Tese - Redes Curatoriais: procedimentos comunicacionais no sistema da arte contemporânea

Autora

Ananda Carvalho

Lattes

Orientadora

Cecilia Almeida Salles

Área e sub-área

Artes, Fundamentos e Crítica das Artes

Defendida em

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Comunicação e Semiótica 25/08/2014

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Desde a década de 1980, a figura do curador de arte vem se consolidando. Esta pesquisa mapeia os procedimentos curatoriais recorrentes em exposições de artes visuais realizadas na cidade de São Paulo na última década –  e como eles dialogam com os aspectos que caracterizam a arte contemporânea.

 

O estudo analisa a produção curatorial paulistana a partir de arquivos de comunicação das exposições, como textos, entrevistas dos curadores publicadas na imprensa, fotografias e vídeos das exposições. Segundo a autora, observar como está sendo construída a história da curadoria artística no Brasil evidencia a necessidade de se rever urgentemente a forma como esses processos são registrados.

A qual pergunta a pesquisa responde?

A arte contemporânea engloba uma série de procedimentos que a diferencia das linguagens artísticas consolidadas anteriormente na história da arte. Entre esses procedimentos de produção e exibição da arte – que se tornaram mais recorrentes principalmente a partir de meados do século 20 – podem-se citar: a multiplicidade de linguagens, a inserção da obra no espaço, a relação entre obra e espectador, a efemeridade da obra, a dissolução da autoria, a organização de exposições em espaços alternativos ao institucional, etc. Nesse circuito, desde a década de 1980, vem se consolidando a figura do curador – função antes desenvolvida por diretores de museus, donos de galerias ou mesmo artistas. Diante desse contexto, surge a inquietação desta pesquisa: quais são os procedimentos curatoriais recorrentes em arte contemporânea? Como a curadoria dialoga com os aspectos da arte contemporânea citados acima?

Por que isso é relevante?

Desde os anos 1980, cresce exponencialmente o uso da palavra “curador”, que, nos últimos anos, não se restringe ao campo das artes. Hoje a palavra “curadoria” é utilizada no senso comum como sinônimo de alguém que faz uma seleção especializada e por isso é detentora de uma voz de poder. Entretanto, o papel do curador não se restringe a uma simples escolha de qual obra de arte é mais interessante ou importante. Este estudo mostra que a curadoria em artes envolve muitas outras funções e complexidades. Para tanto, busca elaborar quais são os modos de ação ou os procedimentos realizados pelos curadores, apresentando um mapeamento inédito sobre a curadoria em artes visuais no país. A abordagem metodológica adotada para a pesquisa – a partir de uma perspectiva dos processos de criação – evidencia que a curadoria é um campo amplo com diversas possibilidades de desdobramentos e articulações. Esta pesquisa também é relevante na medida em que, infelizmente, até 2014 (ano de sua defesa), a bibliografia sobre o tema produzida no Brasil consistia apenas em coletâneas de artigos e/ou entrevistas.

Resumo da pesquisa

Este estudo mapeia os procedimentos de criação desenvolvidos pelos curadores em exposições de arte contemporânea realizadas, principalmente, na cidade de São Paulo na última década. A pesquisa inicia apresentando os percursos introdutórios das redes curatoriais com o objetivo de demonstrar a complexidade dessas redes. Em seguida, observa a produção curatorial paulistana a partir de arquivos utilizados para a comunicação das exposições como textos curatoriais, entrevistas dos curadores publicadas na imprensa, fotografias e vídeos das exposições. Por meio da análise desses arquivos, destacam-se três grandes procedimentos: a relação entre curadoria e reconstrução do discurso histórico; a “espacialização” do pensamento curatorial; e a relação entre curadoria e partilha, que diz respeito a práticas discursivas que atravessam umas às outras, conectando processos de produção e de recepção. Também são analisadas curadorias de importância histórica que contextualizam os procedimentos mapeados. Por fim, apresenta uma visão ampla do campo estudado com uma abordagem metodológica que oferece a análise da curadoria sob um ponto de vista inédito do tema no Brasil.

Foto: Rubens Chiri/Itaú Cultural

Vista do espaço expositivo de “Contrapensamento selvagem”, curadoria de Cayo Honorato, Clarissa Diniz, Orlando Maneschy e Paulo Herkenhoff
Vista do espaço expositivo de “Contrapensamento selvagem”, curadoria de Cayo Honorato, Clarissa Diniz, Orlando Maneschy e Paulo Herkenhoff (Itaú Cultural, São Paulo, 2011)
 

Quais foram as conclusões?

Aqui gostaria de ressaltar a tendência ao apagamento histórico de exposições já realizadas no Brasil. Para isso, relato alguns aspectos técnicos que foram observados durante a pesquisa por documentação pública de exposições. Uma boa parte dos sites das exposições (ou instituições) exibe imagens das obras de arte isoladas (e que muitas vezes não são uma reprodução da versão final do trabalho exibido). Durante a pesquisa, ao solicitar imagens para diversas instituições, muitas delas não tinham em seus arquivos fotografias das exposições montadas. Os textos curatoriais também não são sempre publicados nos sites. Muitas vezes, restringem-se a um texto de parede ou a um folder distribuído apenas durante a exposição. Os catálogos também são distribuídos de forma irregular para um público restrito. A observação desse contexto demanda uma revisão urgente de como está sendo construída a história da curadoria no Brasil. Se uma obra de arte ganha contato com o público através das exposições, é necessário registrar como as construções dessas relações foram propostas: como era o espaço e quais outros trabalhos foram apresentados em conjunto.

Quem deveria conhecer seus resultados?

A pesquisa dirige-se aos interessados em arte contemporânea e nas especificidades de suas configurações. É pertinente a todos os interessados em produção cultural nas suas mais diversas áreas (artistas, críticos, curadores, educadores, produtores, arquitetos, jornalistas, designers, historiadores, etc.) que gostariam de saber mais sobre a montagem de exposições, sobre em que consiste o papel do curador e sobre a elaboração do pensamento curatorial. Mais especificamente, a tese apresenta uma perspectiva ampla para estudantes, professores e pesquisadores de cursos de graduação e cursos livres em Artes Visuais, História da Arte, Crítica, Curadoria, Museologia, Produção Cultural, entre outros.

Ananda Carvalho é curadora, crítica de arte e doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Desde 2009, escreve, pesquisa e produz curadorias de exposições de arte contemporânea contempladas por editais de instituições públicas e privadas, em galerias comerciais e em espaços independentes. Entre suas curadorias recentes destacam-se o projeto "A História  da *rte" (Rumos Itaú Cultural, 2016-2017) e as exposições “Em suas Marcas” (Espaço Galeria SESI-SP, 2016), "toque-me" (Funarte Brasília, 2015) e “Performatividade|Memória” (Paço das Artes, 2014). Desde 2013 ministra cursos sobre curadoria, processos de criação, projetos e portfólios em diversas cidades brasileiras. Desde 2015, coordena um grupo regular de acompanhamento crítico de artistas.

 

Referências

SALLES, Cecilia Almeida. Gesto inacabado: processo de criação artística. Sã̃o Paulo: Intermeios. 5a ediçã̃o. 2011.

______. Arquivos de criaçã̃o: arte e curadoria. Vinhedo: Editora Horizonte, 2010.

______. Redes de criaçã̃o: construçã̃o da obra de arte. Vinhedo: Editora Horizonte, 2006.

 

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