Dissertação - Evolução da associação entre padrões alimentares brasileiros e pegada hídrica na primeira década do século XXI

Autora

Natália Utikava

Lattes

Orientador

Wolney Lisboa Conde

Área e sub-área

Saúde Pública, Nutrição

Defendido em

Universidade de São Paulo, Departamento de Nutrição 22/09/2016

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Esta pesquisa de abrangência nacional se propõe a quantificar a pressão que os diferentes padrões alimentares brasileiros exercem sobre os recursos hídricos. De acordo com a autora, a alimentação vem sofrendo fortes mudanças no Brasil nas últimas décadas por uma série de fatores e essas transformações repercutem na demanda de água. O estudo mostra que, com a melhoria dos indicadores sociais, os domicílios mais pobres passaram a adotar padrões semelhantes aos dos mais ricos, com predominância de carnes vermelhas e processadas, que exigem um elevado volume de água para serem produzidas.

A qual pergunta a pesquisa responde?

A pesquisa quantificou a pressão que os diferentes padrões alimentares brasileiros exercem sobre os recursos hídricos do país, por meio do uso do indicador pegada hídrica, para averiguar o impacto ambiental de cada um deles. A pegada hídrica é definida como o volume de água doce usado durante a produção e o consumo de bens e serviços.

Por que isso é relevante?

Isso é relevante porque os padrões alimentares contemporâneos vêm sofrendo mudanças em função das transições demográfica, epidemiológica e nutricional. Além disso, na primeira década do século 21, o Brasil passou por importantes transformações políticas, com resultados positivos na redução da pobreza, da desigualdade, da inflação, e em outros indicadores sociais. Boa parte dessas mudanças deu-se com a implementação do Programa Fome Zero, que se mostrou importante do ponto de vista social, aumentando o acesso das famílias aos alimentos. Com isso, é necessário compreender como essas transformações repercutiram na demanda de água necessária para sustentar os novos padrões alimentares da população brasileira.

Resumo da pesquisa

A produção de alimentos é o setor que exerce maior pegada hídrica, definida como o volume de água doce usado durante a produção e o consumo de bens e serviços. O objetivo do trabalho foi analisar a evolução da associação entre padrões alimentares (PA) brasileiros e a pegada hídrica (PH) associada à produção dos alimentos adquiridos nos domicílios na primeira década do século 21. Consiste em estudo transversal com dados de aquisição domiciliar de alimentos, das Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2003 e 2009.

 

A PH média foi de 2.650 m³/ano/pessoa em 2003 e 2.446 m³/ano/pessoa em 2009, com tendência de aumento com o incremento da renda. Identificaram-se seis padrões alimentares, sendo o PA1 predominante em carnes vermelhas e processadas, o PA2 em leite e ovos, o PA3 em peixes e oleaginosas, o PA4 em cereais e leguminosas, o PA5 em peixes e produtos processados, e o PA6 em peixes, análogos proteicos à base de soja e outras fontes vegetais de proteínas. Os padrões PA1 e PA6 apresentaram tendência de aumento em 2009, mas o PA1 apresentou impacto três vezes superior à PH que o PA6. O PA6 foi apontado como um padrão mais sustentável, em consonância com a literatura e com os guias alimentares contemporâneos.

Quais foram as conclusões?

Este é o primeiro estudo de base populacional, com abrangência nacional, que quantificou o impacto da alimentação brasileira sobre a pegada hídrica, considerando as variações sociodemográficas existentes no país.

Observamos que os domicílios brasileiros mais ricos praticavam dois tipos de padrões predominantemente: um centrado em carnes vermelhas e processadas, e outro contendo alimentos proteicos de origem vegetal (como cereais, leguminosas, análogos proteicos à base de soja) e peixes. De um inquérito para o outro verificamos que, com a melhoria dos indicadores sociais, os domicílios mais pobres passaram a exercer padrões semelhantes aos padrões dos domicílios mais ricos, porém, com predominância do padrão centrado em carnes vermelhas e processadas.

Uma vez que as carnes em geral demandam um elevado volume de água para serem produzidas, praticar esse padrão exerce um efeito três vezes maior, comparando-se com os domicílios que preferiram alimentos proteicos vegetais (como leguminosas e cereais) e peixes. Por esse motivo, ressaltamos a importância dos programas sociais, mas sugerimos que eles sejam sempre acompanhados de ações de educação alimentar e nutricional para toda a população, de forma que o aumento da renda propicie o acesso a alimentos adequados em quantidade e qualidade, tanto do ponto de vista nutricional, quanto socioambiental.

 

É conveniente reforçar que os padrões alimentares são influenciados por determinantes sociais, culturais, econômicas e ambientais e que as condições de mercado em que o consumo se deu não puderam ser controladas no presente estudo, de tal forma que não se pode afirmar que as pessoas praticam tais padrões alimentares única e exclusivamente por preferências pessoais. Inúmeras outras questões estão constantemente influenciando as escolhas alimentares - da oferta de alimentos ao acesso físico e econômico, perpassando por questões como subsídios e taxações, propaganda e marketing, entre outras.

Quem deveria conhecer seus resultados?

O estudo traz resultados importantes que dialogam com consumidores, produtores de alimentos, indústria de alimentos e governos. Algumas estratégias de mudanças foram propostas, e consistem, fundamentalmente, em ações intersetoriais que estimulem a produção de alimentos locais, produzidos mediante procedimentos harmoniosos com o ambiente e a sociedade, e a adoção de padrões de consumo alimentar que exerçam menor pressão sobre os recursos naturais.

Natália Utikava é nutricionista pela Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo), com período sanduíche na McGill University, em Montreal, Canadá. É mestra em ciências pelo programa de Nutrição em Saúde Pública da USP. Atualmente atende em consultório com foco em alimentação consciente e é redatora de conteúdos de nutrição, consumo consciente e sustentabilidade.

 

Referências

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