Como o caráter sagrado influenciou na preservação da memória do Pátio do Colégio em São Paulo

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Nesta pesquisa sobre arquitetura e urbanismo, o autor investiga como a dimensão sagrada atuou no processo de preservação da memória do Pátio do Colégio, marco do nascimento da cidade de São Paulo, criado pelos jesuítas. O artigo observa como a reconstrução foi permeada por valores religiosos, que tiveram reflexo na configuração de uma parte de grande importância para a cidade.

A qual pergunta a pesquisa responde?

A pesquisa teve como objetivo observar como a dimensão sagrada influenciou no processo de preservação da memória do Pátio do Colégio desde a expulsão da Companhia de Jesus até a decisão de devolução do território para a ordem religiosa, iniciada na década de 1950, e a completa reconstrução do conjunto no mesmo local de sua fundação.

Por que isso é relevante?

Ao se considerar o valor simbólico do Pátio do Colégio e seu território na cidade de São Paulo, identificam-se-se duas narrativas principais: uma primeira que o observa como origem da grande metrópole paulistana e a segunda que analisa as sucessivas transformações e descaracterizações do conjunto ao longo dos anos. Mesmo tendo clara a existência e importância dessas e das demais narrativas acerca do local, esta pesquisa pretendeu estudar outro aspecto, não tão aprofundado, do Pátio do Colégio: a dimensão religiosa e sagrada do local e seu papel em todo o processo de construção, demolição e reconstrução do conjunto.

 

Buscou-se observar como a reconstrução foi, juntamente com as discussões políticas e sociais de cada época, também permeada por valores religiosos, e que tais valores tiveram reflexo para além da própria instituição católica, interferindo claramente na configuração de uma parte de grande importância para a cidade. Percebe-se que, para um melhor entendimento da cidade e suas transformações, dar a devida importância aos aspectos que se orientam conforme lógicas religiosas torna-se uma tarefa de grande importância  para a sociedade no século 21.

Resumo da pesquisa

Esta pesquisa tem como objetivo examinar de que forma a dimensão religiosa fortaleceu o processo de devolução do terreno do Pátio do Colégio para a Companhia de Jesus em 1954 e, posteriormente, a reconstrução do conjunto arquitetônico, iniciada a partir de 1955. Analisou-se a permanência e a manutenção da memória do conjunto jesuíta, a partir de 1810 até a devolução do terreno para a ordem, e o início da construção do conjunto a partir da década de 1950, além da dispersão e preservação de objetos tidos como sagrados, oriundos das antigas edificações do Pátio do Colégio. Buscou-se, assim, entender como grupos ligados à Igreja Católica e, em especial, à Companhia de Jesus influenciaram no retorno do caráter sagrado desse território gradativamente secularizado a partir da expulsão dos jesuítas no século 18, auxiliando na reconstrução e validação do conjunto religioso.

Quais foram as conclusões?

Sem a intenção de apontar os atores religiosos como únicos agentes responsáveis pela reconstrução, nem de fazer justiça à ordem religiosa perante a perda de bens e privilégios após sua expulsão de São Paulo, a pesquisa me levou a concluir que tais agentes (sejam os religiosos da ordem ou mesmo os fiéis católicos simpáticos à espiritualidade jesuíta) se mostraram não como personagens coadjuvantes, mas sim agentes presentes e ativos nesse processo. Observando o conjunto e seu território sob o aspecto religioso e sagrado, é possível ainda afirmar que sob alguns aspectos o Pátio do Colégio nunca foi inteiramente destruído. O conjunto de documentos apresentados na pesquisa (assim como um grande número de representações), a preservação da materialidade sagrada percebida no momento da dispersão da igreja e partes do antigo colégio, a ação da Companhia de Jesus e seus antigos alunos não permitiram o desaparecimento completo do conjunto no imaginário da cidade, de seus atores sociais e instituições ao longo dos séculos, e se mostraram potentes instrumentos para a validação da reconstrução do conjunto finalizado em 1979 e do atual Pátio do Colégio.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Qualquer pessoa que tenha interesse na história da cidade de São Paulo, arquitetura e urbanismo, e em como a lógica religiosa tem, ainda hoje, grande influência nas decisões e transformações na cidade. Em relação às instituições, acredito que seja de interesse da Companhia de Jesus em São Paulo, da Asia (Associação dos Antigos Alunos dos Padres Jesuítas em São Paulo), do Museu Paulista, do Museu de Artes Sacras e da Igreja Católica.

 

 

João Carlos Santos Kuhn é doutorando e mestre em História e Fundamentos da Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Graduado em Arquitetura e Urbanismo pelo Centro Universitário de Brasília (2007). Vencedor do Concurso Opera Prima (2008). Atua como pesquisador no grupo de pesquisa Lugares de Memória e Consciência (FAU/USP) na linha de pesquisa: Cidade, Espaço e Religião.

Referências

  • CANADO JUNIOR. Roberto dos Santos. Embates pela memória: a reconstrução do conjunto jesuítico do Pátio do Colégio (1941-1979). 2014. Dissertação (Mestrado em História e Fundamentos da Arquitetura e Urbanismo). Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014.
  • DONATO, Hernani. Pateo do Collegio: Coração de São Paulo. São Paulo: Ed. Loyola, 2008.
  • MENEZES, Ulpiano T. Bezerra de. Morfologia das cidades Brasileiras: Introdução ao estudo histórico da iconografia urbana. Revista USP. São Paulo: CCS/USP,30: 144-155, jun./agos.1996.
  • MORAES, Geraldo Dutra de. A Igreja e o colégio dos Jesuítas de São Paulo. São Paulo: Prefeitura do Município de São Paulo. 1979 .
  • SALGADO, César. O Pátio do Colégio - História de uma Igreja e de uma Escola. São Paulo. Gráfica Municipal de São Paulo, 1976.

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