Dissertação - “Pródigo em decisões contra o interesse público”: Imagem pública, agendamento e enquadramento do Congresso Nacional nos editoriais dos jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo

Autora

Camila Mont'Alverne Barreto de Paula Pessoa

Lattes

Orientador

Francisco Paulo Jamil Almeida Marques

Área e sub-área

Comunicação, Comunicação Política

Defendido em

Universidade Federal do Ceará, Instituto de Cultura e Arte 18/01/2016

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A autora analisa a imagem pública do Congresso Nacional construída nos editoriais dos jornais "O Estado de S. Paulo" e "Folha de S. Paulo", buscando identificar os temas prioritários, as personagens mais citadas e os enquadramentos mais frequentes para caracterizar o Legislativo Federal. A pesquisa mostra que grande parte dos textos trata das relações conflituosas entre o governo e o Congresso, em uma postura bastante crítica. Em geral, os parlamentares são caracterizados como interessados em si mesmos e desprovidos de preocupações com o gasto público. 

A qual pergunta a pesquisa responde?

O jornalismo dispõe da possibilidade de oferecer aos cidadãos uma forma de compreender o mundo, especialmente no que se refere a instituições às quais eles não têm acesso cotidianamente, a não ser através dos meios de comunicação. É inegável que a percepção da atuação de instituições como a Câmara dos Deputados ou o Senado Federal está ligada à cobertura jornalística feita delas. As empresas jornalísticas são instituições dotadas de interesses próprios, e eles podem influenciar no teor da cobertura, embora isso possa pôr em risco a credibilidade delas. Os editoriais são textos nos quais o jornal apresenta suas ideias, expondo-se junto à sociedade, ao mesmo tempo em que precisa manter a legitimidade como representante do interesse público. Nesse contexto, a pesquisa propõe analisar qual é a imagem pública do Congresso Nacional construída nos editoriais dos jornais "O Estado de S. Paulo" e "Folha de S. Paulo", identificando temas, personagens e enquadramentos mais presentes na cobertura. Além disso, investiga-se que imagem os periódicos analisados constroem de si nos editoriais.

Por que isso é relevante?

Com a impossibilidade de que os cidadãos acompanhem pessoalmente o trabalho de deputados e senadores, a cobertura jornalística torna-se fundamental para a impressão que a audiência tem do cotidiano do Congresso e dos próprios representantes. A ênfase em determinados aspectos pode contribuir para construir a imagem dos parlamentares e da instituição; enfim, para a configuração da imagem pública do Congresso. Ao mesmo tempo, a legitimidade das instituições também é crucial para o funcionamento do regime democrático. Tal legitimidade pode ser construída, dentre outras situações, pela cobertura jornalística. No caso de textos editoriais, as empresas jornalísticas não só apresentam sua opinião, mas também estabelecem um diálogo com as elites políticas e econômicas. A pesquisa permite perceber não só de que maneira os jornais configuram a imagem do Congresso, mas que pautas consideram prioritárias e quanto a legitimidade da própria empresa jornalística é construída a partir de uma cobertura crítica ao campo político.

Resumo da pesquisa

A pesquisa propõe analisar qual é a imagem pública do Congresso Nacional construída nos editoriais dos jornais "O Estado de S. Paulo" e "Folha de S. Paulo", identificando temas, personagens e enquadramentos mais presentes na cobertura. O corpus é composto por 164 editoriais que tratam do Congresso, da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal, publicados pelos dois jornais, entre 2011 e 2013. Os textos são examinados tendo como metodologia a análise de conteúdo, que oferece subsídios para identificar os temas mais abordados pela cobertura, as personagens mais citadas e os frames acionados para caracterizar o Legislativo Federal. Os resultados apontam que há uma cobertura predominantemente crítica em relação às referidas instituições por parte dos dois jornais. A maioria dos textos dedica-se à política e o enquadramento mais frequente trata das relações conflituosas entre o governo e a base aliada e entre o governo e o Congresso de maneira geral. Os parlamentares são caracterizados como autointeressados e desprovidos de preocupações com o gasto público. Em certa medida, pode-se falar em um viés antipolítico na cobertura.

Quais foram as conclusões?

A imagem pública do Congresso construída pelos editoriais é predominantemente crítica. Os parlamentares são caracterizados como autointeressados e desprovidos de preocupações com o gasto público, mas a caracterização negativa não é exclusividade deles, acontecendo também em relação a agentes e instituições do Executivo e do Judiciário. Em certa medida, pode-se falar em um viés antipolítico na cobertura, até porque é ao se mostrar como fiscalizador do campo político que o jornalismo se legitima perante a audiência. Todavia, apesar da cobertura crítica em relação ao Congresso, os periódicos sabem da importância da instituição para o regime democrático. Esse tom pode, inclusive, contribuir para tornar a esfera política mais responsiva e para constranger os agentes políticos, mas não se pode esquecer que os interesses e as agendas das próprias instituições jornalísticas estão em jogo nos editoriais, criando uma tensão entre interesse público e privado. Os dois jornais apresentam padrões de cobertura semelhante, indicando certa convergência de agendas.

Quem deveria conhecer seus resultados?

O trabalho pode colaborar para a compreensão dos cidadãos sobre o funcionamento do jornalismo e de suas relações com o campo político, tornando mais complexa a análise sobre mídia que se faz frequentemente, já que são expostos e debatidos diversos interesses que permeiam tal relação. Os agentes do campo político podem se interessar, na medida em que a pesquisa expõe as agendas dos jornais e como eles direcionam-se ao campo político – pelo menos, de forma pública. Especificamente no caso de integrantes do Legislativo, a pesquisa mostra que tipo de imagem tende a ser construída pelo material jornalístico. O trabalho também se mostra proveitoso para profissionais do campo jornalístico, já que traz críticas à cobertura – sem tratar os políticos como vítimas – com apontamentos sobre a importância da atividade jornalística para o regime democrático e discutindo pontos que poderiam ser aprimorados. Por fim, pesquisadores da área de Comunicação e de Ciência Política têm à disposição um material sobre objeto pouco explorado – editoriais – e que colabora para compreender questões mais amplas sobre opinião pública ou legitimidade das instituições, e da própria atividade jornalística.

 

Camila Mont'Alverne é doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFPR (Universidade Federal do Paraná) e mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFC (Universidade Federal do Ceará). Integrante do Ponte (Grupo de Pesquisa em Comunicação, Política e Tecnologia). Atua na área de Comunicação e de Ciência Política, com publicações sobre jornalismo político e sobre internet e eleições. Editora Executiva da RECP (Revista Eletrônica de Ciência Política), do PPGCP/UFPR.

 

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