Tese - Tentando chegar lá: experiências sociais de jovens em um cursinho popular de São Paulo

Autor

Eduardo Vilar Bonaldi

Lattes

Orientadora

Sylvia Gemignani Garcia

Área e sub-área

Sociologia, Sociologia da Educação

Defendido em

FFLCH-USP, Departamento de Sociologia, 16 de janeiro de 2016

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Esta pesquisa qualitativa busca compreender as características dos processos de socialização e de escolarização de estudantes de um cursinho popular na cidade de São Paulo, particularidades que os fazem contrariar a tendência geral de sua camada social e passar do ensino médio para o ensino superior. Segundo o autor, o estudo evidencia como mesmo esses jovens encontram barreiras e dificuldades - educacionais, materiais e culturais - para fazer essa transição e mostra as estratégias desenvolvidas por eles para tentar superá-las.

A qual pergunta a pesquisa responde?

De um lado, a pesquisa busca apreender e compreender as especificidades e singularidades de processos de socialização e de escolarização de estudantes do cursinho popular investigado que os impelem a transgredir a tendência modular - entre os jovens de camadas populares na cidade de São Paulo e, de modo geral, na sociedade brasileira - à auto eliminação escolar operada, justamente, no momento próprio à transição mais elevada do sistema de ensino nacional, ou seja, a passagem do ensino médio ao ensino superior. Por outro lado, o estudo evidencia como mesmo esses jovens - que escapam ao destino modular de seus pares de classe - vêm a encontrar barreiras e dificuldades objetivas em suas tentativas de realizar a referida transição educacional. Nesse momento do estudo, portanto, evidencio quais fatores e condições, presentes nas trajetórias de socialização e de escolarização desses jovens, são responsáveis por tais dificuldades objetivas. Ademais, o estudo tematiza, igualmente, os modos a partir dos quais esses garotos e garotas experienciam subjetivamente tais dificuldades, buscando constituir estratégias e tentativas de superá-los.

Foto: Divulgação

Aula inaugural da Rede Emancipa - Cursinhos Populares no vão do MASP
Aula inaugural da Rede Emancipa - Cursinhos Populares no vão do MASP
 

Por que isso é relevante?

Dada a notável diversificação dos perfis sociais e culturais de ingressantes no ensino superior nacional, desdobrada fundamentalmente na última década, a temática abordada no estudo afigura-se como pertinente a amplos debates no campo da educação, uma vez que a pesquisa busca desvendar a produção social (ou seja, o processo de socialização e de escolarização) de agentes que se constituem, no mais das vezes, como a primeira geração de seus grupos familiares a aspirar e a efetivamente tentar (com sucesso ou não) o ingresso no ensino superior público ou, por vezes, em instituições tradicionais do ensino superior privado via Prouni (Programa Universidade para Todos). Ademais, o estudo também evidencia as barreiras e dificuldades - de ordem educacional, material e cultural - que esses agentes encontram em suas tentativas de acesso, delineando a forma como eles experienciam e reagem subjetivamente a essas dificuldades objetivas. No tópico a seguir, esclareço, portanto, que dimensões de suas trajetórias de socialização e de escolarização são pertinentes à reflexão sobre os dois pontos acima suscitados.

Foto: Divulgação

Manifestação de alunos de cursinhos populares pela implantação de cotas nas universidades públicas estaduais de São Paulo
Manifestação de alunos de cursinhos populares pela implantação de cotas nas universidades públicas estaduais de São Paulo

Resumo da pesquisa

Por um lado, o estudo buscou investigar as condições e os processos de socialização e de escolarização que inculcam disposições à concorrência pelo ingresso no ensino superior entre jovens de bairros periféricos ou semiperiféricos da cidade de São Paulo. Nesse ponto, o estudo busca compreender, portanto, como, a partir da incorporação de tais disposições, esses jovens escapam à tendência de auto eliminação escolar, ainda majoritária entre seus pares etários de classe social. Por outro lado, a pesquisa também buscou investigar quais as barreiras e as dificuldades experimentadas, objetiva e subjetivamente, por esses jovens quando eles efetivamente buscam escapar ao destino social e educacional comum aos seus pares de classe social. A pesquisa de campo foi realizada entre 2012 e 2014, numa iniciativa de cursinho popular (que atende cerca de 400 estudantes por ano) situada na zona norte da cidade de São Paulo. O estudo articulou diferentes técnicas de pesquisa qualitativa, tais como a observação etnográfica e as entrevistas qualitativas conduzidas junto a estudantes, bem como a alguns de seus pais e professores no cursinho.

 

Quais foram as conclusões?

As conclusões do estudo delineiam uma série de mecanismos de socialização empiricamente observáveis nas trajetórias de jovens de camadas populares que tentam o ingresso no ensino superior. Tais mecanismos e dinâmicas dificilmente seriam alcançados pelos tradicionais estudos quantitativos, bem sucedidos em demonstrar e pesar as correlações estatísticas que nos esclarecem acerca das chances diferenciais de transição ao ensino superior, porém cegos e incapazes de alcançar e revelar os processos de socialização e de interação empiricamente concretos e subjetivamente experienciados pelos agentes que tentam "chegar lá". Ademais, o estudo evidencia que, frequentemente, os jovens buscam compensar as desvantagens e deficiências - acumuladas ao longo de sua escolarização e socialização - por meio de estratégias e de práticas flagrantemente descompassadas ante as exigências dos vestibulares. Esse é o caso, por exemplo, da ampla recorrência dos informantes ao estudo a partir de vídeo-aulas disponíveis na internet: prática esta que não os investe das disposições à ágil e eficiente interpretação textual, a principal competência avaliada e valorizada em exames como o Enem, por exemplo.

 

Quem deveria conhecer seus resultados?

Creio que os resultados interessam a pesquisadores das mais diferentes áreas da economia e das ciências humanas, jornalistas, profissionais do campo educacional, bem como o público interessado em análises e reflexões equilibradas e desapaixonadas sobre as recentes mudanças aferidas no sistema educacional brasileiro.

 

Eduardo Vilar Bonaldi fez graduação, mestrado e doutorado em Sociologia pela USP (Universidade de São Paulo), entre 2003 e 2016. É professor adjunto no Departamento de Sociologia e Política da UFSC (Universidade Federal de São Carlos) desde agosto de 2016.

 

Referências

  • BEAUD, Stéphane. 80% au BAC... et après? Les enfants de la démocratization scolaire. Paris: La Découverte, 2003.
  • BONALDI, Eduardo V. Articulando os níveis micro e macro na análise da comunicação pedagógica: a interação face a face e sua estruturação social. Educ. rev., v. 31, n. 2, p. 281-307, jun. 2015.
  • BOURDIEU, Pierre. A escola conservadora: as desigualdades frente à escola e à cultura In: NOGUEIRA, Maria Alice & CATANI, Afrânio (orgs.), Escritos de Educação. Petrópolis: Vozes, 11º ed., 2010. P. 39-65.
  • LAHIRE, Bernard. Sucesso escolar nos meios populares: razões do improvável. São Paulo: Editora Ática, 1997.
  • LAREAU, Annette. Unequal Childhoods: Class, Race and Family Life. Berkeley: University of California Press, 2003.

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