Tese - Em busca do passado esquecido: uma análise dos romances Onde andará Dulce Veiga? (1990), de Caio Fernando Abreu, e Benjamim (1995), de Chico Buarque

Autora

Juliane Vargas Welter

Orientador

Homero José Vizeu Araújo

Área e sub-área

Letras, Literatura Brasileira

Defendida em

UFRGS(Universidade Federal do Rio Grande do Sul), Letras 28/04/15

Link para o original

 

Este trabalho investiga como os elementos histórico-sociais impactam a forma literária na literatura brasileira contemporânea. Para isso, são analisados dois romances: “Onde andará Dulce Veiga?” (1990), de Caio Fernando Abreu, e “Benjamim” (1995), de Chico Buarque, publicados já na redemocratização, mas que dialogam com a ditadura civil-militar.

O estudo questiona se os dois escritores emulam nessas obras um panorama do processo político-social no Brasil, que passa pela voz culpada de suas testemunhas e por um acerto de contas com o passado que revela um processo falho de democratização. Segundo a autora, em tempos recentes as questões analisadas vêm ganhando relevância, com a retomada desse tema pela literatura brasileira, a crescente reivindicação de políticas de memória, o surgimento de grupos pedindo a volta do regime militar, entre outros fatores.

A qual pergunta a pesquisa responde?

A questão central deste trabalho foi: como os dados histórico-sociais impactam a forma literária na nossa literatura recente? Aqui nos referimos a índices materiais muito específicos, ditadura civil-militar e redemocratização. Assim, a hipótese seria: Caio Fernando Abreu e Chico Buarque emulariam nos romances “Onde andará Dulce Veiga?” (1990) e “Benjamim” (1995), respectivamente, um panorama do processo político-social no Brasil que passa pela voz culpada das suas testemunhas e por um acerto de contas com o passado que revela nossa democratização falha, permitindo-nos falar em uma sequência na história da literatura brasileira que internaliza esse processo. A chave dessa leitura se colocava no papel das testemunhas que nossos protagonistas/narradores eram, mas que carregavam em si características ambíguas: figuras ativas pelo ato de delação e passivas pela própria falta de intencionalidade da delação. Dessa forma, acabam por revelar um apagamento do passado traumático marcado pela passividade e conciliação, que atravessa o campo ficcional e encontra o silenciamento de políticas de Estado e civis que debatam e julguem, publicamente, os crimes cometidos durante o regime civil-militar.

Por que isso é relevante?

Tendo em vista, por um lado, as retomadas recentes do regime civil-militar como dado de enredo na literatura brasileira contemporânea, índice às vezes lateral, mas que visto em conjunto parece apontar para uma sequência dentro da literatura brasileira contemporânea; e, por outro, políticas de Estado recentes como a criação da Comissão Nacional da Verdade (2012), a temática do trabalho se mostra bastante atual. Ou seja, há neste momento uma demanda dentro do campo político pela rememoração, uma institucionalização do rememorar. Assim, articulando esses dois campos, possibilita-se uma ampliação do debate estético e político, bem como de nossos processos históricos e traumáticos recentes, entendendo assim a literatura como um palco privilegiado de (re)elaboração da memória e de exposição de impasses e fraturas sociais. Atualidade que se intensificou até mesmo após o fim do trabalho, tendo em vista um quadro político no qual ainda sejam verificáveis um saudosismo do regime militar e, concomitantemente, a emergência da palavra “golpe” em nosso contexto político recente.

Resumo da pesquisa

Entendendo a literatura como palco de exposição de impasses e de (re)elaboração da memória coletiva e individual, este estudo busca analisar a literatura brasileira aliando forma literária e processo histórico-social. Para isso, investigamos dois romances, “Onde andará Dulce Veiga?” (1990), de Caio Fernando Abreu, e “Benjamim” (1995), de Chico Buarque, publicados já na redemocratização, mas que dialogam com o nosso passado recente: a ditadura civil-militar. A partir do contraste entre esses romances, procura-se refletir sobre uma sequência na história da literatura brasileira que compreende a emulação de um processo histórico específico: a redemocratização, problematizada a partir de narradores ou protagonistas que rememoram um passado esquecido, colocando-se, no presente, como testemunhas culpadas. Intenta-se, assim, refletir sobre a mediação feita pela literatura contemporânea que olha em retrospecto para o regime autoritário e problematiza a redemocratização, assim como investigar essa literatura entendendo-a como parte de um processo literário específico.

Quais foram as conclusões?

Respondendo à questão central, “como os dados histórico-sociais impactam a forma literária na nossa literatura recente?”, e partindo da hipótese já explicitada (uma emulação da culpa e um acerto de contas com o passado), elaboramos o que chamamos de testemunho à brasileira. Ele marca esses protagonistas como testemunhas ambivalentes, carregando em si características que poderiam ser consideradas excludentes, mas que se colocam como uma elaboração interna de um problema que é externo: a não resolução dos problemas do passado e a sua conciliação. Isso faz com que vivamos em uma democracia com heranças macabras do regime militar, acentuadas pela ausência de um debate público sobre o período. Associando esse processo histórico com a forma desses romances, acreditamos então que o ponto de vista da morte adotado nessas obras (em “Benjamim”, o pelotão de fuzilamento; em “Onde andará Dulce Veiga?”, a possibilidade do HIV) é ele mesmo a primeira formalização desses impasses. Assim, a apreensão da crise externa se dá por esse ponto de vista que se compõe pela circularidade/ciclicidade do tempo, como uma fantasmagoria de um tempo repetitivo e de passado irreversível que nos alcança.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Investigar a literatura integrada com sua realidade sócio-histórica nos permite um novo olhar sobre o objeto literário, indicando a literatura como palco privilegiado de debate. Assim, este trabalho se configurou em um esforço analítico que teve como objetivo contribuir para uma reflexão acerca de nossa transição democrática e de seus impasses. Isto é, os resultados nos ajudam a refletir tanto sobre o objeto estético quanto sobre a materialidade dos nossos processos histórico-sociais. Ou seja, é um trabalho que deveria ser conhecido por todos aqueles interessados em refletir sobre o Brasil contemporâneo e sobre o nosso passado mal-resolvido, em especial aqueles que têm interesse pela literatura como objeto integrado ao seu contexto político.

Juliane Vargas Welter é mestre e doutora em estudos literários/literatura brasileira pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Atualmente, é professora adjunta do setor de literatura brasileira do Departamento de Letras da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte).

Referências

  • FREUD, Sigmund. “Recordar, repetir e elaborar (Novas recomendações sobre a técnica da psicanálise II)”. In:___. O caso Schereber, artigos sobre técnica e outros trabalhos (1911-1913). Volume XII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
  • PASTA, José Antonio. “O ponto de vista da morte”. In: Revista da Cinemateca Brasileira, v. 1, p. 7-15, 2013.
  • RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2007.
  • SCHWARZ, Roberto. “Cultura e Política: 1964-69”. In: O pai de família e outros estudos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
  • SELIGMANN-SILVA, Márcio. “Literatura e Trauma: um novo paradigma”. In: O local da diferença: ensaios sobre memória, arte, literatura e tradução. São Paulo: Editora 34, 2005.

Ver todas

Os artigos publicados no ‘Nexo Acadêmico’ são de autoria de colaboradores eventuais do jornal e não representam as ideias ou opiniões do nexo.