Paper- Toxicidade aguda e contaminação por metais em sedimentos no Rio dos Bugres, Ilha de São Vicente, SP

Autores

Tierry Val de Medeiros, Unifesp (Universidade Federal de São Paulo)

Lattes

William Rodriguez Schepis, Instituto EcoFaxina

Lattes

Denis Moledo de Souza Abessa, Unesp (Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho)

Lattes

Sharlleny Alves Silva, Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo)

Área e sub-área

Ecologia, Ecotoxicologia

Publicado em

Brazilian Journal of Aquatic Science and Technology 2016

Link para o original

 

Esta pesquisa investiga a qualidade da água do rio que delimita os municípios de Santos e São Vicente, no litoral de São Paulo, o Rio dos Bugres. Os resultados do estudo mostram que os sedimentos analisados são tóxicos e cancerígenos, contaminados por diversos metais, como mercúrio, chumbo e cádmio.

 

Segundo os autores, isso indica um cenário de degradação e risco ambiental, possivelmente causado pelo antigo lixão que funcionou por mais de 30 anos em uma das margens do rio e o descarte direto de esgoto das moradias instaladas do outro lado. O consumo de peixes provenientes do Rio dos Bugres se mostra bastante perigoso para a saúde da comunidade local, o que ressalta a necessidade de ações emergenciais.

 

A qual pergunta a pesquisa responde?

A hipótese de trabalho considerou que existe um aporte de contaminantes proveniente do antigo lixão do Sambaiatuba que por mais de três décadas funcionou na margem do Rio dos Bugres (município de São Vicente, em São Paulo), e das submoradias (palafitas) instaladas na outra margem do rio, no município de Santos, e que esses contaminantes se acumulam nos sedimentos e causam efeitos nocivos sobre a biota aquática, alterando o equilíbrio ecológico. Para avaliar o nível da poluição local, foi averiguada a qualidade dos sedimentos através de testes de toxicidade e análise química.

 

Por que isso é relevante?

Diversas espécies aquáticas dependem dos sedimentos por ter seu ciclo de vida associado em parte ou integralmente a ele, ou por se utilizarem dele como uma via de alimentação, o que faz esse compartimento ter grande importância. Portanto, sua qualidade é essencial para o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos. Quando um corpo d’água recebe contaminantes, tais como metais, por uma ou mais fontes, eles tendem a precipitar e se acumular nos sedimentos, podendo se tornar uma fonte de contaminação para a biota aquática, alterando seu equilíbrio ecológico. A incorporação desses contaminantes nos organismos aquáticos e sua transferência através da cadeia alimentar podem atingir os seres humanos, através do consumo de pescados. O mercúrio, por exemplo, uma vez liberado no ambiente aquático, assume formas mais tóxicas devido a processos físico-químicos e de ação bacteriana. Uma dessas formas é o metilmercúrio, que, quando absorvido via pescado contaminado, é rapidamente absorvido pelo trato gastrointestinal e possui a capacidade de atingir o sistema nervoso central, gerando danos à saúde humana.

Foto: Instituto Ecofaxina

Moradias nas margens do contaminado Rio dos Bugres, no litoral paulista
 

Resumo da pesquisa

O estudo avaliou a qualidade dos sedimentos do Rio dos Bugres, um corpo d’água que delimita parte da divisa dos municípios de Santos e São Vicente, no Estado de São Paulo. Os sedimentos foram averiguados quanto ao seu potencial tóxico, por meio de testes de toxicidade, expondo o microcrustáceo Tiburonella viscana em duas campanhas. Uma terceira campanha foi realizada para analisar a concentração de metais nos sedimentos. Todos os sedimentos demonstraram alta toxicidade com altas taxas de mortalidade. Foram encontrados valores elevados de mercúrio, crômio, cobre, prata, berílio, bário, zinco, níquel, cádmio e chumbo, alguns deles superiores a diretrizes de qualidade de sedimentos locais e internacionais. As concentrações foram influenciadas pela localização dos pontos de coleta e texturas dos sedimentos, os sedimentos mais arenosos exibiram concentrações relativamente mais baixas de metais.

Localização do Rio dos Bugres e dos pontos de coleta de sedimentos

 

Quais foram as conclusões?

Os resultados demonstram que os sedimentos do Rio dos Bugres estão contaminados por diversos metais, como cádmio, cobre, chumbo, níquel, zinco e mercúrio, que são tóxicos e carcinogênicos, causando uma toxicidade para invertebrados bentônicos, indicando um cenário de degradação e risco ecológico. As causas dessa alteração possivelmente relacionam-se com as múltiplas fontes poluidoras instaladas no entorno do Rio dos Bugres, incluindo o antigo lixão e o descarte direto de esgotos. As comunidades que ali residem podem estar sujeitas a contaminação via alimentar se tiverem por hábito o consumo de pescados do rio. Os dados ressaltam a necessidade de ações emergenciais de controle das fontes poluidoras, a fim de se promover a recuperação dos sistemas naturais do rio.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Gestores públicos, agências de controle ambiental, organizações da sociedade civil, pesquisadores e o público em geral.

 

 

Referências

  • ABESSA, DM de S. Avaliação da qualidade de sedimentos do Sistema Estuarino de Santos, SP, Brasil. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo, Instituto Oceanográfico, 2002.
  • CÉSAR, Augusto. Análisis ecotoxicológico integrado de la contaminación marina en los sedimentos de la costa de Murcia, el caso de Portman, Sudeste-España. 2003.
  • CETESB. Qualidade das águas superficiais no estado de São Paulo. Relatório, 342 p, 2011.
  • CHOUERI, R. B. et al. Development of site-specific sediment quality guidelines for North and South Atlantic littoral zones: comparison against national and international sediment quality benchmarks. Journal of hazardous materials, v. 170, n. 1, p. 320-331, 2009.
  • FABIANO, Caio; MUNIZ, Suely. Dique Vila Gilda: Caminhos para a Regularização. Planejamento e Políticas Públicas, n. 1, 2010.

Ver todas

Os artigos publicados no ‘Nexo Acadêmico’ são de autoria de colaboradores eventuais do jornal e não representam as ideias ou opiniões do nexo.