organizações e outros atores, o estudo busca compreender melhor as “tramas da política” presentes nesse microuniverso de análise e contribuir para o entendimento do momento político atual, na esfera da “grande política”.

Ouça a pesquisadora

A qual pergunta a pesquisa responde?

De início, delimitei três questões norteadoras da pesquisa: 1) Quais são os modus operandis, imbuídos de significados, que a política adquire no contexto da Favela de Vila Prudente?; 2) Como se configura a ação coletiva na favela a partir dos distintos atores, grupos e organizações ali presentes?; 3) Como identidade e memória ganham um uso estrategicamente político na atuação das lideranças da favela?

Por que isso é relevante?

Minha pesquisa busca se desvencilhar de qualquer tentativa de descrever e enquadrar os comportamentos das lideranças comunitárias e suas práticas políticas em categorias apriorísticas e generalizantes, tais quais as comumente utilizadas pela ciência política, que poderiam prejudicar as análises e subverter a proposta de captar a política do ponto de vista nativo. Essa abordagem de minha pesquisa articula-se com questões mais amplas que têm sido abordadas por autores como Das e Poole (2004), que buscam compreender práticas, lugares e linguagens de grupos considerados como “às margens do Estado-nação”. Num território como a favela, comumente caracterizado como “carente”, “precário” e em que se conviveria com a “ausência” do Estado, haveria a oportunidade de apreender como atores concretos “às margens” vivenciam e organizam-se cotidianamente. Nessa linha, Auyero (2011), ao etnografar as dinâmicas políticas de populações pobres no espaço urbano, procura desestabilizar categorias como “clientelismo político” e “patronagem” ao mostrar como essas mediações clientelistas adquirem significados distintos e tornam-se estratégicas para que os mais pobres solucionem seu cotidiano.

Resumo da pesquisa

Esta pesquisa tem como objetivo desvelar os significados da política e os meandros da ação coletiva na Favela de Vila Prudente, localizada na zona leste de São Paulo e tida como a favela mais antiga da cidade. Nessa perspectiva, a pesquisa lança um olhar etnográfico sobre o cotidiano da favela e atuação de lideranças comunitárias, organizações e outros atores. Promovendo um diálogo entre antropologia urbana e antropologia da política, este estudo insere-se no campo de debate sobre a questão urbana e as formas de organização de grupos sociais tidos como "às margens" do Estado. Acompanhando os conflitos, alianças e disputas que permeiam as relações políticas na favela, pretendo analisar como noções em torno da memória e do território são articuladas de forma estratégica e a partir dos distintos repertórios e contornos que a ação coletiva adquire nesse contexto específico e entre gerações de lideranças e grupos que nele atuam.

Quais foram as conclusões?

A pesquisa nos permite enxergar a importância de escaparmos de um modelo de investigação centrado em instituições e organizações sociais coerentes e fixas, na direção de uma etnografia multissituada que se atente aos sentidos de seus engajamentos em distintos contextos e situações sociais. Foi notável que todas as organizações estão centradas em pessoas e são justamente estas que exercem influência sobre os rumos das entidades e dos acessos e canais que lhes são possibilitados no “mundo da política”. Dependendo dos distintos segmentos aos quais pertencem as lideranças da favela – partidos políticos, grupos, etc. – elas podem obter mais ou menos acesso para sua atuação. Pude ainda identificar que, mais do que uma substituição geracional, vigoraria um processo de convivência geracional entre lideranças, que está sujeito à transmissão de posições para os mais jovens, mas também à inexistência de posições a serem transmitidas ou de não haver interessados em ocupá-las. No entanto, a noção de segmentaridade mantém-se e atravessa as gerações, estabelecendo como inerente à constituição da política na favela esses movimentos situacionais de aproximação e distanciamento entre os atores.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Pesquisadores e estudantes das áreas de antropologia, ciência política, políticas públicas e sociologia; lideranças e militantes de movimentos sociais, gestores públicos que queiram entender a dinâmica da “pequena política” exercida no cotidiano de grupos sociais. Pessoas que estejam interessadas em compreender mais as “tramas da política” presentes nesse meu microuniverso de análise e que traz diversas contribuições para se entender o momento político atual, na esfera da “grande política”.

Kassia Bobadilla é mestra em ciências sociais pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), com especialização em Psicossociologia da Juventude e Políticas Públicas pela FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo) e bacharel em gestão de políticas públicas pela USP (Universidade de São Paulo).

Referências

  • AUYERO, Javier. Vidas e Política das Pessoas Pobres - as coisas que um etnógrafo político sabe (e não sabe) após 15 anos de trabalho de campo. In: Sociologias, Porto Alegre, ano 13, n. 28, pp. 126-164, set./dez. 2011.
  • BOBADILLA, Kassia Beatriz. “Com um pé na favela e outro na política”: trajetória e atuação de lideranças comunitárias da Favela de Vila Prudente. Monografia. (Especialização em Psicossociologia da Juventude e Políticas Públicas). FESPSP. São Paulo, 2014.
  • DAS, Veena; POOLE, Deborah (orgs.) Anthropology in the Margins of the State. Santa Fé, Oxford: School of American Research, 2004.
  • FELTRAN, Gabriel. Desvelar a política na periferia: história de movimentos sociais em São Paulo. São Paulo: Editorial Humanitas, 2005.
  • NÚCLEO DE ANTROPOLOGIA DA POLÍTICA. Uma Antropologia da Política: Rituais, Representação e Violência. Cadernos do NuAP 1, Rio de Janeiro: Nau Editora, 1998.
  • PEIRANO, Mariza. Antropologia política, ciência política e antropologia da política. In _________, Três Ensaios Breves. Brasília, UnB, “Série Antropologia”, n. 230, pp. 17-29, 1998.
  • WHYTE, Willian Foote. Sociedade de esquina: a estrutura social de uma área urbana pobre e degradada. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2005.

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