Tese - O tombamento do "Casarão da Barragem" e as representações da favela em Belo Horizonte

Autora

Josemeire Alves Pereira

Lattes

Orientadora

Silvana Barbosa Rubino (Mestrado)

Área e sub-área

História, Política, Memória e Cidade

Defendida em

Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Departamento de História 11/06/2012

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Esta pesquisa discute a relevância de transformar em patrimônio da cidade uma construção que remete à memória de uma favela, historicamente considerada pelo poder público como um “problema social” a ser extirpado do tecido urbano. O estudo parte da análise do processo de tombamento do “Casarão da Barragem Santa Lúcia” –  ocorrido por demanda de moradores do Aglomerado Santa Lúcia, em Belo Horizonte, em 1992 – para discutir representações construídas sobre as favelas na cidade durante o século 20.

De acordo com a autora, as políticas de produção de memória histórica, em especial as de promoção do patrimônio cultural, negligenciam as favelas e seus moradores, ignorando-os como produtores de saber sobre a cidade. Segundo ela, as mudanças de atitude dos governos em relação às favelas deveram-se, em grande medida, às intervenções coletivas de moradores em defesa de seu direito à cidade, como a reivindicação de tombamento do “Casarão da Barragem”.

 

A qual pergunta a pesquisa responde?

Por que as políticas de produção de memória histórica – em especial as de promoção do patrimônio cultural – negligenciam as favelas e seus moradores? Em que medida a história das representações sociais sobre esse lugar contribuem para a produção de conhecimento sobre a cidade? Que contribuição as experiências de moradores de vilas, favelas e periferias urbanas oferecem para o trato dos problemas sociais das grandes metrópoles brasileiras?

Foto: Catharina Gonçalves

Vista do Aglomerado Santa Lúcia a partir do Bairro Cidade Jardim, em Belo Horizonte (MG)
 

Por que isso é relevante?

O fenômeno do surgimento e desenvolvimento das favelas brasileiras figura, no imaginário social, relacionado ora aos estigmas negativos de carência, violência e pobreza; ora aos de “humildade” e solidariedade inerente aos seus habitantes, ou ao de culturalmente exótico. Os discursos governamentais tendiam a tomar as favelas como “problema social” ou “um cancro” a ser “extirpado”. O interesse acadêmico pelo tema surge na esteira dessas representações governamentais acerca da favela e do favelado, via de regra, ignorando este último como agente potencialmente produtor de saber sobre a cidade. Tais estudos, desenvolvidos a partir dos anos 1940, destinavam-se a contribuir para a solução do “problema” que, entretanto, ao longo de todo o século 20 expandiu-se, concomitantemente à intensificação das migrações internas que resultaram na formação das principais metrópoles brasileiras. No âmbito das representações oficiais destinadas a criar identidades para as cidades – tais como as políticas de promoção de memória e preservação patrimonial que ganharam lugar nas últimas décadas do século passado –, esses lugares e sujeitos são sensivelmente negligenciados.

Resumo da pesquisa

A pesquisa parte da análise do processo de tombamento do “Casarão da Barragem Santa Lúcia”, originado por demanda de moradores do Aglomerado Santa Lúcia, em Belo Horizonte, em 1992, para discutir representações construídas sobre as favelas na cidade, durante o século 20. O tombamento do Casarão, também conhecido como "Casa da Fazendinha", aprovado naquele mesmo ano, é emblemático por evocar elementos caros às relações entre as favelas e o poder público, em Belo Horizonte, mas também em outros centros urbanos: afinal, quais os sentidos de se transformar em "bem cultural" e patrimônio da cidade uma construção que remete também à memória de uma favela – essa forma de inserção no espaço urbano considerada, historicamente, pela administração municipal, um dos maiores problemas urbanos e sociais, um "quisto" a ser "extirpado do tecido urbano"? A análise empreendida a partir de documentação administrativa, entrevistas e da legislação que orienta as políticas urbanas, bem como das que dizem respeito à preservação do patrimônio, apresenta a memória como campo fértil de disputas pela construção de novas representações da favela, sendo mobilizada por aqueles moradores como estratégia de defesa de seu direito à cidade.

 

Quais foram as conclusões?

Afinal, qual a relevância de tornar patrimônio da cidade uma construção que remete à memória de uma favela – essa forma de produção do espaço urbano considerada historicamente pelo governo como uma doença a ser extirpada do tecido urbano/social; espaço formado, não por sujeitos, mas por uma “massa amorfa” que ameaçava a “ordem social”? Ora, analisando a perspectiva dos moradores de favela, observamos que as mudanças de atitude dos governos em relação às favelas deveram-se, em grande medida, às intervenções coletivas de moradores, reivindicando melhorias urbanas. É o que revela a substituição da necessidade governamental de “extirpar” para a de “integrar” a favela à cidade – ainda que sem considerar em profundidade a participação das populações faveladas nas definições de como operar essa integração. Assim também ações culturais locais, como o Tombamento do “Casarão da Barragem”, a “Casa do Beco” e no Museu de Quilombos Urbanos, Vilas e Favelas de Belo Horizonte provocam o governo e a cidade a, mais que respeitar o direito dos favelados à cidade, envolver-se na necessária transformação de representações negativas e limitadoras de relações sociais efetivamente mais igualitárias.

Quem deveria conhecer seus resultados?

A pesquisa pode contribuir para os interesses de urbanistas, historiadores e demais estudiosos sobre as cidades, gestores governamentais, organizações não governamentais e movimentos sociais, bem como de todas as pessoas que desejarem conhecer sobre os temas abordados.

Josemeire Alves Pereira é graduada em história pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais); mestra e doutoranda em história pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Seus interesses de pesquisa estão relacionados aos seguintes temas: representações sociais, favela, memória, relações raciais, pós-emancipação.

Referências

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  • GOMES, J. L. Condições de vida do passado, conquistas do presente: a luta das associações comunitárias do Agl. Sta. Lúcia por cidadania. 2011. Dissertação (Mestrado em Sociologia). Univ. de Coimbra. Coimbra/Portugal, 2011.
  • GUIMARÃES, B. Favelas em Belo Horizonte: tendências e desafios. Análise & Conjuntura, Belo Horizonte, v.7, n.2 e 3, maio/dez. 1992.

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